Por Luiz Octavio Pires Leal – Membro Emérito da Academia Brasileira de Medicina Veterinária
Fascinante em que sentido? Do que serve esse complicado estudo?
Além de entender como os insetos sobrevivem comendo de tudo: papel, plástico, madeira, sangue, folhas, couro…esse conhecimento é importante para descobrir a melhor maneira de enfrentá-los.
É importante saber que, além dos insetos existirem na natureza, em enormes quantidades e variedades, eles são os maiores inimigos do homem, dentre os animais silvestres. Eles matam mais do que os grandes predadores da natureza.
Tema fascinante
O “mistério do intestino dos insetos” é um tema fascinante porque, apesar de serem animais muito pequenos, os insetos possuem um sistema digestório extremamente eficiente e adaptado aos mais diversos tipos de alimentação. Há espécies que comem madeira, sangue, folhas, carne em decomposição, néctar, tecidos e até plástico, graças às adaptações do intestino e, em muitos casos, dos microrganismos que vivem nele.



O tubo digestório dos insetos divide-se em três regiões principais:
- Intestino anterior (estomodeu)
- Recebe e armazena o alimento.
- Inclui a boca, faringe, esôfago, papo (em muitas espécies) e a moela, que pode triturar o alimento.
- Intestino médio (mesêntero)
- É o principal local de digestão e absorção dos nutrientes.
- Possui células que secretam enzimas digestivas.
- É revestido por uma membrana peritrófica, uma espécie de filtro que protege o epitélio intestinal contra partículas abrasivas e agentes infecciosos.
- Intestino posterior (proctodeu)
- Reabsorve água e sais minerais.
- Forma e elimina as fezes.
- Recebe os túbulos de Malpighi, responsáveis pela excreção, desempenhando função semelhante à dos rins dos vertebrados.
O grande “mistério”
Durante muito tempo, os cientistas perguntavam como certos insetos conseguiam sobreviver alimentando-se de materiais extremamente pobres em nutrientes, como madeira, celulose ou sangue.
Hoje se sabe que uma parte importante da resposta está na microbiota intestinal.
- Cupins abrigam protozoários, bactérias e arqueias capazes de degradar a celulose da madeira.
- Abelhas possuem bactérias que ajudam na digestão do pólen e fortalecem o sistema imunológico.
- Mosquitos dependem de bactérias intestinais para metabolizar o sangue e até para influenciar sua capacidade de transmitir doenças.
- Baratas apresentam uma microbiota muito diversa, que lhes permite aproveitar praticamente qualquer alimento.
Descobertas recentes
Nas últimas décadas, pesquisadores verificaram que o intestino dos insetos:
- produz substâncias antimicrobianas;
- influencia o comportamento e o desenvolvimento;
- interfere na reprodução;
- pode determinar a resistência a inseticidas;
- desempenha papel importante na transmissão de doenças, como dengue, malária e doença de Chagas.
Por isso, muitos laboratórios estudam maneiras de modificar a microbiota dos mosquitos para reduzir a transmissão de vírus e parasitas.
Importância científica
O intestino dos insetos é hoje um dos campos mais ativos da entomologia porque pode levar ao desenvolvimento de:
- novos métodos de controle de pragas agrícolas;
- estratégias para combater mosquitos transmissores de doenças;
- enzimas capazes de degradar celulose e resíduos vegetais para produção de biocombustíveis;
- novos antibióticos e compostos de interesse biotecnológico.
Assim, o “mistério do intestino dos insetos” deixou de ser apenas uma curiosidade anatômica e tornou-se uma área de pesquisa de grande importância para a medicina, a agricultura e a biotecnologia.
