Por Arthur Neto e Fabianne Reis – Discentes da Liga Acadêmica de Doenças Infecciosas da UFRRJ (LINFEC)
Thaina Aparecida Pereira Moura Cerqueira – Programa de Pós-graduação em Epidemiologia em Saúde Pública – ENSP/FIOCRUZ
Supervisionado por Clayton B. Gitti – Professor Titular e Coordenador da LINFEC
A bartonelose é uma zoonose de distribuição mundial causada por bactérias do gênero Bartonella, intracelulares com tropismo por eritrócitos e células endoteliais. Essas bactérias apresentam elevada diversidade genética, com mais de 40 espécies descritas, das quais pelo menos 13 possuem potencial zoonótico, sendo a Bartonella henselae a principal associada à infecção humana, especialmente à doença da arranhadura do gato (DAG).
Nas últimas décadas, a bartonelose tem ganhado destaque na saúde pública devido ao aprimoramento dos métodos diagnósticos, à ampliação da vigilância epidemiológica e a fatores como as mudanças ambientais, a urbanização acelerada e a maior proximidade entre humanos e animais domésticos. A dinâmica ecológica da doença está intimamente relacionada à tríade homem–animal–ambiente, na qual alterações antrópicas podem favorecer a manutenção e expansão dos ciclos de transmissão, elevando o risco de infecção humana e a circulação de diferentes genótipos bacterianos entre hospedeiros.
Os gatos domésticos desempenham um papel central nesse cenário, sendo considerados os principais reservatórios de B. henselae, além de outras espécies, como B. clarridgeiae e B. koehlerae. Geralmente assintomáticos, podem apresentar bacteremia prolongada ou intermitente, o que favorece a manutenção do agente na população felina. Entretanto, a dinâmica epidemiológica da doença depende principalmente da presença de vetores, como pulgas infectadas, responsáveis pela disseminação da doença entre os animais.
Aspectos epidemiológicos
A doença da arranhadura do gato (DAG) apresenta distribuição mundial, com maior ocorrência em regiões de clima tropical e subtropical, onde as condições ambientais favorecem a proliferação de vetores, especialmente de pulgas. Sua epidemiologia está diretamente relacionada à interação entre humanos, gatos domésticos e fatores ambientais, sendo mais frequente em locais com elevada densidade populacional felina e convivência próxima entre animais e humanos.
O aumento da população de gatos semidomiciliados e errantes, associado à ausência de medidas adequadas de controle de ectoparasitas e de guarda responsável, contribui para a perpetuação do ciclo epidemiológico da doença, reforçando a importância desses animais na manutenção do agente. A transmissão entre gatos ocorre principalmente por vetores artrópodes, especialmente pulgas infectadas, que atuam tanto pela inoculação durante o repasto sanguíneo quanto pela eliminação da bactéria nas fezes, contaminando a pele e as unhas dos animais.

Infecção e patogenia
Em felinos, a infecção é geralmente subclínica, caracterizada por bacteremia prolongada ou intermitente, o que favorece a manutenção do agente na população. Entretanto, alguns animais podem apresentar sinais clínicos inespecíficos, como febre, letargia, anorexia, linfonodomegalia regional, alterações oftálmicas, manifestações neurológicas e, em casos menos frequentes, endocardite e miocardite. Em humanos, a infecção ocorre principalmente por arranhaduras, mordeduras ou contato entre pele lesionada e material contaminado proveniente de gatos infectados, o que configura um importante problema de saúde pública, especialmente em indivíduos imunossuprimidos.
A patogenia envolve a invasão inicial de células endoteliais, seguida da colonização de eritrócitos, resultando em bacteremia persistente e na potencial disseminação para órgãos linfoides, fígado e sistema nervoso central. Bartonella henselae é a principal espécie associada à doença da arranhadura do gato, geralmente manifestada como linfadenite regional e febre. Contudo, formas clínicas mais graves podem ocorrer, incluindo encefalite, angiomatose bacilar, endocardite, hepatoesplenomegalia, alterações oculares e comprometimento neurológico, podendo evoluir para quadros fatais na ausência de tratamento adequado.
Diagnóstico
O diagnóstico da bartonelose, tanto em felinos quanto em humanos, apresenta desafios significativos devido ao caráter frequentemente assintomático da infecção em felinos e à ampla variabilidade clínica observada em humanos. Dessa forma, a abordagem diagnóstica deve basear-se na associação entre dados clínicos, epidemiológicos e laboratoriais.
Em felinos, a suspeita clínica é limitada, uma vez que a maioria dos animais infectados não apresenta sinais evidentes, o que torna o diagnóstico laboratorial fundamental. Entre os principais métodos utilizados, destacam-se a sorologia (IFA e ELISA), empregada para detecção de anticorpos contra Bartonella spp., embora não permita diferenciar infecção ativa de exposição prévia; a hemocultura, considerada padrão-ouro, porém limitada pela baixa sensibilidade e pelo crescimento bacteriano lento; e a PCR (Reação em Cadeia da Polimerase), método altamente sensível e específico, que possibilita a detecção direta do DNA bacteriano em amostras de sangue ou tecidos.
Em humanos, o diagnóstico da doença da arranhadura do gato (DAG) baseia-se principalmente na associação entre histórico de contato com felinos, presença de linfadenopatia regional e confirmação laboratorial por sorologia ou por métodos moleculares. Em apresentações atípicas ou em formas clínicas graves, exames complementares, como biópsia de linfonodos e análises histopatológicas, podem ser necessários para a confirmação diagnóstica.
Apesar dos avanços diagnósticos, persistem limitações importantes, como reações cruzadas em testes sorológicos e dificuldades no isolamento bacteriano, fatores que podem contribuir para a subnotificação da doença. Nesse contexto, a identificação precoce da infecção em gatos é relevante não apenas clinicamente, mas também epidemiologicamente, permitindo a adoção de medidas preventivas, como o controle de ectoparasitas e ações de educação em saúde, o que reduz o risco de transmissão zoonótica.
Tratamento
O tratamento não é indicado para indivíduos assintomáticos e imunocompetentes, por se tratar de uma doença benigna e autolimitada, além do risco de induzir resistência antimicrobiana. Alguns estudos indicam o uso de azitromicina no tratamento de pacientes com linfadenopatia volumosa. O uso de doxiciclina em associação com rifampicina pode ser recomendado em casos de acometimento ocular. Outros antimicrobianos, como amoxicilina, enrofloxacina e eritromicina, são utilizados, mas ainda há pouco consenso quanto à sua eficácia. Analgésicos e anti-inflamatórios podem ser indicados em caso de dor, além da aspiração de material purulento no linfonodo afetado.
Conclusão
O estudo dos aspectos etiológicos e epidemiológicos da bartonelose, bem como de sua prevalência em gatos domésticos e de sua ocorrência em humanos, evidencia a relevância dessa zoonose para a saúde pública. Portanto, destaca-se a necessidade de incluir as bartoneloses no diagnóstico diferencial de doenças febris associadas à linfadenomegalia, o que favorece a identificação precoce e o manejo adequado dos casos. Além disso, a inclusão dessa enfermidade como doença de notificação compulsória no Brasil poderia fortalecer a vigilância epidemiológica e subsidiar ações de educação em saúde voltadas à prevenção e ao controle da transmissão, especialmente diante da inexistência de vacina disponível.
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