Por Sávio Freire Bruno e Laís Melo Barreto
Introdução
O papagaio-galego (Alipiopsitta xanthops), também conhecido como papagaio-de-barriga-amarela, papagaio-curraleiro, papagaio-curau ou ainda papagaio-goiaba, é uma ave da ordem Psittaciforme e da família Psittacidae. Seu nome científico, conforme o site Wikiaves (2026), vem do grego e significa “papagaio-de-Alípio-com-a-face-amarela”, em homenagem ao zoólogo, professor e naturalista brasileiro Alípio de Miranda Ribeiro (1874-1939).
A espécie apresenta plumagem predominantemente verde, com a face amarela, região do abdômen amarelada e coxas laranja-avermelhadas. Essa coloração amarelada no ventre pode estar presente somente nos machos, porém animais sem a coloração amarela podem ser, ainda assim, dos dois sexos. Possui bico de coloração rosada e uma mancha amarronzada variável na região superior da maxila (Sick,1997), e pode medir até vinte e seis centímetros e meio de comprimento. Além disso, apresentam o hábito de voar em bandos de até dez aves.
Distribuição Geográfica
O papagaios-galego pode ser encontrado no Brasil, no norte do Paraguai e no leste da Bolívia. No Brasil, possui uma ampla distribuição, e se encontra nos estados do Mato Grosso do Sul, Maranhão, Piauí, Tocantins, Goiás, Distrito Federal, Bahia, Minas Gerais e São Paulo (Marini et al., 2021).
Essa espécie é muitas vezes considerada endêmica do bioma cerrado, habitando principalmente o cerrado sensu stricto (id., 2021). Porém, também pode ser encontrada em outras áreas, como na caatinga, em matas secas, buritizais, savanas de cupim, cerradão, no pantanal matogrossense e no chaco boliviano (Sigrist et al., 2013).
Hábitos Alimentares
São aves que se alimentam, principalmente, de frutos e flores nativas de paisagens abertas do cerrado e da caatinga, especialmente leguminosas e Anacardiaceae, sendo, portanto, consideradas generalistas (Beltrame, 2017, Marini, et al., 2021). No entanto, podem ser vistas se alimentando de folhas, sementes e, mais raramente, foram observadas forrageando o solo e inspecionando cascas de árvores, este último comportamento associado ao consumo de larvas e insetos sob a casca (Beltrame, 2017).

Fig. 1: Papagaio galego (Alipiopsitta xanthops), se alimentando das flores de um ipê-amarelo (Tabebuia aurea). Foto: Sávio Freire Bruno, Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, agosto de 2024.
Hábitos Reprodutivos e Nidificação
A época reprodutiva ocorre entre maio e outubro (Bianchi, 2009; Dias, 2011), e a fêmea põe de dois a quatro ovos. Quase sempre juntos, o casal de papagaios-galegos cuida dos filhotes, que ao nascer ainda não possuem sua plumagem e tampouco são capazes de enxergar. Constroem ninhos em ocos de árvores, como palmeiras, mas também em buracos de cupinzeiros. Além dessas possibilidades, conforme Beltrame (2017), podem ocupar cavidades pré-abertas por outras aves, como o pica-pau-do-campo (Colaptes campestris).
O período de incubação dos ovos varia, mas em sua maioria possui a duração de vinte e três a vinte e seis dias. O sucesso da eclosão é de sessenta e quatro porcento, e o insucesso geralmente está relacionado à predação dos ovos (Dias, 2011).
Ameaças
Em relação às ameaças, o Alipiopsitta xanthops foi avaliado como “Quase Ameaçado” na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas (IUCN, 2021). Entretanto, as populações de papagaio-galego sofrem forte impacto devido à destruição do Cerrado, particularmente, pela expansão das atividades agropecuárias e de mineração (Marini et al., 2021). Além dessas ameaças, Bruno e Matias (2023) relatam diversos psitacídeos como alvo do tráfico de animais silvestres, sendo, portanto, o papagaio-galego uma potencial vítima desta atividade ilegal.
Referências bibliográficas:
BELTRAME, Luisa Bontorin. Conservação do papagaio-galego Alipiopsitta xanthops no estado de São Paulo: estudo de uma população in situ e análises comportamentais em cativeiro e vida livre. Orientador: Luiz Eduardo Moschini. 2017. Dissertação (Mestrado em Conservação da Fauna) – Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2017. Pág. 7,8,9. Acesso em: 24 de março de 2026.
BIANCHI, C. A. Notes on the ecology of the Yellow-faced Parrot (Alipiopsitta xanthops) in Central Brazil. Ornitologia Neotropical, v. 20, p.479-489, 2009.
BRUNO, S. F.; MATIAS, C. A. R. Liberdade não rima com grade: o tráfico de animais silvestres no Rio de Janeiro e suas implicações. 1. ed. Rio de Janeiro: Projeto Cultural, 2023. v. 1. 184p.
DIAS, R. I. Nesting biology of the Yellow-faced Parrot (Alipiopsitta xanthops), a species without nest-site fidelity: an indication of high cavity availability? Emu, v. 111, p. 217–221, 2011.
EBIRD. Yellow-faced Parrot (Alipiopsitta xanthops). Cornell Lab of Ornithology, [s. d.]. Acesso em: 24 de março de 2026. Disponível em: https://ebird.org/species/yefpar5
INTERNATIONAL UNION FOR CONSERVATION OF NATURE. Alipiopsitta xanthops. The IUCN Red List of Threatened Species, 2024. Disponível em: https://www.iucnredlist.org/species/22679729/92826769 . Acesso em: 24 de março de 2026.
MARINI, M.A.; LIMA, D.M.; CARVALHO, C.B.; UBAID, F.K.; SILVA, G.B.M.; ABREU, T.L.S.; OLIVEIRA, T.D.; ALVES, W.N.; DIAS, F.F.; ALQUEZAR, R.D. 2021. Alipiopsitta xanthops. Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio. Disponível em: https://salve.icmbio.gov.br Digital Object Identifier (DOI): https://doi.org/10.37002/salve.ficha.11667. Acesso em: 24 de março de 2026.
SENDODA, A.M.C., 2009. Efeito do manejo de fogo sobre comunidades de aves em campos sujos no Parque Nacional das Emas, GO/MS, Cerrado central. Dissertação (Mestrado em Ecologia de Ecossistemas Terrestres e Aquáticos). Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo. p.71.
SICK, H. Ornitologia brasileira, uma introdução. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, Brazil. 1997.
SIGRIST, T. Guia de Campo Avis Brasilis: Avifauna Brasileira. Vinhedo: Avis Brasilis.p.591, 2013.
WIKIAVES – A Enciclopédia das Aves. Papagaio-galego. Disponível em: https://www.wikiaves.com.br/wiki/papagaio-galego Acesso em: 24 de março de 2026.
Sávio Freire Bruno é Professor Titular do Departamento de Patologia e Clínica Veterinária, Faculdade de Veterinária, Universidade Federal Fluminense; Professor Colaborador do Curso de Ciências Biológicas e do Curso de Ciência Ambiental (UFF).
Laís Melo Barreto é acadêmica do curso de Ciências Biológicas na Universidade Federal Fluminense (UFF).
Revisão de texto: Eduardo Sánchez
