Por Carlos Pires Leal1

Para que uma ideia cumpra a sua finalidade, ela precisa encontrar ressonância no outro. O único instrumento capaz de percebê-la é a escuta. Parece uma obviedade, mas é um aprendizado que venho lapidando há mais de quarenta anos como psicanalista. Neste ofício, oferecemos uma escuta que foge ao comum: um exercício permanente de abrir espaço para ouvir o outro, abdicando da nossa urgência de confirmar o que queremos que ele diga.

Essa ideia é válida para qualquer profissão – e é essencial para uma comunicação efetiva.

O problema é que operamos hoje na contramão dessa delicadeza. Cruzamos a fronteira de uma era cultural marcada pela “anti-escuta”. Estamos submersos em um oceano de dados que soterra a nossa capacidade de perceber o que o outro endereça a nós.

Na chamada economia da atenção, o nosso foco virou a mercadoria mais valiosa do mercado digital, disputada centavo a centavo por algoritmos projetados para nos manter em um estado de distração crônica.

Em seu célebre diagnóstico sobre os nossos tempos, A Sociedade do Cansaço, o filósofo Byung-Chul Han joga luz sobre os mecanismos que nos levam ao esgotamento, um subproduto da modernidade tardia em que o sujeito, movido pelo imperativo do desempenho e pela autoexploração, se cobra até o colapso. É um cansaço que isola, que encarcera o indivíduo em si mesmo e o torna progressivamente surdo e cego para a alteridade.

Como antídoto, Han sugere o que chama Cansaço do Nós ou a “potência do não”. Não se trata de passividade ou fraqueza, mas da capacidade deliberada de interromper a hiperatividade e o bombardeio de estímulos. É um cansaço contemplativo, quase amigável, que silencia o ruído externo para que o encontro real com o outro possa finalmente acontecer.

Mas nas redes sociais presenciamos o cenário inverso: existimos para ser vistos, não para nos conectar. O foco migrou do vínculo para a imagem. Fomos treinados para o estímulo rápido, o scroll infinito, a reação em milissegundos. Diante disso, escutar alguém por dez minutos ininterruptos virou um ato quase heroico. Sofremos de uma inflação das palavras: nunca se comunicou tanto e nunca se disse tão pouco; há um excesso de ruído e uma escassez crônica de sentido.

Essa dinâmica deságua em uma espécie de solidão coletiva.

Quanto mais isoladas e carentes as pessoas se sentem, mais imperiosa se torna a necessidade de falar — e menor a disposição de acolher o que o outro diz (incluindo sua resposta ao que comunicamos a ele). A ansiedade de ser ouvido devora a paciência de escutar. No mercado das interações, escutar passou a ser visto como perda de espaço ou sinal de passividade. Esquecemos que o vínculo profundo exige lentidão, que tornou-se o luxo mais caro da nossa época.

Ouvir é, em última análise, uma das formas mais radicais de respeito.

Por mais impecável que seja o conteúdo que comunicamos à outra pessoa, o destinatário sempre filtrará a mensagem a partir de suas necessidades. A comunicação humana é, essencialmente, uma experiência de negociação e renúncia. É preciso renunciar a uma parte das nossas pretensões comunicativas para que tenhamos a chance de ser levados em consideração. Quando insistimos para impor nossa visão ao interlocutor, o preço é o desprezo.

Pagamos o pato quando somos mal comunicadores.

Essa armadilha da vaidade discursiva me lembra uma anedota preciosa da nossa tradição oral, atribuída ao famoso jurista e diplomata Rui Barbosa. Conta a lenda que, ao chegar em casa, flagrou um ladrão saltando o muro do seu quintal com suas aves de criação nos braços. Em vez de gritar ou agir, Rui Barbosa inflou o peito e disparou sua erudição enciclopédica:

“Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco destes bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina NA-DA.”

O ladrão, paralisado e em absoluto curto-circuito cognitivo, olhou para o jurista e resumiu o colapso daquela interação em uma única e definitiva pergunta:

Dotô… eu levo ou deixo os pato?

A resposta do ladrão é o retrato do fracasso da anti-comunicação. Obcecado por afirmar sua competência intelectual, o emissor ignorou quem o ouvia. Quando a fala se recusa a passar pela modulação da escuta, ela perde sua função de ponte e se transforma em um monumento estéril ao próprio ego.

 

1.Psiquiatra e psicanalista, membro: Associação Internacional de Psicanálise, Federação Psicanalítica da América Latina, Federação Brasileira de Psicanálise e Associação Brasileira de Psiquiatria
Cel.: (22) 99831-0484          @carlospiresleal – presencial | online