Por Carlos Pires Leal
Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria, Membro da Associação Internacional de Psicanálise, Federação Brasileira de Psicanálise e Federação Latino-americana de Psicanálise. e-mail: carlospiresleal@gmail.com

 

O texto da psicóloga Juliana Sato demonstra com clareza e sensibilidade o complexo vínculo entre as pessoas e seus pets.

A criação de animais de estimação tem se tornado nas últimas décadas disseminado no mundo inteiro. É um fenômeno cultural cujas origens e consequências merecem ser mais bem compreendidos.

Como sugerido pela psicóloga, o anseio pela convivência cotidiana com um pet vai muito além da busca de companhia. Uma das origens para o termo “pet” é o termo escocês “peat” usada para descrever uma criança favorita ou “mimada”. Muitas pessoas, de fato, representam os pets como um filho. Nesta condição estabelecem com seus pequenos animais um vínculo estreito e intenso que não raramente passam a ocupar um lugar e a desempenhar funções peculiares em relação ao psiquismo dos seus cuidadores. Quais seriam elas?

Uma das marcas mais representativas dos tempos atuais é frouxidão dos vínculos afetivos e amorosos entre as pessoas. Vivemos tempos de aceleração, superficialidade, voracidade no consumo de produtos e serviços, hipervalorização e dependência das imagens. Neste contexto a experiencia de intimidade e vinculação significativa com as outras pessoas se estilhaça. O resultado é a sensação de desamparo e solidão. A devoção aos pets, sob este ponto de vista, restitui a experiencia do cuidado.

Muitos psicanalistas caracterizam a civilização atual como a “civilização do descuido”. As repercussões psíquicas no seu extremo podem ser catastróficas: dependência de drogas, álcool, medicações; quadros depressivos; distúrbios da alimentação (anorexia, bulimia, transtorno de compulsão alimentar); vazio existencial; intolerância às diferenças entre as pessoas acarretando manifestações de violência contra o diferente, entre outras.

A experiencia do cuidar e ser cuidado são estruturantes do psiquismo humano. Para nos tornarmos gente, e não apenas alguém que com um corpo biológico precisamos, no alvorecer da nossa vida, do cuidado interessado, verdadeiro e dedicado de outro ser humano. Precisamos ser verdadeiramente especiais para um outro alguém. A ausência precoce desta experiencia marcará como uma cicatriz indelével o nosso percurso existencial.

A relação com os nossos pets pode ter a função de restituir (ou inaugurar) a esperança de uma relação afetiva significativa. A intensidade com que esta experiencia é buscada dependerá de cada pessoa e suas circunstancias de vida. O lugar do pet pode ser complementar a outros investimentos afetivos (incluindo a experiencia da relação com os filhos) até uma relação na qual o pet pode se tornar uma tentativa desesperada de apaziguar experiencias traumáticas de quem jamais teve possibilidade de viver uma experiencia afetiva calorosa, que tenha continuidade e confiabilidade. Pode ser o caso daquelas pessoas que abrigam dezenas de pequenos (ou grandes) animais com frequência falhando em proporcionar a eles cuidados essenciais.

Os pets sempre serão dependentes dos seus cuidadores. Eles parecem garantir que os cuidadores sempre serão os seus tutores e que sempre serão a fonte essencial da preservação da sua vida. O que passa desapercebido é a extensão com que seus tutores são também, de uma outra forma, cuidados pelo pet. Sem eles seus cuidadores podem não encontrar razão de ser para a sua existência por se sentirem destituídos da capacidade de amar-cuidar.

Cuidar de uma criança significa apostar no seu desenvolvimento e na construção de capacidades e habilidades que a tornarão autônomas. E quando isso acontece, o cuidador é dispensado desta função. Precisará encontrar outro sentido na vida que torne o ninho que se esvazia algo a ser celebrado (e não lamentado).

A independência e a autonomia absolutas nunca existirão. Sempre dependeremos, em algum nível, de alguém, de algum apoio, companhia, presença, solidariedade, cumplicidade.

A experiencia da dedicação aos pets pode nos ajudar a lidar com a falta e a incompletude intrínseca à condição humana – e não necessariamente negá-la. Pode ser uma experiencia profundamente humanizadora. Mas também pode tornar-se, quando desmedida, sinal da desistência de conciliação entre as aspirações onipotentes de soberania absoluta e a humildade de reconhecermos nossas humanas limitações.

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