Por Luiz Octavio Pires Leal – Membro Emérito da Academia Brasileira de Medicina Veterinária.

 

O aparelho reprodutor da galinha é dividido em duas partes principais: ovário e oviduto.

A maior parte das fêmeas possui dois ovários: um direito e outro esquerdo, as galinhas, entretanto, só têm um ovário funcional: o esquerdo.

O ovário

O ovário tem a forma de cacho e está preso na face interna das costas, à meia distância entre o pescoço e a cauda.

O ovário já está inteiramente formado desde o dia da eclosão da fêmea, contendo, aproximadamente, 4.000 minúsculos óvulos (futuras gemas), cada um dentro do seu folículo (membrana envolvente).

O oviduto

O oviduto é um tubo comprido, paralelo à linha dorsal do corpo. à qual está preso, e que vai do ovário até a cauda da ave.

Este órgão, que tem cerca de 70cm de comprimento, pode ser dividido em:

*Trompa –com cerca de 10 centímetros; *Magnun -35cm; *Istmo-10cm; *Vagina- 5cm

Formação da gema

Hormônios produzidos pelo lóbulo anterior da hipófise (gonadotrópicos), estimulam o desenvolvimento do ovário e hormônios produzidos por este, estimulam a produção do oviduto.

Dentro do folículo, a gema cresce pela adição de fluido ,que consta, principalmente, de corantes lipossolúveis, normalmente xantofila, rapidamente transferidos do trato digestivo para a corrente circulatória, e desta para a gema, em formação.

A gema, no ovário, desenvolve-se do seguinte modo: começa com uma simples célula (célula reprodutora feminina, ou germe), envolvida pela membrana vitelina. Cresce, lentamente, na medida em que material nutritivo vai sendo depositado. O germe mantém-se na superfície da gema, ligado a uma estrutura tubular, a látebra., que o liga ao centro da gema.

Ovulação é a saída da gema madura (óvulo) do ovário.

Cada gema em desenvolvimento está envolta num saco (saco vitelino) no qual distribuem-se vasos sanguíneos em grande quantidade. Estes vasos sanguíneos transportam as substâncias que vão formar a gema.  Uma determinada parte do saco vitelino não é irrigada por vasos sanguíneos (estigma), e é justamente nesta parte que a rutura e a liberação da gema (ovulação), normalmente ocorrem.

Entretanto, a rutura do saco da gema às vezes se dá noutra parte, que não o estigma. Nestes casos, vasos sanguíneos são rompidos e a gema ou a clara ficam manchados de sangue.

Nas boas poedeiras, uma nova ovulação ocorre, cerca de 30 minutos depois de um ovo ter sido deposto.

Formação da clara

Quando a ovulação ocorre, a trompa recolhe a gema, que assim inicia a sua descida pelo oviduto,

Embora a função principal da trompa seja recolher a gema, ela também funciona como reservatório para o esperma do galo, que, estando presente, fecunda o germe, iniciando-se assim o desenvolvimento embrionário.

A gema demora cerca de 15 minutos para ir da trompa até o magnum. O movimento é feito por ação peristáltica.

A região do magnum é atravessada em cerca de 3 horas. É aí que a clara espessa, que compreende, aproximadamente 55% de todo o albumem, é, praticamente onde toda a proteína do albumem é formada.

A quantidade de clara depende grandemente da quantidade de ovomucina secretada nesta parte do oviduto.

O istmo é uma parte estreitada do oviduto através do qual o ovo demora pouco mais de uma hora para passar. Aí, é adicionada alguma água, sais minerais e as duas membranas da casca.

O útero, parte do oviduto, com paredes espessas, é a zona onde é formada a parte complementar da clara, a casa, uma série de minerais, o pigmento da casca e a cutícula;

O ovo, em desenvolvimento, permanece cerca de 21 horas nessa área.

Movendo-se, finalmente para a vagina, o ovo já inteiramente pronto, passa através da cloaca e do esfíncter e é posto.

O processo total dura cerca de 24 horas.

Uma performance admirável

A performance admirável das galinhas poedeiras na avicultura industrial é um dos maiores triunfos da zootecnia moderna. Uma poedeira comercial atual pode produzir 320 a 350 ovos por ciclo de postura, algo biologicamente extraordinário, considerando que a galinha selvagem ancestral botava apenas 10 a 15 ovos por ano. Essa evolução resulta de seleção genética, nutrição de precisão, manejo ambiental e sanidade rigorosa.

Do ponto de vista fisiológico, alguns aspectos impressionam:

  1. Ritmo ovulatório extremamente eficiente

A poedeira industrial ovula aproximadamente a cada 24–26 horas, mantendo uma sequência contínua (“clutch”) de vários dias sem interrupção. Isso exige sincronização refinada do eixo hipotálamo–hipófise–ovário.

  1. Conversão biológica notável

Ela transforma cerca de 110–120 g de ração em um ovo de 60–65 g, com elevada eficiência metabólica. Sistemas modernos mostram melhor conversão alimentar em linhagens e instalações otimizadas.

  1. Intenso metabolismo mineral

Cada casca contém cerca de 2 g de cálcio. Para sustentar isso diariamente, há mobilização constante do osso medular, uma adaptação fisiológica singular das aves.

  1. Alta demanda hepática

O fígado sintetiza continuamente lipoproteínas e vitelogenina para a formação da gema, funcionando como verdadeiro “centro industrial” bioquímico.

  1. Sensibilidade ambiental extrema

Temperatura, umidade, luz e densidade afetam diretamente produção e qualidade do ovo. O estresse térmico severo pode reduzir a postura em cerca de 10–11% e diminuir a qualidade da casca.

Sob a ótica veterinária e fisiológica, a poedeira moderna é um exemplo impressionante de especialização biológica extrema, talvez comparável à vaca leiteira de alta produção: ambas converteram a reprodução em um processo quase contínuo de produção.

Em termos históricos, isso ilustra como a avicultura industrial transformou a galinha de um animal sazonal em uma “máquina biológica de proteínas de alto valor”.

 

REF.: “Comercialização de Ovos” – Luiz Octavio Pires Leal, 1985 = edição do Ministério da Agricultura, publicado no DO da União

Imagem gerada por IA