Por Luiz Octavio Pires Leal – Membro Emérito da Academia Brasileira de Medicina Veterinária

A aspirina é um dos medicamentos mais influentes da história da medicina. Seu desenvolvimento envolveu séculos de observação empírica, avanços da química e da farmacologia, culminando em um fármaco que continua sendo amplamente utilizado tanto na medicina humana quanto, em situações específicas, na medicina veterinária. É praticamente impossível encontrar uma casa onde não existam alguns comprimidos de aspirina, e também alguma pessoa que nunca tenha tomado esse remédio, que a pesquisa vem demonstrando, como no caso daquela esponja metálica, que tem “mil utilidades”, tanto para o ser humano como para certos animais. Tudo começou com a casca de uma árvore, chamada salgueiro.

Uma história impressionante

O uso de plantas ricas em salicilatos remonta à Antiguidade. Registros históricos indicam que povos como os egípcios, sumérios e gregos utilizavam preparações da casca do salgueiro (Salix spp.) para aliviar dor e febre. No século V a.C., Hipócrates descreveu o uso da casca e das folhas do salgueiro para tratar dores e reduzir febre. O princípio ativo permaneceu desconhecido até o século XIX:

  • Em 1828, o farmacêutico francês Henri Leroux isolou a salicina da casca do salgueiro.
  • Poucos anos depois, o químico italiano Raffaele Piria converteu a salicina em ácido salicílico.
  • O ácido salicílico mostrou excelente efeito analgésico e antipirético, porém provocava intensa irritação gástrica.

O nascimento

Em 1897, o químico Felix Hoffmann, trabalhando para a Bayer, sintetizou uma forma acetilada do ácido salicílico: o ácido acetilsalicílico (AAS). Essa modificação tornou o medicamento mais estável e muito melhor tolerado pelo estômago. Em 1899, a Bayer registrou o nome comercial Aspirina, derivado de:

  • “A” de acetil;
  • “spir” da planta Spiraea ulmaria (atualmente Filipendula ulmaria), rica em salicilatos;
  • o sufixo “ina”, comum na nomenclatura química da época.

A aspirina tornou-se rapidamente um dos primeiros medicamentos produzidos em escala industrial.

Décadas de pesquisa

Durante boa parte do século XX, médicos utilizavam a aspirina sem compreender completamente seu mecanismo de ação. Em 1971, o farmacologista britânico John Robert Vane demonstrou que a aspirina inibe a produção de prostaglandinas ao bloquear as enzimas ciclooxigenases (COX). Essa descoberta revolucionou a farmacologia e rendeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1982 a Vane, juntamente com Sune Bergström e Bengt Samuelsson. Hoje sabe-se que a aspirina:

  • inibe irreversivelmente as enzimas COX-1 e COX-2;
  • reduz a produção de prostaglandinas;
  • diminui dor, febre e inflamação;
  • reduz a formação de tromboxano A₂, diminuindo a agregação das plaquetas.

Esse último efeito explica sua enorme importância na cardiologia.

Aplicações na medicina humana

Ao longo de mais de um século, a aspirina passou a ser utilizada em diversas áreas da medicina. Analgésico É eficaz no tratamento de:

  • cefaleias;
  • dor de dente;
  • dores musculares;
  • dores articulares;
  • cólicas leves;
  • dores pós-operatórias leves.

Antipirético Reduz a febre em infecções virais e bacterianas, embora hoje o paracetamol e o ibuprofeno sejam frequentemente preferidos em muitas situações. Anti-inflamatório Em doses mais elevadas, é empregada em doenças inflamatórias, como:

  • artrite reumatoide;
  • febre reumática;
  • algumas vasculites.

Entretanto, seu uso para essas indicações diminuiu com a introdução de outros anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), que costumam apresentar melhor perfil de tolerabilidade. Antiplaquetário Esta é atualmente uma das aplicações mais importantes da aspirina. Em baixas doses (geralmente entre 75 e 100 mg por dia em adultos), ela reduz significativamente o risco de formação de trombos. É indicada, em pacientes selecionados, para:

  • prevenção secundária de infarto do miocárdio;
  • prevenção secundária de acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico;
  • doença arterial coronariana;
  • após implante de stents coronarianos;
  • algumas doenças vasculares periféricas.

Seu uso para prevenção primária (em pessoas sem doença cardiovascular estabelecida) tornou-se mais restrito devido ao equilíbrio entre benefícios e risco de sangramento.

Novas áreas de investigação

Diversas pesquisas investigaram possíveis benefícios da aspirina em outras condições. Entre as áreas estudadas estão:

  • prevenção do câncer colorretal em grupos específicos;
  • redução do risco de pré-eclâmpsia em gestantes com fatores de risco, sob indicação médica;
  • algumas doenças inflamatórias crônicas;
  • possíveis efeitos neuroprotetores, ainda sem conclusões definitivas.

Segurança e efeitos adversos

Apesar de ser um medicamento antigo e amplamente conhecido, a aspirina pode causar efeitos importantes, incluindo:

  • gastrite;
  • úlceras;
  • sangramento gastrointestinal;
  • hemorragias;
  • reações alérgicas;
  • broncoespasmo em pessoas suscetíveis.

Em crianças e adolescentes com infecções virais, seu uso é geralmente evitado devido ao risco da Síndrome de Reye, uma condição rara, porém potencialmente grave.

Aplicações na medicina veterinária

A aspirina também possui aplicações veterinárias, embora seu uso varie bastante entre as espécies devido às diferenças no metabolismo dos salicilatos.

Cães

Em cães, pode ser utilizada por médicos-veterinários para:

  • dor musculoesquelética;
  • osteoartrite;
  • algumas doenças tromboembólicas.

Entretanto, muitos veterinários atualmente preferem AINEs desenvolvidos especificamente para cães, como carprofeno, meloxicam ou firocoxibe, que geralmente apresentam maior segurança quando usados conforme a indicação.

Cavalos

Em equinos, a aspirina pode ser empregada em determinadas situações para:

  • controle da dor;
  • inflamações leves;
  • prevenção de alguns distúrbios trombóticos.

Gatos

Os gatos metabolizam a aspirina muito lentamente devido a particularidades das enzimas hepáticas responsáveis pela conjugação de fármacos. Por isso:

  • pequenas diferenças na dose podem causar intoxicação;
  • o intervalo entre as doses é muito maior do que em cães;
  • seu uso deve ocorrer apenas sob orientação veterinária.

Animais em que não é recomendada

Em diversas espécies, como aves, coelhos e pequenos mamíferos, o uso da aspirina exige cautela e avaliação individual, pois o risco de efeitos adversos pode superar os benefícios.

Um medicamento que transformou a medicina

Mais de 125 anos após sua introdução, a aspirina permanece entre os medicamentos mais estudados do mundo. Ela desempenhou um papel decisivo na compreensão dos processos inflamatórios, na prevenção de doenças cardiovasculares e no desenvolvimento da farmacologia moderna. Embora tenha sido substituída em algumas indicações por fármacos mais recentes, continua sendo um tratamento essencial em diversas situações clínicas e um exemplo de como a observação da natureza, aliada à pesquisa científica, pode resultar em um medicamento de impacto duradouro na saúde humana e veterinária.

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