Por Luiz Octavio Pires Leal – Membro Emérito da Academia Brasileira de Medicina Veterinária.

Fisiologia, o leitor sabe, é o estudo das funções, o estudo do funcionamento dos organismos.

Através do trabalho de seleção genética, da nutrição e do manejo, as funções, que interessam, principalmente sob o ângulo comercial, podem e são ampliadas e melhoradas pelos veterinários especialistas nas diversas espécies de animais.

No caso, por exemplo, dos cavalos de corrida, o interesse maior é na velocidade; no dos frangos de corte, o formato, o peso, no menor tempo possível da criação, o melhor aproveitamento da ração, etc. No caso da extraordinária fisiologia das poedeiras, a capacidade de produzir um ovo, a cada dia.

Mais leite, com menor despesa

A fisiologia da vaca leiteira é um campo central da Fisiologia Animal e da medicina veterinária. Ela envolve adaptações metabólicas, endócrinas e anatômicas muito especializadas para sustentar a produção de leite. Os pontos principais são:

  1. Glândula mamária

A glândula mamária é o órgão chave:

  • Cada vaca possui quatro quartos mamários, independentes.
  • O leite é produzido nos alvéolos mamários, revestidos por células secretoras.
  • A ejeção depende da Oxitocina, liberada pela hipófise.
  1. Metabolismo altamente exigente

A vaca leiteira é um “atleta metabólico”:

  • Para produzir 1 litro de leite, são necessários cerca de 400–500 litros de sangue circulando pela glândula mamária.
  • Alta demanda de:
    • glicose (síntese de lactose),
    • aminoácidos (proteínas do leite),
    • ácidos graxos (gordura do leite),
    • cálcio e fósforo.

No início da lactação ocorre frequentemente balanço energético negativo, predispondo a:

  • Cetose
  • Hipocalcemia
  • esteatose hepática.
  1. Digestão de ruminante

A vaca leiteira é um Bos taurus ruminante:

  • Possui quatro compartimentos gástricos:
    • rúmen
    • retículo
    • omaso
    • abomaso
  • O rúmen abriga microbiota capaz de fermentar fibras e produzir:
    • ácidos graxos voláteis (energia),
    • proteína microbiana,
    • vitaminas do complexo B.

Essa fermentação é essencial para transformar celulose em leite.

  1. Controle hormonal da lactação

Os principais hormônios são:

  • Prolactina → inicia e mantém a secreção.
  • Somatotropina bovina → aumenta a eficiência metabólica.
  • Cortisol → participa do início da lactação.
  • Insulina → regula partição de nutrientes.
  1. Fisiologia reprodutiva

Há forte interação entre produção e reprodução:

  • ciclo estral médio: 21 dias
  • gestação: cerca de 280 dias
  • idealmente 1 parto/ano para eficiência econômica.

Alta produção leiteira pode reduzir fertilidade por estresse metabólico.

  1. Termorregulação

A vaca leiteira é sensível ao calor:

  • zona de conforto térmico: aproximadamente 5–25°C
  • acima disso pode ocorrer:
    • redução do consumo,
    • queda da produção,
    • piora da fertilidade.

Por isso, sombra, ventilação e aspersão são essenciais.

  1. Imunidade mamária

A principal doença é a Mastite bovina:

  • altera composição do leite,
  • reduz produção,
  • eleva contagem de células somáticas.

A defesa depende de barreiras físicas e células imunes locais.

Síntese

Em síntese: a vaca leiteira é um organismo de altíssima especialização biológica, em que digestão, metabolismo, endocrinologia e reprodução funcionam de forma integrada para sustentar a lactação. É um dos melhores exemplos de adaptação fisiológica para produção intensiva de alimento.

 

Ref.: “História da Medicina Veterinária” – Luiz Octavio Pires Leal- 2009
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