Bugio-Ruivo

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O bugio-ruivo, também conhecido popularmente pelo nome de guariba, barbado ou gritador, é um primata pertencente ao gênero Alouatta, da subespécie Alouatta guariba clamitans.

Esta subespécie ocorre na região leste do Brasil, ao longo do Bioma Mata Atlântica dos Estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e também na Argentina.

Os machos se apresentam maiores que as fêmeas, com um comprimento médio de 55 cm e cerca de 7,7 kg, enquanto na fêmea o comprimento médio é de 49,4 cm e 5,0 kg. Os machos possuem também uma pelagem mais densa localizada na região gular (próxima a garganta), formando uma barba espessa.

Nesta subespécie é ainda notável a ocorrência do dicromatismo sexual de sua pelagem, onde os machos adultos apresentam coloração ruiva, alaranjada ou avermelhada e as fêmeas e jovens imaturos possuem a coloração castanha escura.

Seu habitat são áreas de ocorrência de Floresta Ombrófila densa até 1.500 metros de altitude e floresta estacional semidecidual. São animais arborícolas, que ocupam todos os estratos arbóreos. Costumam ser encontrados nas regiões mais altas da cobertura florestal, podendo descer até o solo para beberem água. Estão presentes em áreas protegidas como a REBIO de Córrego Grande (ES), PARNA Caparaó (MG), REBIO Poço das Antas (RJ), dentre muitas outras.

O gênero Alouatta é o único dentre os primatas neotropicais a possuir espécies com hábito alimentar predominantemente de folivoria, ou seja, seu principal alimento são folhas. Para isso, adaptações especiais são observadas em seus molares, de forma a possibilitar a mastigação de folhas maduras. No entanto, sua dieta pode incluir também flores, brotos, frutos como os figos silvestres e sementes, como as de araucárias.

Devido a seus hábitos alimentares, apresentam pouca atividade diária, passando cerca de dois terços do dia deitados e em repouso digerindo as folhas que se alimentaram. O tempo gasto por estes animais na busca por alimento e a variedade de itens alimentares ingeridos sofrem variações de acordo com características ambientais, como a estação do ano, que influencia a disponibilidade das folhas. Em geral, a área ocupada pelos grupos é pequena, em torno de 5 a 45 ha, o que pode também ser decorrente de sua alimentação.

Bugios podem ser facilmente identificados através de seus uivos, semelhantes a gritos ou urros, daí o fato de serem conhecidos pelo nome popular de “gritador”. Vocalizam em grupo, durante o amanhecer e ao anoitecer, podendo ser ouvidos esporadicamente ao longo do dia. Seu uivo é audível de 1 a 5 km de distância, sendo uma característica marcante do gênero Alouatta.   Este comportamento é utilizado na demarcação de territórios ocupados, para identificar a posição dos membros do grupo ou também para intimidar outros indivíduos migrantes que não fazem parte dele. Podem viver em grupos familiares de até 15 indivíduos de ambos os sexos, embora existam relatos de grupos de 22 animais no estado de São Paulo. Em média, o bando possui 5 indivíduos e apenas um macho dominante.

Quando atingem a maturidade, os machos juvenis geralmente se separam do bando, partindo em busca de fêmeas para formar um novo grupo, ou podem também viver solitários em alguns casos. É comum que machos e fêmeas migrem entre unidades familiares em busca de melhores condições alimentares ou reprodutivas.

Os bugios são animais de comportamento poligâmico, observando-se que tanto os machos quanto as fêmeas podem acasalar-se com diferentes indivíduos dentro e fora de seu grupo.

A gestação dura em torno de 190 dias, gerando apenas um filhote, que permanece aos cuidados da mãe por 20 meses até alcançar independência. A maturação sexual ocorre por volta dos 6 a 8 anos para os machos e 4 a 5 anos para as fêmeas, apresentando longevidade que varia de 15 a 20 anos

A subespécie é classificada como vulnerável (VU), de acordo com o Instituto Chico Mendes e como pouco preocupante, de acordo com a IUCN (International Union for Conservation of Nature).

Apesar da ampla distribuição na Mata Atlântica, o bugio-ruivo vêm sofrendo ameaças, que de acordo com pesquisadores, podem levar a um declínio em suas populações. Dentre estas ameaças, podem-se citar a destruição e fragmentação de seu habitat natural, expansão urbana, epizootias e caça. As populações que vivem em fragmentos urbanos próximos a grandes cidades e no entorno de unidades de conservação, estão expostas ao risco de eletrocussão, atropelamentos e ataques de cães domésticos.

O recente surto de febre amarela ocorrido no Brasil, evidenciou a importância dos macacos no ciclo da doença, mostrando que os mesmos desenvolvem uma função de animais “sentinela”, ou seja, a presença de primatas mortos é um indicador da ocorrência de casos de febre amarela em uma determinada região. Os macacos, assim como os humanos são apenas vítimas do vírus, adoecendo ao serem picados por mosquitos do gênero Haemagogus infectados com o vírus da febre amarela.

Segundo estudos do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB), todos os primatas neotropicais são suscetíveis à doença, mas os bugios em especial são mais sensíveis à infecção. Isto se deve ao fato dos bugios possuírem um comportamento diferente de outras espécies de macacos. Vivem sobre árvores repousando, e esporadicamente descem ao chão, facilitando a ação hematófaga do mosquito transmissor. Além disso, quando no solo e doentes, percorrem poucos metros de distância das áreas de floresta, sendo em muitas vezes encontrados por turistas e visitantes em trilhas.

O bugio tem sido erroneamente incriminado como vilão, sendo responsabilizado pela transmissão do vírus da febre amarela e somente a divulgação correta das informações sobre o ciclo da doença irá contribuir para a preservação desta espécie.

Assim como outros primatas, bugios são importantes como espécies indicadoras de conservação de áreas naturais e também na justificativa de criação de áreas protegidas e recuperação de áreas degradadas, além de serem espécies sentinelas. Por isso, medidas que visam sua preservação, tais como maior fiscalização nas áreas de ocorrência do animal, projetos que auxiliem a mitigação dos atropelamentos e eletrocussões, monitoramento das populações, educação ambiental, dentre outras, são fundamentais para garantir a sobrevivência do bugio-ruivo.

 

Fotos: Fábio Azevedo Khaled Abdel Rahman

Summary: Wild Animals – Brown Howler Monkey. For more information contact: marciobarizoncepeda@yahoo.com.br or aline.sustentabilidade@gmail.com

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