Lagosta do rio Paraíba do Sul em extinção

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Extensão geográfica territorial primitiva

Descrita pelo zoólogo naturalista sueco Carl Linnaeus  em sua obra clássica, “Systema Nature” (1758), o maior camarão de água doce das Américas possui um território de ocorrência nos estuários dos grandes rios que desembocam no Atlântico, desde a Flórida e América Central até as Antilhas, Colômbia, Venezuela, Suriname e Brasil (do Amapá ao Rio Grande do Sul).  (Biodiversitas , 2002).

No Brasil, com os nomes regionais de  Pitú, Lagosta de água-doce, Lagostinha do Ribeira, Lagosta de São Fidelis e Potipema, foi citada pela primeira vez na Carta de Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Pedro Alvares Cabral ao Rei D.Manuel de Portugal, assim narrando: “Enquanto lá estávamos foram alguns (índios) buscar marisco e não no acharam. Mas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande e muito grosso; que em nenhum tempo o vi tamanho.” (Caminha, 1500). Esse nobre crustáceo da ictiofauna brasileira, antes abundante nos grandes estuários dos rios da costa do atlântico, vem a cada ano, desaparecendo e rareando face à pesca predatória e sobrepesca da espécie.

Lagosta de São Fidélis (Macrobrachium carcinus). Foto: Adam Carvalho

Ecologia

Conforme  consta  dos  registros de vários  documentos consultados, entre eles, Planeta dos Invertebrados: (Macrobrachium carcinus), ed. 2017, a  lagosta do Rio Paraíba  do  Sul tem seu biótopo  preferencial no  Baixo Paraíba e rios afluentes e tributários, ecossistema fluvial que se estende de Rio das Flores a São João da Barra,  sendo mais encontrada na Região do município de São Fidelis, dando assim, origem a um de seus nomes. De  hábito noturno e habitando o fundo dos rios e lugares pedregosos, é durante a noite que tem maior atividade física comportamental durante seu ciclo de desenvolvimento, busca de alimentos  e reprodução.  Agressiva, contra seus predadores naturais, onde se defende com as manobras de suas potentes patas dianteiras, (pereiópodos) é mais fácil de ser encontrada durante os meses de junho e julho e janeiro a março, épocas de seus acasalamentos e reprodução. Canibal e carnívora, alimenta-se de algas, peixes, polpa de coco e matéria orgânica em decomposição, sendo por seus hábitos alimentares seletivos, difícil de  se criar em cativeiro. Esse  animal que vive tanto em água doce quanto salobra, são mais comuns em cursos mais altos dos rios, relativamente mais distantes do litoral do que outros camarões anfídromos. Prefere também ambientes com pedras e rochas, pouca profundidade, menor correnteza e águas mais turvas. Tolera bem a diferença de temperatura (24-28º) salinidade e PH alcalino entre 7 a 8.5.

Zootecnia

A lagosta de São Fidelis, quando adulta, apresenta dimorfismo sexual na sua morfologia corpórea:  coloração de sua carapaça, tamanho e volume corporal, sendo os machos maiores em relação as fêmeas menores.

Dados zootécnicos:
Habitat – Estuários dos grandes rios da Costa Atlântica;
Hábitos –  Notívago;
Reprodução – sexuada;
Oviposição –  60 mil a 240 mil ovos /ano;
Acasalamento – meses de junho e julho / janeiro a março;
Alimentação – herbívora, carnívora e onívara;
Tamanho – machos   30 cm, fêmeas  18 a 20 cm;
Comportamento – Agressivo/ selvagem.

Agronegócio

Responsável por uma das mais tradicionais e concorridas festas do interior do Estado, a Lagosta de São Fidélis-RJ era o atrativo turístico principal enquanto existiu com fartura no seu habitat primitivo de origem.  Consta nos arquivos históricos da prefeitura, que cada festa anual, período de 1968 a 1988 (20 anos), última festa, consumia centenas de  milhares  de  lagostas, indiscriminadamente: machos, fêmeas, adultos e filhotes, na pesca  e sobre-pesca, que sem fiscalização  do IBAMA, levou atualmente a espécie a risco de extinção.

Moqueca da Lagosta de São Fidelis. Um dos pratos típicos da Festa da Lagosta, realizada em São Fidelis-RJ.

Com a proibição da Festa da Lagosta, Lei Orgânica do Município de Campos dos Goytacazes, (1990) e reformulada em 2015, que proíbe festas e festivais utilizando a lagosta, bem como, restringe a pesca nas épocas de sua reprodução; o negócio que alimentava a culinária gastronômica tradicional de São Fidélis e municípios vizinhos,  petiscos em restaurantes, bares e botecos, diminuiu sensivelmente, dando oportunidade para que o maior crustáceo da Região possa se regenerar e livrar-se da lista dos animais em risco de extinção.

Consciência ecológica

A ideia de um festival centrado no consumo do Pitu nasceu dentro da Organização do Desenvolvimento Municipal – ORDEM, de São Fidélis. A finalidade era promover o desenvolvimento municipal a qualquer custo, entendendo que o desenvolvimento no seu sentido clássico, impulsionar  o crescimento econômico através dos recursos naturais renováveis e não renováveis, sem respeitar os limites da sustentabilidade, com a crença que os limites não existem, pois os recursos são infinitos, não deu certo, afirma o  Amb. Arthur Soffiati.

S O S lagosta de São Fidélis

Regata à vela para a conservação e preservação da lagosta. Rio Paraiba do Sul.

De autoria da bióloga Dra. Elane Oliveira da Silva, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), a Universidade lançou em 2003, a Cartilha de Conservação  da Lagosta de São Fidélis – na verdade, um camarão de água doce, denominado “pitu”. Esse manual de 27 páginas, ensina os pescadores como preservar a espécie ameaçada de extinção em todo o Estado do Rio, de acordo com o Ibama.

Autora da primeira monografia de final de curso das Licenciaturas da Uenf,  Elane concluiu que não adianta promover o defeso da espécie para um dado período, uma vez que ela se reproduz o ano todo. O ideal, segundo ela, seria fazer com que os pescadores não capturem mais fêmeas ovadas, bem como indivíduos menores que 11,5 cm – tamanho mínimo para que a fêmea realize a sua primeira reprodução.

É o chamado defeso do tamanho mínimo de captura. A lagosta é muito reprodutiva. Cada fêmea produz de 60 mil a 240 mil ovos. Muitos morrem, mas, mesmo assim, a taxa de sobreviventes é muito alta. “Se cada fêmea pudesse realizar pelo menos uma reprodução durante sua vida já seria muito bom, afirma a doutora. Segundo Elane, embora a lagosta esteja presente em outras partes do Rio Paraíba, sua área reprodutiva principal é o município de São Fidélis, devido às pedras e corredeiras.

Depois da desova, as larvas descem para o estuário, em Atafona, onde permanecem de 56 a 65 dias. “O estuário do Rio Paraíba do Sul, explica: é uma espécie de berçário das lagostas, que ali se desenvolvem, sofrem sua metamorfose e depois retornam para o habitat natural, nadando contra a corrente “.

A monografia de Elane, com o título “A informação científica como ferramenta na formação da consciência ecológica para proteção da Lagosta de São Fidélis (Macrobrachium carcinus Linnaeus, 1758)”, foi a vencedora do concurso organizado pela Ong Ecos Rio Paraíba. Esse trabalho científico, sem dúvida, é o primeiro passo real para a conservação,  manutenção e salvação  da espécie;  sua domesticação e criação em cativeiro.

Edino Camoleze
edino0644@gmail.com

2019-02-27T18:41:12+00:00 26/02/2019|Categories: Meio Ambiente|