Por Luiz Octavio Pires Leal –Membro Emérito da Academia Brasileira de Medicina Veterinária
A história da raiva no Brasil inclui um dos mais dramáticos exemplos do que podem representar certas enfermidades dos pontos de vista econômico e social.
O começo
Em 1908 começou a grassar em Santa Catarina, uma grave epizootia, que resultou na morte de mais de 4.000 cabeças de gado e de 1.000 equinos. Segundo Parreiras Horta, esse episódio ficaria gravado nos anais da medicina veterinária como a mais colossal de raiva já verificada no País. Mas foi só em 1911, que Carini e Parreiras Horta, simultânea e independentemente, estudaram a doença, que estava provocando caos econômico, no Estado e diagnosticaram como sendo raiva, a causa do fenômeno. Até então, como naquela época somente os canídeos eram considerados como transmissores, houve restrições ao diagnóstico, porque praticamente não se encontravam cães raivosos na região.
Mesmo assim, Parreiras Horta recomendou, na época, o sacrifício dos cães, como medida profilática mais importante, tendo sido eliminados quase 7.000, em 1912, porém sem resultados.
Os vampiros
Na época, já havia a observação dos criadores de que era freqüente o ataque dos vampiros ao gado. Parreiras Horta, inclusive, conseguiu dois quirópteros paralíticos e deles extraiu os cérebros e inoculou coelhos. Como não foi observada a reprodução da doença, esse pesquisador não deu importância ao fato, embora não descartasse definitivamente, a possibilidade desses animais representarem algum papel na transmissão da doença.
O papel dos morcegos
Ainda em 1912, baseado nessas mesmas informações dos fazendeiros, Carini dizia que os morcegos hematófagos poderiam representar um importante papel na propagação do vírus rábico.
Entre 1914 e 1916, os veterinários alemães Haupt e Hehag, estiveram em Santa Catarina estudando a doença, a convite do governo estadual. Estes técnicos confirmaram a participação dos quirópteros na cadeia epidemiológica, conseguindo isolar o vírus rábico de um Phylostoma.
Os grandes responsáveis
Em 1934, Esperidião Queirós Lima voltou ao assunto e demonstrou, definitivamente, que os morcegos hematófagos são os grandes responsáveis pela transmissão da raiva dos herbívoros, da mesma forma que Sílvio Torres o fez, no mesmo ano, em Mato Grosso.
No que se refere à raiva em eqüinos, em 1908 Adolpho Lutz dizia ter verificado casos isolados da doença, em São Paulo, informando que os eqüídeos sofriam muito das mordeduras dos morcegos.
Em 1892, o mesmo pesquisador informara ter feito verificação laboratorial de raiva em três gatos da Capital de São Paulo. Ele afirmava que a “hidrofobia” ocorria em cães sob forma esporádica.
Doença antiga
Tudo leva a crer que essa doença era muito antiga no Brasil, tendo em vista que naquela época já existiam Instituto Pasteur em vários estados: Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco.
É interessante assinalar que em 1887, Ferreira dos Santos estagiou no Instituto Pasteur de Paris, e de lá trouxe a primeira amostra de vírus fixo, para o Brasil. Ele veio de navio trazendo três coelhos inoculados com vírus rábico, de 154 passagens, fazendo sub-inoculações, durante o trajeto. Nesse mesmo ano, foi iniciada a construção do primeiro Instituto Pasteur do Rio de Janeiro, cujo criador foi o Imperador Pedro II, inaugurado em 1889.
REF “História da Medicina Veterinária” (2009) deste Autor.
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