Taxonomia e características gerais

A irara (Eira barbara) é um mamífero mustelídeo (Família Mustelidae), esguio e comprido. Classificada inicialmente como Tayra barbara (Linneau, 1758), ficou conhecida no idioma inglês por tayra. Seu nome (irara) provém etimologicamente do tupi-guarani, sendo uma junção de: yra (de eira), mel e uara (ara, por guara), fazendo referência a um “comedor de mel”, em tradução direta, sendo também conhecida como papa-mel.

Seu comprimento pode atingir 60 cm, sem contar a longa e espessa cauda, que pode chegar a dois terços do comprimento do corpo. Além disso, a irara possui um leve curvamento no dorso, como uma sutil corcunda, orelhas pequenas e arredondadas, e fortes garras adaptadas à escalada e corrida. Possui pelagem curta de cor marrom escura ou preta no dorso, pernas, pés e cauda; enquanto que sua cabeça pode ser mais clara (em tons de bege), marrom acinzentada, ou escura, similar ao restante do corpo; podendo ainda apresentar manchas mais claras na região ventral do pescoço.

Distribuição geográfica

A irara possui ampla distribuição geográfica, sendo encontrada desde o México até o norte da Argentina, ocupando países da América Central e América do Sul. Única representante do gênero (Eira sp.), tem ampla distribuição no Brasil, principalmente em áreas de vegetação densa, ocupando originalmente boa parte do território nacional e habitando quase todos os biomas, a saber, Amazônia, Mata Atlântica, Caatinga, Cerrado e Pantanal.

Dieta

Sob as árvores, sai em busca de uma diversidade de itens alimentares que incluem frutas, mel e pequenos invertebrados presentes nas árvores e no ambiente em geral. Nas matas, também caça pequenos roedores, sendo a irara, portanto, considerada um animal onívoro oportunista.

Hábitos

Iraras têm excelente olfato e é este sentido o que lhes permite encontrar suas presas com exímia precisão.

Seu habitat original são as florestas tropicais, matas ciliares e de galeria, embora habite também matas secundárias, fragmentos de matas e vegetações arbustivas em geral, onde encontre água, alimento e refúgio. Em ambientes transformados, a irara pode visitar alguns pomares e plantações. Quanto ao seu percurso diário, dados apontam para um deslocamento de 2 a 8 km diários.

Florestas mais preservadas, contudo, lhe oferecem melhores condições de sobrevivência e reprodução. Em ambientes assim, a irara costuma descansar em ocos de árvores e tocas deixadas por outros animais. Este gracioso mamífero nada com destreza e pode escalar as árvores com igual desenvoltura.

Nossas observações e relatos de campo indicam que as iraras costumam visitar as fontes de água de seu território, que nestes tempos caóticos de incêndios e perda de habitat, são fontes restritas, rotineiramente às primeiras horas da manhã. Tais observações foram realizadas no estado de Tocantins, em agosto de 2020, numa depressão do solo, onde a água permanecia retida. Elas bebem fartamente antes de seguir seu curso diário.

Um macho de irara (Eira barbara) em busca de água. Barrópolis, TO, agosto de 2020. Foto: Sávio Freire Bruno.

Reprodução

A irara é bastante ativa durante o dia, mas pesquisadores têm observado que o acasalamento ocorre, sobretudo, durante a noite. Os machos chegam à maturidade já com um ano e meio de vida, enquanto as fêmeas tardam um pouquinho mais, estando aptas a acasalar aos 22 meses, com um ciclo estral de aproximadamente 52 dias. Durante o ano, as fêmeas podem entrar no cio várias vezes, permanecendo nessa fase de três a 20 dias. Pouco mais de dois meses após a cópula, a fêmea costuma dar à luz de um a quatro filhotinhos e os cuidados da mãe são intensos, já tendo sido observado em cativeiro, que o pai pode ajudar nesses cuidados.

Não se sabe exatamente a média do tempo de vida de uma irara em vida livre, entretanto, os dados de cativeiro apontam para uma longevidade que pode alcançar 18 anos.

Conservação – Ameaças

Do ponto de vista legislativo, a irara ainda não é considerada como uma espécie ameaçada de extinção, embora suas populações sofram inúmeras ameaças, que incluem evidentemente a perda de habitat, especialmente pela destruição dos biomas em que se faz presente, além de atropelamentos e, como era de se esperar, pela perseguição e abate por humanos. Historicamente, nossa fauna sempre foi perseguida e abatida e a irara não é uma exceção. Certos produtores rurais, incluindo avicultores, apicultores e agricultores em geral, possuem conflitos de interesses com os hábitos alimentares da irara, e que carecem de alternativas pacíficas de convívio. A irara também é vítima de atropelamentos, assim como um enorme contingente da fauna nacional.

Por todas essas razões, faz-se necessária a preservação de seu habitat natural, promovendo a manutenção dos ecossistemas, a perpetuação da espécie e o enriquecimento da biodiversidade.

Obras consultadas

CARVALHO, C. T. Dicionário de mamíferos do Brasil. 2 ed. São Paulo: Nobel, 1979. 135p.

CUARÓN, A.D., REID, F., HELGEN, K. & GONZÁLEZ-MAYA, J.F. 2016. Eira barbara. The IUCN Red List of Threatened Species 2016: e.T41644A45212151.

DE ALMEIDA RODRIGUES, Lívia; PONTES, Antônio Rossano Mendes; ROCHA-CAMPOS, Cláudia Cavalcante. Avaliação do risco de extinção da irara Eira barbara (Linnaeus, 1758) no Brasil. Biodiversidade Brasileira, n. 1, p. 195-202, 2013.

Goulart, F. V. B., Cáceres, N. C., Graipel, M. E., Tortato, M. A., Ghizoni, I. R., & Oliveira-Santos, L. G. R. (2009). Habitat selection by large mammals in a southern Brazilian Atlantic Forest. Mammalian Biology – Zeitschrift Für Säugetierkunde, 74(3), 182–190. doi:10.1016/j.mambio.2009.02.006

Presley, S. J. (2000). Eira barbara. Mammalian Species, 636(1), 1. doi:10.1644/1545-1410(2000)636<0001:eb>2.0.co;2

. Sávio Freire Bruno: Professor Titular do Departamento de Patologia e Clínica Veterinária, Faculdade de Veterinária, Universidade Federal Fluminense; Professor Colaborador do Curso de Ciências Biológicas e do Curso de Ciência Ambiental (UFF). . Clara Souza Torres: Acadêmica do Curso de Medicina Veterinária, Universidade Federal Fluminense.

Revisão de texto: Clarice Villac

Agradecimentos: João Rafael Marins e Rafael Bessa, pela parceria nas observações e registro de campo.