Implicações econômicas e sanitárias da infecção por nematódeos anisakídeos em peixes de valor comercial

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Introdução

O consumo de peixes acompanha a história da humanidade por milhares de anos, constituindo-se em uma das principais fontes de obtenção de proteína da alimentação humana. Riqueza na composição de nutrientes, alta digestibilidade e presença de ácidos graxos poli-insaturados são algumas das características que tornam este alimento uma opção saudável do ponto de vista nutricional. O importante papel econômico da pesca, juntamente com a busca por hábitos alimentares mais saudáveis e a crescente valorização de pratos da culinária japonesa são alguns dos fatores que explicam o aumento cada vez maior na comercialização e consumo da carne de peixe.

Dados do ano de 2013 da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) revelam que o consumo de peixe atingiu a média mundial de 18,8Kg de peixe por habitante/ano. No Brasil, o consumo atingiu 14,5Kg de peixe por habitante/ano e, embora ainda esteja abaixo do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), representou um crescimento de 23,7% em relação ao ano anterior.
Apesar da importância nutricional e econômica, fatores como elevada capacidade de deterioração, desenvolvimento de micro-organismos patogênicos, acúmulo de biotoxinas, metais pesados e presença de endoparasitos podem afetar a qualidade e a segurança no consumo de pescado em geral. Doenças relacionadas ao parasitismo por nematódeos da Família Anisakidae em peixes de importância comercial constituem um importante problema de saúde pública, devido ao potencial zoonótico de algumas espécies, podendo ainda acarretar perdas econômicas e condenações por meio da inspeção sanitária.

Endoparasitos nematódeos da Família Anisakidae

A Família Anisakidae pertence ao Filo Nematoda e reúne parasitos que apresentam ciclo evolutivo indireto, com a presença de vários hospedeiros e ocorrência em sistemas aquáticos. Seu ciclo inclui vertebrados aquáticos, comumente mamíferos e aves piscívoras, como hospedeiros definitivos e invertebrados aquáticos como hospedeiros intermediários ou paratênicos (hospedeiros no qual não há desenvolvimento do parasito, mas o abrigam de forma viável até atingir outro hospedeiro). Os peixes atuam tanto como hospedeiros definitivos, quanto intermediários ou paratênicos.

A Família Anisakidae inclui gêneros de considerável importância médica, como Pseudoterranovasp. e Anisakissp., dos quais humanos podem ser hospedeiros acidentais, sendo ainda referidos outros gêneros como Contracaecum sp., Raphidascaris sp.e Hysterothylaciumsp.

Importância em Saúde Pública

As parasitoses relacionadas ao consumo de peixes são consideradas patologias emergentes, com tendência de crescimento a nível global. No Brasil e em outros países, a apreciação por pratos da culinária oriental torna comum o consumo de pescado cru, como sushi e sashimi. Este hábito se constitui em uma situação de potencial risco, já que larvas de anisakídeos com caráter zoonótico podem ser transmitidas ao homem através do consumo do pescado cru ou mal cozido, podendo levar a ocorrência da doença conhecida como anisaquíase. Casos de anisaquíase humana foram relatados na Espanha, Itália, Japão e diversos outros países. Além da doença, casos de reações de hipersensibilidade pela ingestão destes parasitos também são relatados.

Esta característica fez com que no ano de 2010 os anisakídeos fossem incluídos na Lista de Classificação de Risco de Agentes Biológicos do Ministério da Saúde, como Agentes Biológicos da Classe 2, definidos por “agentes que provocam infecções em homens ou animais e cujo potencial de propagação na comunidade e disseminação no meio ambiente são limitados”.

Embora no Brasil exista somente um relato de possível caso de infecção humana até o presente momento, pesquisas mostram a frequente presença destes parasitos em espécies de peixes da costa brasileira e alertam para o fato desta parasitose vir a se tornar uma zoonose emergente no país.

Sintomas da infecção por anisakídeos em humanos

São relatadas a ocorrência de edema nas camadas profundas da pele, distúrbios gastrointestinais, urticária, reações alérgicas e anafilaxia, que ocorrem em resposta à lesão tecidual, a ação de substâncias liberadas pelo parasito e sua interação com o sistema imunológico do hospedeiro. O diagnóstico da anisaquíase é dificultado pela falta de conhecimento da população e da comunidade médica, podendo ser confundida com outras patologias que afetam trato gastrointestinal.

A Infecção por anisakídeos em peixes

A infecção por endoparasitos em geral pode causar prejuízos à saúde dos peixes hospedeiros, levando ao desenvolvimento de lesões em diferentes órgãos e potencial desenvolvimento de doenças. Pesquisas mostram que as larvas de anisakídeos no 3° ou 4° estádio de vida, deixam o trato gastrointestinal do hospedeiro podendo se alojar no mesentério, em diferentes órgãos internos e ainda, se encistar na musculatura, mantendo sua capacidade infectante por mais de três anos.

Um estudo realizado pelos pesquisadores Eiras e Rego em pargos da costa do Rio de Janeiro revelou que o parasitismo por larvas de anisakídeos causou alterações histopatológicas no fígado destes animais, sendo observada a formação de granulomas eosinofílicos, necroses, descamações, infiltrado inflamatório, hemorragia e rompimento celular. Infecções por elevado número de parasitos podem acarretar prejuízos ao funcionamento do intestino, ocasionando, em alguns casos, a morte do hospedeiro.

Savelha (Brevoortia sp.), um hospedeiro de larvas de anisakídeos. Foto Claudiane Braihner

Perdas econômicas em peixes de valor comercial

Há relatos de parasitismo por anisakídeos em amplo número de espécies de peixes marinhos de importante valor comercial, tais como linguado, bonito, manjuba, corvina, cavalinha, peixe-espada, entre outros. A presença destes parasitos além de causar perdas econômicas na comercialização do pescado, reduzindo o valor de mercado de peixes parasitados, pode conferir aspecto repugnante aos animais, levando à sua condenação por meio da inspeção sanitária. O Capitulo VII, Seção I, Art. 445 do Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA), enumera as condições que tornam o pescado impróprio para consumo, e dentre estas se destacam o aspecto repugnante e a infestação maciça de parasitos na musculatura.

Garantia da segurança no consumo de pescado

A prevenção de parasitoses causadas por nematódeos anisakídeos, assim como por outros endoparasitos de maneira geral é principalmente feita através da adoção de medidas profiláticas realizadas desde a captura até a comercialização dos peixes. Tais medidas dependerão da atuação conjunta de diversos profissionais envolvidos em toda a cadeia produtiva, como pescadores, comerciantes e profissionais de

Vigilância e Inspeção Sanitária.

Diversas pesquisas têm sido realizadas com o objetivo de desenvolver técnicas que possam levar à inativação das larvas, como, por exemplo, a salga, a defumação, exposição ao tratamento térmico e congelamento. Estudos também demonstram que o processo de evisceração dos peixes imediatamente após a pesca, poderia reduzir a possibilidade de migração das larvas para a musculatura. A remoção dos parasitos e das regiões parasitadas é também uma medida recomendada.

Embora esforços de pesquisas em parasitologia do pescado e no desenvolvimento de técnicas de inativação das larvas venham sendo realizadas, a adoção das boas práticas de fabricação e manipulação, inspeção do pescado e conscientização da população representam ainda as medidas mais eficazes na prevenção e transmissão destas parasitoses.

2018-05-14T17:30:15+00:00