Por que não usamos hormônios em frangos de corte?

Eu trabalho com nutrição animal e estou em contato com fazendeiros, avicultores e fabricantes de ração animal e, em minha vida privada, convivo com médicos, advogados, enfim consumidores influentes. Quando encontro amigos no Clube, na hora do almoço ou do jantar, vem sempre à tona o assunto de segurança alimentar, seguido dos comentários do tipo: frango nem morto – estão cheios de hormônios, e complementam: “Não viram o Jô Soares ou outro programa qualquer de entrevista quando o “Doutor Fulano”, assegurou que as meninas estão menstruando mais cedo porque estão comendo frango? Já viram um “Chester®”? É a réplica do Ben Johnson, campeão olímpico canadense que teve sua medalha de ouro dos 100m rasos confiscada pois confessou que “bombava” com “esteroides” quando foi pego no exame antidoping”.

Estas afirmações me causam profunda frustração, pois a avicultura como cadeia alimentar, a vida toda lutou para oferecer, nas prateleiras dos supermercados, produtos da melhor qualidade com o menor custo possível, e, constantemente, se vê vítima destas afirmações oriundas daqueles que não sabem a diferença entre ciência e ficção. A última e das mais difundidas foi a da Chef Roberta Sudbrack, escolhida para fazer o cardápio dos atletas brasileiros nas olimpíadas de Londres, quando declarou que produziu um cardápio adequado às práticas esportivas, mas deixou o frango de fora para evitar riscos dos atletas serem apanhados nos exames antidoping, uma vez que frangos contêm resíduos de hormônios. Acredito que a chef não tenha consciência da besteira que disse e fez.

Realmente, aos leigos pode parecer obra de alguma pílula mágica o incrível ganho tecnológico conseguido nos frangos pela conjugação de inúmeros fatores produtivos como: cuidados sanitários, nutrição, melhoramento genético convencional e melhoria das condições ambientais. A avicultura foi sem dúvida a atividade que mais avançou tecnicamente dentro do segmento das carnes. Para ter uma ideia desta evolução, basta observar a tabela a seguir:

Evolução da avicultura de corte

AnoIdade (dias)Peso Médio (kg)Consumo Ração (kg)Conversão AlimentarCusto US$/kgVariação
1970491,63,22,003,00
2000402,23,871,760,721,2

O frango no passado era tão caro que o Aparício Torelli, o famoso humorista gaúcho, apelidado de “Barão de Itararé”, tinha uma de suas máximas: “Galinha custa tão caro que pobre só come quando um dos dois está doente”. O Barão estava certíssimo, mas as coisas mudaram e hoje o frango é a proteína animal mais barata e continua como a preferida dos hospitais pelo seu baixo custo, alto valor biológico e fácil digestão. Do ponto de vista zootécnico foi a maior passagem de ganho tecnológico do produtor para o consumidor.

Esta questão tem sido abordada de forma errônea em função das muitas declarações de organizações não governamentais e também governamentais baseadas em testes e pesquisas malconduzidas. Existem, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, bem como no Brasil, produtores que anunciam frangos “Livres de Hormônios” (Hormone Free Chickens). A declaração não é mentirosa, pois hormônios não são usados nas criações de aves. No entanto, esta afirmação leva o consumidor a achar que o outro produto que não contém a mesma declaração, tenha hormônios. Exemplo deste tipo de propaganda enganosa foi feita há alguns anos no Brasil, quando alguns produtores de óleos vegetais começaram a colocar em seus rótulos – NÃO CONTÉM COLESTEROL. Pura verdade, pois colesterol não existe no reino vegetal, mas passava a ideia de que o outro produto sem esta afirmação tivesse colesterol. O problema foi a princípio resolvido com a alteração da frase para: NÃO CONTÉM COLESTEROL POR SER 100 % VEGETAL. Hoje, já ninguém se preocupa com o problema. Talvez a resposta seja colocar em todos os produtos avícolas a mensagem: “LIVRE DE HORMÔNIOS”.

Não existe uma razão lógica para qualquer produtor adicionar hormônios à ração dos frangos. Os incríveis ganhos de produtividade obtidos através do melhoramento genético convencional (Não existe o uso de transgenia em avicultura) e melhorias gerais no manejo das criações, dispensam qualquer tipo deste estímulo. Um trabalho foi realizado, há alguns anos, com frangos de corte da linhagem Ross 308 (de 2001), onde foi comparado o desempenho das aves de 2001 com uma linhagem selecionada ao acaso para não demonstrar qualquer melhoramento genético, desde 1957. No teste foram utilizadas rações típicas de 2001 e de 1957. Os resultados estão na tabela 1.

Tabela 1. Peso corporal, conversão alimentar de frangos de corte machos aos 21, 42 e 84 dias de vida (dados de Havenstein et al., 2003)

LinhagemDietaPeso Corporal (g)Conversão AlimentarCarne de peito 
2142842142844284
20012001891290359581.311.582.6819.5%21.2%
20021957647227146611.481.883.2617%19.7%
Diferença-18.2%-21.8%-21.8%13.0%19.0%21.6%-12.2%-7.1%
1957200121064119071.782.052.9511.2%11.8%
1957195718459117151.722.283.5711.5%12.0%
Diferença14.1%8.5%11.2%3.5%-10.1%-17.4%-2.6%-1.7%

Observe que os pesos das aves de 2001 com ração de 2001 é aproximadamente 4 vezes maior que as do regime de 1957 aos 42 dias de idade e também, as aves modernas (2001) consumiram menos da metade da ração que as de 1957 para atingirem o mesmo peso. Note também que as aves de 2001 tiveram, expresso como percentual do peso corporal, quase que o dobro de carne de peito que seus predecessores. Neste trabalho (Havenstein et al. 2003), estimou-se que 80% da melhoria foram devidos ao melhoramento genético, com a ração sendo responsável por 20% dos ganhos.

No entanto, trabalhos como este são de pouco valia pois os falsos nutricionistas de fim de semana não têm acesso a eles, e no campo universitário o conhecimento sobre nutrição e fisiologia deixam muito a desejar.

Na última Exposição Internacional de Avicultura (maior evento em Avicultura do mundo), em Atlanta, EUA, janeiro de 2013, mais de mil companhias mostraram seus produtos para a indústria avícola. Não havia uma única empresa apresentando ou mostrando produtos à base de hormônios para a avicultura. Isto nos faz retornar ao início de nosso artigo: por que então os consumidores têm esta impressão? Ignorância total sobre a atividade e alguns anúncios de frangos sem hormônios.

A avicultura não usa hormônios simplesmente porque eles não funcionam para aves

A resposta correta é: A avicultura não usa hormônios porque ela é boazinha – A avicultura não usa hormônios simplesmente porque eles não funcionam para aves.

Abaixo algumas informações que asseguram esse fato:

Duas substâncias hormonais poderiam ser utilizadas em frangos: hormônio do crescimento e esteroides anabolizantes.

Os hormônios não são eficientes. A administração de hormônio do crescimento não resulta em crescimento em frangos, da mesma forma que sua injeção em humanos não os torna um time de futebol vencedor. Crescimento é uma combinação extremamente complexa de funções metabólicas, dependentes de uma gama imensa de sinais endocrinológicos.

A administração seria extremamente difícil. Da mesma forma que a insulina, que é usada no tratamento de diabetes, o hormônio do crescimento é uma proteína. Se qualquer um deles fosse administrado por via oral, seria rapidamente digerido da mesma forma que a proteína da soja ou do milho. Como é sabido por todos, diabéticos precisam receber injeções de insulina. Portanto, mesmo que tivesse algum efeito nos frangos, o hormônio do crescimento precisaria ser injetado de uma maneira bastante frequente. A logística de injetar centenas de milhares de frangos com hormônio ilustra a impossibilidade deste cenário. Mais ainda: pesquisas recentes revelam que a liberação de hormônio do crescimento natural em frangos ocorre na forma de pulsos com picos a cada 90 minutos. Isto indica que se hormônio do crescimento tivesse que ser administrado nos frangos teria que ser através de injeções intravenosas frequentes.

Seu uso teria um custo elevadíssimo – Como o hormônio do crescimento de frangos (Gallus gallus, as vezes Gallus domesticus) não é produzido comercialmente, seu custo seria extremamente alto. Se 1 mg tivesse que ser administrado a um frango, o custo seria superior ao valor total do frango. Obviamente, isto não faz sentido comercialmente.

Teria um impacto negativo no desempenho – O frango moderno tem sido geneticamente selecionado para crescer tão rápido que ocasionalmente encontra limites fisiológicos. Todos somos familiares com casos de homens jovens, que quando entram na puberdade, apresentam uma fase de crescimento brusca. Este “surto” de crescimento é usualmente acompanhado de inflamação das juntas e outros problemas. Da mesma forma, o frango moderno vive no limite de seu máximo metabólico. De fato, ocasionalmente, a restrição alimentar é recomendada (por restrição física ou por redução na densidade nutricional) para reduzir a velocidade de crescimento e limitar a incidência de calos no peito, ataques cardíacos e ascites. Nas regiões tropicais, um brusco aumento na velocidade de crescimento resultaria certamente no aumento da mortalidade por “stress” térmico em algumas vezes. Desta forma, seria altamente imprudente forçar de forma súbita a velocidade de crescimento dos frangos.

Certamente perguntarão: e os esteróides anabolizantes? O abuso ocasional de esteróides anabolizantes por atletas faz parte do cotidiano da imprensa. Certamente não há a menor dúvida que seu uso aumenta a massa muscular. Todavia, este efeito em atletas só é possível quando o uso de esteroides é combinado com rigoroso treinamento físico, como halterofilismo. O que torna a questão mais inverossímil ainda é o fato de que a parte mais valiosa do frango, o peito, é composta de músculos usados para levantar e baixar as asas. Frangos não têm voado por milhares de anos. Sem exercícios e sem benefícios de esteroides anabolizantes.

Outro ponto importante – É frisar que os frangos crescem tão rapidamente que mesmo que fosse viável a injeção de hormônios sexuais nos frangos, eles afetariam o desenvolvimento das gônadas, em primeiro lugar. As aves (Gallus gallus) têm dois ovários, direito e esquerdo, Na medida em que amadurece, o ovário direito vai se atrofiando e apenas o esquerdo torna-se funcional. A atrofia do direito se deve a pequenas quantidades de androgênios produzidas pelo esquerdo. Dependendo da idade (mais jovem) a administração de hormônios altera esta diferenciação podendo o ovário esquerdo se transformar num ovotestis ou mesmo ter os dois funcionais, mas não haveria tempo hábil para qualquer modificação na velocidade de deposição muscular ou maturação do tecido ósseo.

Concluindo: Os frangos são grandes e eficientes graças aos ganhos oriundos do melhoramento genético, nutrição superbalanceada, ambiente adequado e intenso controle de doenças.