História

Desde menino, na Espanha, na pitoresca Tamaguelos, região da Galícia, sua terra natal, Celso Garcia Cid demonstrava intenso amor pelos animais, pois o que mais gostava de fazer, para ajudar a mãe viúva, era trabalhar com o boi, que puxava o arado para cultivar a terra.

De natureza empreendedora e visionária, além de pragmatismo imensurável, Celso Garcia Cid iniciou sua vitoriosa vida na pecuária paranaense, adquirindo em 1945, de Luís Deliberador, os primeiros 13 alqueires das férteis terras roxas no município de Sertanópolis, à margem esquerda do Rio Tibagi.

A partir de então iniciava uma empreitada empresarial mais arrojada e foi comprando alguns sítios vizinhos. No ano de 1951, adquiriu o maior lote, com 285 alqueires, de Amélia Gonçalves, a conhecida dona Melica, que ficara viúva há pouco tempo de um grande amigo e vizinho, o Sr. Manoel Gonçalves.

À medida que o tempo passava, Celso Garcia Cid, ou simplesmente o Seu Celso como gostava de ser chamado, olhava o horizonte e enxergava a Índia, país com rebanho puro de zebuínos, entre eles as raças Gir e Nelore. Sonhava em trazer exemplares genuínos, de expressiva genética racial, para que suas proles no Brasil tivessem o vigor do sangue nobre daqueles inigualáveis bovinos. Esta paixão crescia dentro dele dia após dia. Encaminhava pedidos de orientações para importação de bovinos ao Ministério da Agricultura insistentemente. As respostas eram sempre negativas. Porém nunca desanimou. Perseverante, continuava planejando ir à Índia e trazer seus animais para melhoria do rebanho, mas também para compartilhar com criadores brasileiros.

Estudou a fundo, pesquisou bastante e passou a consultar e colher opiniões de técnicos e veterinários, reforçando sua convicção de que haveria, sim, ainda na Índia, verdadeiras “joias raciais”, ou seja, animais puros que poderiam melhorar o sangue e aumentar a produtividade dos rebanhos, não só no Brasil como de toda a América Tropical.

Determinado a realizar seu sonho, em dezembro de 1957, foi à Índia para trazer os primeiros exemplares zebuínos de qualidade inigualável. Uma maratona de dificuldades, mas que nunca venceu seu otimismo e determinação. Trazer os animais foi mesmo uma verdadeira epopeia. Contra tudo e contra todos, contando apenas com seus filhos e amigos mais fiéis, desafiou as leis mais arcaicas e cruzou os mares, trazendo com ele os reprodutores e matrizes que iriam mudar a história da criação bovina no país. O gado só chegou ao Brasil em 1960, selando definitivamente o pioneirismo de Seu Celso na árdua missão do melhoramento genético de animais zebuínos. Do lote de 112 animais importados, cedeu 60 cabeças para criadores interessados, entendendo que “ceder”, entre pecuaristas, não significava apenas vender, mas fazer negócios propícios à continuação das linhagens, amarrando laços de amizade entre criadores para futuras cruzas, trocas e permutas.

Já na exposição de Londrina, em abril de 1961, continuava a fazer, de terno e gravata, o que raros criadores fazem: desfilar, com os animais pela pista, com a varinha de peroba numa mão e na outra a corda do cabresto. O sorriso estampado refletia não só a certeza de empreitada de importação, mas também a garantia de procriação de raças bovinas inefáveis.

Pureza

À medida que os animais eram importados e os cruzamentos eram concebidos, Seu Celso já vislumbrava um diferencial em proporcionar o surgimento de exemplares únicos, cada vez mais puros, evitando a consanguinidade e promovendo a melhora genética em seu plantel.

Surgiam machos e fêmeas com qualidades zootécnicas excepcionais, com linhagem fenotípica para corte e excelente qualidade em fertilidade e reprodução. Além de exímio conhecedor, Seu Celso também era conselheiro de amigos pecuaristas, motivando a melhoria genética, e projetando novos cruzamentos pelas inúmeras derivações entre os novos criadores.

Toda dedicação na criação também impunha regras e atitudes para preservar a melhor qualidade de matrizes e reprodutores. Investiu em nutrição animal, ofertando alimentos volumosos de qualidade, sempre complementando com mineralização adequada. Tinha zelo especial pela parte sanitária, nunca falhando nas medidas higiênicas com o gado. Cumpria rigorosamente os calendários de vacinações, deixando o rebanho sempre pronto e bonito Os pecuaristas usufruíram do pioneirismo do Sr. Garcia Cid pela importação de zebus e inúmeros cruzamentos para exposições, já que era a vitrine natural a ser utilizada na divulgação da boa raça Nelore. A intenção era sempre multiplicadora. Exemplares de alto potencial genético recebiam assistência técnica antes mesmo do nascimento. Matrizes prenhas eram manejadas com os rigores de se evitar qualquer estresse, para não se correr riscos ou casos fortuitos. Do nascimento à desmama os bezerros recebiam atenção e insumos necessários para potencial imunológico e aptidão reprodutiva, originando excelentes resultados no ganho diário de peso. As bezerras que, mais tarde, se tornariam matrizes, evoluíam com a melhor característica da raça Nelore: a habilidade materna.

Conquistas

Muito mais importante do que as premiações conseguidas ao longo de várias décadas, estava o reconhecimento da classe de pecuaristas que, não só usufruíram do pioneirismo do Seu Celso pela importação zebuína, mas também pelos inúmeros cruzamentos e “choques de sangue” que originaram. Colecionar prêmios nunca foi a meta principal de Seu Celso e sim proporcionar melhorias genéticas verdadeiras nos animais, capazes de revolucionar as maravilhosas raças Nelore e Gir como modelos brasileiros de pecuária. No contexto pregresso e histórico das conquistas da Fazenda Cachoeira 2C, o modelo apregoado e ensinado pelo Seu Celso permanece vivo até hoje. Há continuidade familiar nessa preservação, tendo na figura dos atuais herdeiros e proprietários o legado da conquista de Melhor Criador e Expositor do Estado do Paraná por seguidos anos, além de reconhecido destaque no Ranking Nacional, atualmente entre os 10 melhores criadores de Nelore do Brasil.

As conquistas e a atual manutenção do alto padrão racial impõem, cada vez mais, a necessidade das novas gerações de familiares em prosseguir na criação bovina, tendo como base duas peculiaridades naturais do Seu Celso: amor e dedicação. Sua máxima sempre foi “se for fazer algo faça sempre bem-feito, nunca pela metade”.

Números

O panorama da Fazenda Cachoeira 2C nos dias de hoje mostra um aproveitamento singular da área possível de cultivo, bem como a obediência natural de preservação ambiental. Mais importante do que ter extensas áreas e ter terras com culturas de excelente produção, com preservação de solo e mananciais hídricos. Assim, os resultados da farta colheita refletem o incremento na produtividade, a qual sempre foi perseguida pela perseverança de Seu Celso e agora por seus seguidores.

A auto sustentabilidade da Fazenda reflete-se atualmente numa logística contínua de excelente utilização da área de 110 alqueires. O aproveitamento da terra é destacável, pois devido à fertilidade do solo, produz-se alimento para o rebanho o ano todo, permanecendo intacta áreas de mata como reservas naturais intactas. Essa consciência ecológica permite manter um rebanho saudável de 674 bovinos de elite zootécnica, criados em piquetes bem planejados e distribuídos, possibilitando monitoramento constante aos olhos dos encarregados. O gado convive com preceitos de bem-estar, zonas sombreadas e bem distribuídas em 50 alqueires de pastagens, permitindo 11,2 UA por alqueire, bem como área para trato específico aos exemplares de elite. Além disso, com aproveitamento modular da área de pastagem não há sobrecarga animal e a topografia excelente da Fazenda Cachoeira 2C não proporciona problemas de casco nos animais lá criados. Apesar de precoces e com peso excepcional para uma exploração comercial, são raríssimos os casos de bovinos com problemas podológicos.

Tecnologia

Depois que Seu Celso nos deixou em 1972, a Fazenda Cachoeira 2C, apesar de algumas mudanças gerenciais, nunca perdeu o foco de continuar produzindo e reproduzindo a bovinocultura de qualidade. Utilizando melhores e atuais tecnologias, a fazenda conta com logística atual de infraestrutura e insumos, além de melhorar a produtividade animal, através de intenso cuidado e contínuo acompanhamento com o que há de inovador nas áreas de nutrição, sanidade e reprodução animal. Nesse aspecto, ou seja, o reprodutivo, a fazenda acompanha e aplica tecnologias de ponta como: inseminação artificial, inseminação artificial em tempo fixo, fertilização in vitro e transferência de embriões. Num passado recente já implantou a clonagem de bezerras com sucesso destacável. No que concerne aos bovinos machos, a fazenda mantém esquema adequado de busca reprodutiva ideal, com exames andrológicos periódicos e contínua assistência técnica na preparação de exemplares para futuros reprodutores campeões.

Sempre buscando a produtividade animal, com manejo racional e lucratividade no contexto pecuário, a fazenda tem, nos objetivos intrínsecos de seus gestores, a linha mestra da pecuária de corte, aspecto peculiar e de inigualável comparação da raça Nelore. São animais, bovinos, machos e fêmeas, com precocidade impressionante e potencial para produção de carne como poucos pecuaristas nacionais.

Nesta ótica se enquadram a perspectiva de ouro do Nelore como matriz proteica do Brasil, possibilitando que haja um incremento real nas exportações de carne, cuja produção ganhou em tempo e qualidade, pois nos dias atuais o abate dos animais é muito precoce, com índices absolutamente extraordinários. Os resultados de anos de trabalho de visionários, como Seu Celso e tantos outros de familiar identidade com o Nelore, elevaram o Brasil ao primeiro lugar como maior país de rebanho bovino comercial do mundo.

Gir

Em outro viés, igualmente importante, está a qualidade do rebanho Gir que, não somente pela manutenção de pureza genética com dupla aptidão, destaca-se nas condições tropicais brasileiras pelos cruzamentos com rebanho europeu, originando animais com expressiva heterose, mais resistentes, criados a pasto, e de inigualável papel econômico e social também na pecuária leiteira brasileira.

“Os filhos permanecem fiéis aos bons princípios que norteiam um verdadeiro produtor rural”

Capacitação

Com o mesmo espírito empreendedor do pai Celso, Beatriz Garcia Cid e seus filhos Guilherme, Gustavo e Gabriel, atuais proprietários da Fazenda Cachoeira 2C permanecem fiéis aos bons princípios que norteiam um verdadeiro produtor rural.

Preocupados em melhorar sempre, iniciaram em 24 de novembro de 2012 um arrojado projeto de capacitação profissional, com ensinamentos técnicos e educacionais para todos os servidores que trabalham na fazenda, além de outros interessados. Essa iniciativa originou a Escola de Capatazes, cuja finalidade é possibilitar uma melhor capacitação da mão de obra rural, em especial aos que atuam com a pecuária. A Escola de Capatazes permite treinamentos práticos, possibilitando o repasse e a permuta de conhecimentos entre a ciência e a experiência.

Entre os objetivos está o treinamento para se evitar e/ou minimizar perdas na lida do gado, individual ou rebanho; obediência ao comportamento e bem-estar de bovinos para se atuar com manejo racional e se evitar traumas e contusões; ambiente rural mais saudável com destino correto de lixo e resíduos; prevenção de doenças específicas dos animais; prevenção de doenças transmitidas dos animais para o próprio homem (zoonoses). Além disso, os participantes recebem orientações de como e o que manter na “farmacinha veterinária”, pois alguns produtos são adquiridos sem a necessidade de receita profissional. Por todas essas considerações, agregar ensinamentos a esses trabalhadores, que atuam na linha de frente das propriedades rurais, representa aplicar, na prática, o conhecimento como forma transformadora, respeitando o empirismo rural, mas melhorando o rendimento dos serviços motivados pela educação, permitindo progresso nos ensinamentos profissionais ao ser humano, sobretudo para corrigir erros e vícios. Esse sempre foi o ideal do Seu Celso e daqueles que, como ele, vivem e convivem com a pecuária progressiva numa sociedade positiva e trabalhadora.

Confraternização

Periodicamente, a Fazenda reúne todos os servidores para uma confraternização, momento em que celebram-se as efemérides do mês. Neste momento iguala-se o convívio, previne-se qualquer tipo de conflito interpessoal e motiva-se todos para que, cada um, seja uma peça imprescindível na engrenagem da propriedade.

O investimento no ser humano é, sem dúvida, uma das ações mais transformadoras para que a pecuária continue tendo escolaridade e compartilhamento num agronegócio sustentável, com índices cada vez mais reais e de suporte a demanda mundial pela indispensável proteína do leite e da carne bovina brasileira.

 

Por: Wilmar Sachetin Marçal