Por que investir no agro brasileiro?

Por

O agronegócio é a maior marca da economia brasileira. Com recordes recorrentes de produção, sequências históricas de superávit na balança comercial e a liderança na exportação de diversas culturas – como açúcar, café, suco de laranja, soja e carne bovina – o setor também é responsável por mais de um terço dos empregos do país. Ou seja, está no campo a esperança e a realidade de milhares de famílias brasileiras.

As atividades do agro, em todas as suas etapas, da produção à distribuição, refletem um Brasil que se renova sem perder sua vocação de alimentar o mundo. Nosso share está entre os 20 maiores mercados, com 6,9% do comércio agrícola mundial. Os embarques no segmento somam, em média, US$ 70 bilhões por ano, de um total de US$ 1,1 trilhão importados em todo o mundo. Temos ainda a maior receita líquida entre todos os países exportadores, de acordo com a Organização Mundial do Comércio (OMC).

Ao contrário do que muitos pensam, somos também exemplo de sustentabilidade. O Brasil tem 66,3% de seu território preservado — contra 9,7% da América Central; 7,8% da África; 5,6%  da Ásia e apenas 0,3% da Europa. Nossas leis ambientais estão entre as mais rigorosas do mundo, bem como a regulação, a fiscalização e a normatização de defensivos, que é realizada pelo Ministério da Agricultura. A ampliação de práticas sustentáveis é uma constante nas políticas internas de todas as entidades representativas da área, como a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

Graças à tecnologia e à capacitação, hoje é possível produzir mais com muito menos. Um produtor que há 50 anos alimentava sozinho 26 pessoas, hoje alimenta 155. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produtividade do agro brasileiro, medida pela média quilos/hectares, aumentou mais de 200% nos últimos 30 anos, passando de 1.258 kg/ha para 3.844 kg/ha. Isso representa um crescimento contínuo que deve persistir nas próximas décadas, com o aumento da demanda, maior automatização e ampliação dos contratos com grandes mercados importadores, como China e Rússia. Em 2017, ultrapassamos a barreira de uma tonelada de grãos por habitante, o que nos coloca atrás apenas de Argentina, Austrália, Canadá e Estados Unidos, maiores produtores no segmento.

Para que esse crescimento seja sustentável, é importante que seja integrado. Vejamos o caso do milho, principal insumo nos segmentos de carne suína e de aves. O cereal é responsável por 65% da composição da ração animal, impactando, em média, 70% no total dos custos de produção. Portanto, investir no planejamento estratégico para aquisição e estocagem de grãos e ampliar a realização de negociações no mercado futuro são algumas das vias que visam à criação de um cenário de maior previsibilidade para os produtores e para a agroindústria. São estímulos como esses, em benefício da produtividade e da saúde financeira de todos os elos da cadeia, que permitirão que o Brasil avance, mesmo em períodos de dificuldades.

A população mundial não para de crescer, e deverá chegar a 8,1 bilhões de pessoas em 2025. Ao mesmo tempo, aumenta o poder aquisitivo, ampliando as classes médias, sobretudo na Ásia. Essa evolução se reflete em maior consumo de alimentos, especialmente proteína animal. Hoje, nossa produção é embarcada para 160 países, e possuímos capacidade para atender ao mercado doméstico e ampliar as exportações. A FAO, órgão das Nações Unidas para agricultura e alimentação, estima que a produção terá de aumentar em 70% para dar conta desse crescimento.

Temos condições de satisfazer variadas demandas pelo mundo afora. Nossa produção tem se adaptado muito bem às necessidades e costumes de consumidores de diferentes pontos do globo, com alto valor agregado. Um exemplo é o frango, que chega em cortes diferenciados para alguns países – como o kakugiri, no Japão, e o shawarma, no Oriente Médio. Ou então opções pré-temperadas e prontas para o consumo, ideais para os novos hábitos urbanos. Nos próximos anos, a ave seguirá em destaque, impulsionada pela expansão da população muçulmana, que deve alcançar 2,2 bilhões de pessoas em 2030.

Agregar valor, aliás, é uma das fórmulas para a ampliação da receita. Para se ter uma ideia, se todo o milho e a soja utilizados como insumos na produção de frangos fossem exportados, renderiam ao país US$ 925 milhões – US$ 5,9 bilhões a menos que os embarques de carne de frango, em números de 2016.

Trabalhar no agronegócio é pensar no futuro. Projetar as produções vindouras, antecipar-se às intempéries e aos movimentos do mercado, reforçando o conhecimento e inovando sempre. O consumidor está cada vez mais exigente. Busca produtos diferenciados e com alto padrão de qualidade. E isso nós temos de sobra, com altos investimentos em segurança sanitária, certificações internacionais de órgãos autônomos e a realização de centenas de auditorias privadas, além de treinamentos em boas práticas de fabricação e rastreabilidade.

O clima também é um importante aliado do Brasil, tanto para os custos de produção, como para a manutenção do status sanitário. Na cadeia avícola, por exemplo, somos os únicos entre os grandes produtores mundiais que nunca foram afetados pela influenza aviária. Sabemos da relevância e da vantagem competitiva que esse título representa no cenário internacional, e por isso trabalhamos muito para mantê-lo. Todos os anos, diversas ações setoriais de orientação e qualificação são realizadas em todos os segmentos do segmento produtivo, no intuito de preservar critérios rigorosos de sanidade.

Em curto, médio e longo prazos, o mercado nos reserva grandes oportunidades. No entanto, ainda temos desafios a vencer para explorarmos melhor as nossas potencialidades e fortalecermos nossas virtudes. O Brasil ocupa apenas a 75ª posição no ranking de competitividade global, elaborado pelo Banco Mundial. Precisamos qualificar as condições logísticas para melhorar o escoamento, reduzir a burocracia estatal e a carga tributária, diminuindo assim o custeio. Um cenário que indique a continuidade de uma política econômica sólida, com foco na responsabilidade fiscal e em reformas estruturais, além da aplicação das novas leis trabalhistas, tem muito a contribuir para esse processo.

O impacto da proteína animal

O Brasil é um dos principais players mundiais em proteína animal, sendo o maior exportador de carne de frango e o quarto colocado nos embarques de carne suína. Juntos, esses dois sistemas produtivos geram cerca de 4,1 milhões de postos de trabalho no país, entre diretos e indiretos. Somos também o segundo maior produtor de carne bovina, com 209 milhões de cabeças de gado, 18,6% deste montante abatidos por ano. O país responde por 15% do sharemundial no segmento, com 1,88 milhão de toneladas embarcadas anualmente.

Neste cenário, destaca-se a avicultura, responsável por, em média, 37% de todas as exportações brasileiras. São quase 13 milhões de toneladas produzidas por ano, o que nos coloca atrás apenas da China, onde a produção está estagnada e ameaçada por uma crise hídrica. Nos últimos anos, o consumo doméstico do produto também tem aumentado, com tendência de manutenção deste cenário para a próxima década.

A carne de frango é a proteína animal mais consumida no Brasil, com 41,1 kg/per capita por ano. Houve crescimento superior a 300% nos últimos 30 anos. O brasileiro também está mais receptivo à carne suína, com altas consecutivas no consumo, que chegou a 14,4 kg/per capita em 2016. A carne bovina, apesar de baixas consecutivas nos últimos anos, segue em patamar bem superior a outros grandes consumidores mundiais de proteína animal, como a própria China, Coreia do Sul, Japão e México.

Para se ter uma ideia da relevância do setor no país, foram exportadas  60 milhões de toneladas de frango nos últimos 40 anos, contabilizando receita de US$ 94 bilhões. No total, são 2,4 milhões de contêineres para 203 países. No mesmo período, 9,3 milhões toneladas de carne suína brasileira foram comercializadas com 120 nações, gerando US$ 19,3 bilhões. A Arábia Saudita compra do Brasil 88% de todo o frango que consome; a China 75%, seguidos de União Europeia (53%) e Japão (42%). Nosso principal mercado para suínos é a Rússia, onde 90% de tudo que é comercializado no segmento é proveniente das nossas terras.

O custo de produção de proteína animal é relativamente baixo comparado a outros segmentos. A tecnologia está cada vez mais presente na agroindústria e no campo e, além da sanidade animal, temos eficientes programas nacionais de biosseguridade e um trabalho consistente de integração de todos os elos da cadeia. A ABPA, representante de 140 empresas do setor, oferece suporte para que o Brasil opere nos níveis de exigência global. A promoção da qualidade dos nossos produtos é fundamental em um mercado tão competitivo e, por isso, estamos sempre atentos às oportunidades e em contato com plantas de importação e órgãos governamentais reguladores.

Os desafios são de diversas ordens e estão em várias frentes, mas as perspectivas são animadoras. Trabalhamos muito para reafirmar constantemente nossa vocação de pátria produtora de alimentos, unindo o setor e valorizando os produtores que trabalham pelo bem do nosso país. Podemos – e vamos! – ir mais longe se corrigirmos problemas históricos e fortalecermos nossas virtudes. O Brasil é agro com orgulho, e cresce com a força da nossa renovação e da valorização da nossa terra.

Francisco Turra é presidente-executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA)

2018-08-20T15:44:44+00:00