Avicultura brasileira, uma indústria que produz proteína e divisas

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A cadeia produtiva da avicultura é uma das mais importantes do agronegócio brasileiro e tem apresentado crescimento continuado na produção e nas exportações. É inegável o avanço desse setor, que evoluiu de uma atividade de subsistência e de simples fornecedora de esterco para os plantadores de café, nos anos 1930/1940, para uma indústria animal com alto grau de tecnologia, alicerçada em genética, nutrição e manejo, e que responde pela produção de proteína e pela geração de divisas.

Atualmente, o Brasil é o segundo maior produtor de carne de frango e o primeiro do ranking mundial dos principais exportadores.

Em 2016, o setor deve atingir um valor bruto da Produção de R$ 38,9 bilhões, segundo dados da Confederação Nacional da Agricultura (CNA). Com um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 51 bilhões, a avicultura brasileira gera 3,5 milhões de empregos diretos e indiretos, especialmente nos pequenos municípios. Somente na produção de frangos, são mais de 120 mil famílias de produtores integrados no processo. No ano passado, o país produziu 13,1 milhões de toneladas de carne de frango e 39,5 bilhões de ovos, segundo levantamento da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

Segurança alimentar

Francisco Turra

“A avicultura contribui de forma determinante para a segurança alimentar do país, com dois produtos que são destaques na mesa do brasileiro, o frango e o ovo”, afirma o presidente executivo da ABPA, Francisco Turra, acrescentando que cada brasileiro consome 191 unidades de ovos por ano. Segundo ele, desde o início do Plano Real, o consumo de carne de frango tem aumentado de forma significativa. “Saímos de 19 quilos per capita/ano para os atuais 43 quilos per capita/ano, registrados em 2015”, informa.

Turra acrescenta que carne de frango é hoje a proteína mais consumida pelo brasileiro, uma conquista alcançada não apenas pelos preços mais vantajosos, mas também pelo reconhecimento em relação à qualidade diferenciada dos produtos, que hoje são protagonistas na mesa do consumidor.

“O crescimento da cadeia da avicultura brasileira se deu principalmente pelo aumento do consumo da carne de frango no mercado interno e pelo crescimento das exportações”, afirma Dirceu J D Talamini, pesquisador da Embrapa Suínos e Aves (Concórdia, SC).

Cenário e perspectivas

Nem por isso, a avicultura vive dias de tranquilidade. Em razão do cenário econômico da crise atual do país, a ABPA tem acompanhado uma expressiva redução dos níveis de alojamento de pintinhos. De acordo com Turra, o setor está em um momento de estabilização. “Houve uma retração nos níveis do consumo interno de alimentos, como resultado direto da retração econômica nacional. “Caso esse quadro seja mantido, a expectativa é que os volumes de produção caiam para cerca de 13 milhões de toneladas (praticamente o mesmo desempenho de 2015), porém 4% a menos em relação à expectativa inicial do ano, que era de 13,5 milhões de toneladas de carne de frango”.

No entanto, equilibrando esse cenário, as projeções da ABPA indicam que os volumes embarcados de carne de frango podem crescer 8% em relação ao total exportado no ano passado. “Há grande expectativa com a manutenção das vendas para a China (consolidada como segundo maior mercado importador de carne de frango do Brasil), além do bom ritmo dos embarques para o Oriente Médio e outros países da Ásia, como o Japão e Coreia do Sul”, vislumbra Turra.

Momento de cautela

Para Talamini, da Embrapa, no que se refere ao mercado interno e externo do frango, o momento é de cautela. “Apesar do potencial de expansão da produção da carne de frangos do país, de esta ser a proteína mais consumida no Brasil e de o Brasil ser o maior exportador, o ano de 2016 tem sido muito difícil, por causa da escassez e dos elevados preços do milho, principal ingrediente das rações”, explana.

De acordo com dados da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), no mercado atacadista de Chapecó, SC, em janeiro de 2016, a saca de milho valia R$ 27,20 e, em agosto, atingiu R$ 54,00, causando grande elevação nos custos de produção que não foram repassados aos preços do consumidor.

Dados da Central de Inteligência de Aves e Suínos da Embrapa Suínos e Aves dão conta de que o custo de produção da avicultura subiu mais de 25% nos últimos 12 meses. O gasto com a nutrição das aves representa 70% do custo total, de acordo com a mesma fonte.

“Serão necessários esforços e ações conjuntas do governo, indústrias e produtores especialmente no que se refere ao abastecimento e aos preços do milho para superar essa difícil fase. É preciso criar estímulos econômicos, como está ocorrendo no Estado de Santa Catarina, para o produtor aumentar a produção, tanto de milho como de outros cereais, especialmente os de inverno, e no curto prazo, facilitar as importações do cereal e disponibilizar os estoques do governo”, sugere Talamini.

Contudo, o problema maior a ser vencido, na opinião de Jonas I. Santos Filho, pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, “é a atual crise política e econômica, que, quando superada, possibilitará um governo com contas públicas organizadas e controladas, com menor nível de inflação, maior con ança dos empreendedores, volta dos investimentos e, com isso, a criação de empregos, melhora na renda e expansão do consumo de alimentos por parte da população”.

Ainda assim, na análise de Santos Filho, sobram as di culdades logísticas históricas, como a precariedade das estradas, dos portos, do custo da energia elétrica, da pesada carga tributária e da adequação das leis trabalhistas. “Esperamos que as lideranças do país caminhem nessa direção, pois a cadeia produtiva de aves tem competência para continuar sua trajetória de sucesso como tem feito até aqui.”

José Roberto Bottura, diretor executivo da Associação Paulista de Avicultura (APA), afirma que São Paulo também enfrenta problemas em relação ao abastecimento de matéria-prima, especialmente soja e milho. “Além do Estado não ser um polo produtor dessas culturas, no Brasil não há uma política de abastecimento para a atividade”, salienta e acrescenta que, ao invés de matéria-prima, o país poderia exportar produtos com valor agregado.

“Em decorrência do aumento dos custos de mão de obra e de alimentação e da redução do consumo, em São Paulo, as empresas estão sendo obrigadas a reajustar para baixo, para ajustar a oferta à procura e recuperar a margem da atividade”, relata, acrescentando que a medida também inclui a demissão de funcionários.

Devido à redução do consumo e ao aumento dos custos da atividade, em junho, a Averama fechou a unidade de Umuarama (PR), e, em agosto, a GTFoods (Maringá, PR) e a Globoaves (Cascavel, PR) entraram com pedido de recuperação judicial.

“A tendência, tanto em São Paulo como em todo país, para enfrentar a crise, é realizar ajustes, além de intensi car o uso de tecnologias que consolidaram a atividade como fornecedora de proteínas mais baratas para a alimentação (ovo e frango)”, comenta Bottura.

No que tange ao mercado externo, o país mantém-se como maior exportador mundial da carne de frango, mas as mudanças na taxa de câmbio e no preço da tonelada do produto em dólares são motivo de preocupação, na visão de Santos Filho, da Embrapa.

“O dólar valorizado, que chegou a valer 4 reais, favorece as vendas externas. Contudo, a situação está mudando e o dólar está caindo, aproximando-se dos 3 reais. Esta taxa de câmbio, somada à queda do preço da tonelada da carne de frango, que valia 1.672 dólares em julho de 2015, e caiu para 1.589 dóla- res no mesmo mês de 2016, compromete a remuneração do produto, especialmente com os atuais preços do milho”, analisa o pesquisador.

Reconhecimento internacional

No mercado externo, o Brasil atende à demanda de mais de 150 países dos cinco continentes. Anualmente, são mais de US$ 7 bilhões em receita de exportações obtida com a comercialização de 4,3 milhões de toneladas em 2015. “Esses números mostram o reconhecimento do frango brasileiro como proteína de alta qualidade, diferenciada, com excelente valor nutricional, desenvolvida dentro de um sistema produtivo com total controle de qualidade e sanitário”, argumenta Turra.

Para ilustrar, o presidente da ABPA lembra que para transformar um pintinho de um dia em um frango com peso ao redor de 2,5 kg, em 42 dias, há uma série de desa os. “Equilibrar custos de produção, investir em insumos de alta qualidade, em genética de ponta, e ambiência adequada e muita dedicação estão nesta receita que não aconteceu da noite para o dia”, pondera.

“São décadas de investimentos, alicerçados em um modelo produtivo baseado na padronização e no controle, por meio da integração entre produtores e agroindústrias. Um sistema sólido, vantajoso para todas as partes envolvidas, que permitiram ao país alcançar um dos melhores padrões sanitários do mundo, traduzidos pela oferta de produtos de excelente qualidade ao mercado”,

Obviamente, Turra diz que sempre há desafios maiores a serem superados. No momento, explica, os gargalos são os custos de produção, com alta superior a 100% nos preços do milho, além do aquecimento das cotações da soja. “O setor, entretanto, é sólido e, graças ao seu profissionalismo, investimentos e grande dedicação, conseguirá manter sua representatividade junto ao agronegócio e à economia nacional”, analisa.

Talamini, da Embrapa, lembra que avicultura sempre investiu em tecnologias modernas e na pro ssionalização dos técnicos e dos produtores para manter sua competitividade internacional. “A cadeia é longa e envolve muitos atores, parte controlados pelas agroindústrias e parte como o setor de equipamentos, medicamentos, vitaminas, por exemplo, em empresas independentes. Todas as empresas atuam sinergicamente, buscando um alinhamento das partes envolvidas de forma a otimizar as ações e a manter o desempenho da atividade”, ressalta.

Produção brasileira

Atualmente, o Estado do Paraná é o maior produtor brasileiro, superando Santa Catarina, que ocupa a segunda posição, ambos com produção concentrada na região oeste dos respectivos estados.

“Estima-se que mais de 70% da produção ocorram em pequenas propriedades familiares, que trabalham no sistema de integração com as agroindústrias privadas e com as cooperativas”, afirma Santos Filho. Nesse arranjo, em geral, a agroindústria fornece os pintos, insumos e assistência técnica e o produtor é responsável pelos aviários, energia elétrica e mão de obra.

A avicultura é a terceira colocada no PIB do agronegócio paulista, representando R$ 6,312 bilhões, o equivalente a 9,88% do total do PIB do Estado, e garantindo 50 mil empregos. Segundo o diretor executivo da APA, São Paulo se destaca como principal Estado com aves da alta genética, com mais 80% do plantel nacional. Também possui um grande polo produtor de ovos, localizado na região de Bastos, que responde por 50% do plantel de aves de postura do Estado.

De acordo com levantamento da APA, em 2015, o alojamento de pintos de corte de um dia totalizou 593.486.520 unidades, o equivalente a 9,13% do total Brasil. No período, a produção de carne de frango do Estado alcançou 1.621.052 toneladas. Já o alojamento de pintos para produção de ovos somou 28.998.145 pintainhas, representando 31,72% do total do país. Por sua vez, a produção de ovos de consumo chegou a 1.033.055.000 dúzias ou 12.396.666.000 unidades.

Em menos de 45 dias, eles chegam a 2.200 gramas

A criação em alta densidade exige técnica apurada e muita atenção

Condomínios avícolas

O setor está sempre se inovando. Em junho deste ano, a Dália Alimentos, de Encantado, RS, anunciou investimentos de R$ 95 milhões na criação dos Condomínios Avícolas, um novo modelo de parceria na avicultura. A iniciativa abrange os municípios gaúchos de Marques de Souza, Encantado, Relvado, Guaporé, Venâncio Aires, Vespasiano Corrêa, Mato Leitão e Anta Gorda, onde funcionarão núcleos responsáveis pela produção de frangos de corte para abastecer o Complexo Avícola que será construído no município de Arroio do Meio, em Palmas, próximo ao Complexo Lácteo da empresa. No local, será instalado o frigorí co de aves, a fábrica de rações e a fábrica de farinhas. O investimento em cada condomínio (núcleo de produção) será de R$ 5 milhões.

Segundo o presidente executivo da Dália Alimentos, Carlos Alberto de Figueiredo Freitas, a fase atual é de buscar áreas junto às administrações municipais para a construção dos condomínios. “Faremos um modelo de parceria público-privada e cada área deverá ter em torno de 10 e 12 hectares”, conta. “O associativismo é a melhor alternativa para que os pequenos produtores possam produzir com escala viável e tecnologia de ponta, permitindo melhores condições na qualidade de vida e resultados mais e cientes.”

Genética estrangeira

Segundo Bottura, o Brasil depende de genética estrangeira, tanto para ovos como para corte. Nesse sentido, ele a rma que a atividade tem o seu abastecimento garantido por multinacionais instaladas no país, como a Cobb-Vantress (fornecedora de matrizes para a produção de frangos controlada pela americana Tyson Foods); Hy-Line do Brasil (holding alemã do Grupo EW, fornecedora de genética de postura e uma das primeiras a comercializar aves híbridas no país); Aviagen (também do Grupo EW, produtora de avós e matrizes de frangos de corte); e a holandesa Hendrix Genetics, produtora de material genético primário de aves.

Em 2001, a Embrapa Suínos e Aves lançou a Poedeira 051, proveniente de linhas genéticas da entidade. A ave inicia postura com 21 semanas e seu potencial produtivo é de 300 ovos (uma galinha colonial comum produz, em média, 80 ovos) até 80 semanas de idade, quando encerra o ciclo produtivo, com peso ao redor de 2,820 kg o que permite o aproveitamento para o consumo da carne. O consumo médio de ração durante o período de produção da Poedeira 051 é de 114g/ave/dia em condições adequadas de alimentação, manejo, saúde animal e luz.

Visando minimizar a dependência estrangeira em genética de aves, a Embrapa está focada na demanda de pesquisa para apoiar os programas nacionais de melhoramento genético de aves.

Ambiência e bem-estar

Outros fatores que estão no radar da avicultura moderna são ambiência e bem-estar animal. Segundo Daniella Jorge de Moura, coordenadora de pós-graduação da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade de Campinas (Unicamp), a principal tendência relacionada à ambiência na avicultura de corte é a climatização total dos galpões, assim como o isolamento dos mesmos ao ambiente externo, em razão do aumento na temperatura média na superfície da terra e da ocorrência de ondas de calor causadas pelas mudanças climáticas globais.

Em sua opinião, a utilização de galpões do tipo Dark House, nos quais inclusive a iluminação é controlada, faz com que o bem-estar dos animais seja afetado negativamente pelo fato de as aves passarem a não ter acesso à luz natural. “Além disso, aves fora da zona de conforto térmico e/ ou submetidas a concentrações de gases acima do aceito apresentam queda no rendimento e pior conversão alimentar”, comenta e acrescenta que o excesso de calor (ambiência térmica) ou de gases, como amônia, por exemplo, pode levar à perda total do lote por mortalidade.

Por essa razão, Daniella considera a ambiência extremamente importante na avicultura de corte, pois determina diretamente o sucesso da criação. Nesse sentido, ela a rma que as criações de frango em condições de conforto térmico e com iluminação reduzida melhoram a conversão alimentar pelo fato de a ave gastar menos energia em decorrência do menor índice de atividade apresentado.

“Quanto melhor a conversão, maior ganho para o produtor”, explica Daniella, acrescentando que o ideal é encontrar um ponto ótimo no nível de atividade das aves relacionado à iluminação e à conversão alimentar para que o bem-estar e o ganho do produtor possam ser atingidos. “Afinal, quando os fatores nutricionais e de sanidade estão adequados, a ambiência de nirá a maior ou menor produtividade”, acentua.

Para Santos Filho, da Embrapa, embora todas as áreas sejam importantes para o desempenho da cadeia, atualmente a prioridade foca em instalações e equipamentos que possibilitem melhorar a ambiência e o controle automatizados da temperatura, iluminação, umidade e fornecimento de água e ração.

O pesquisador esclarece que os objetivos dessas novas instalações são melhorar o conforto ambiental e de bem-estar para que os animais consigam expressar todo o seu potencial genético e ter alto desempenho; reduzir a necessidade de mão de obra, pela automação, tanto nas granjas quanto no processamento e aumentar o número de aves alojadas por aviário. “Instalações com esse padrão podem alojar acima de 34 mil frangos e permitem que uma família cuide de mais de um aviário”, relata Santos Filho.

De acordo com Daniella, a avicultura tem se adequado às normas relacionadas à densidade, às aves e à climatização ao longo do tempo. “Além disso, também tem direcionado esforços em produzir linhagens mais resistentes a problemas locomotores, assim como tem realizado treinamentos de equipes de apanha, transporte e abatedouros que eram pontos críticos na produção de frangos de corte no que se refere ao bem-estar”, observa.

“Decisões e investimentos nesta área, além de modernizar e aumentar a produção, melhoram a renda e a qualidade de vida do avicultor, mas demandarão ajustes nos procedimentos de assistência técnica, da logística de suprimento e da infraestrutura de estradas para o trânsito de veículos maiores e mais pesados em qualquer condição climática”, enfatiza Santos Filho.

Tecnologias disponíveis

Daniela a rma que atualmente há várias tecnologias para a climatização de galpões, dentre as quais as mais procuradas são as relacionadas ao sistema de ventilação por pressão negativa. O mercado nacional fornece exaustores, placas e sistemas de resfriamento evaporativo, utilizados mundialmente. “Destacam-se os controladores que realizam automaticamente o controle ambiental dos galpões. Esses sistemas inteligentes são comercializados por várias empresas nacionais e internacionais e seus preços variam conforme o grau tecnológico de cada controlador”, informa.

Na opinião de Daniella, a escolha correta dos equipamentos, o manejo e especialmente a manutenção dos mesmos são práticas essenciais para o bom desempenho da climatização de um aviário. “Exaustores com correias mal reguladas, por exemplo, podem ter sua e ciência reduzida em 30% a 40%”, alerta. “Além disso, exaustores de diferentes fabricações podem ter variações de mais de 40% em e ciência quando comparados com outros, portanto deve-se obter as informações necessárias sobre a e ciência nominal”, orienta.

2018-03-25T04:15:05+00:00