Por Luiz Octavio Pires Leal, Membro Emérito da Academia Brasileira de Medicina Veterinária; Membro da Diretoria Técnica da SNA; Jornalista registrado no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro.
A história dos medicamentos de uso médico, que em determinados períodos e regiões confundem-se com os da farmacologia veterinária, nasceu na antiga Grécia.
Todas as vezes em que ocorria uma epidemia, ou uma peste, os médicos saiam para matar as cobras que pudessem encontrar, porque acreditavam que elas – seres do demônio – eram as causas das doenças. Estando com a cobra enrolada em seu bastão, Asclépio achava que dominava a causa da doença e que podia curar os pacientes.
Símbolo da medicina
Muitos anos depois, a serpente enrolada no bastão de Asclépio (chamado Esculápio, em latim) tornou-se o símbolo da medicina, e, também, componente da veterinária.
A taça e a serpente de Higia (a deusa da saúde, filha de Asclépio), passaram a ser o símbolo da farmacologia.
Hipócrates
Passada a fase da mitologia, surgiu na Grécia, por volta do século VI aC, a Filosofia.
O médico Hipócrates, nascido em 460 aC, numa ilha grega, é considerado o fundador da medicina racional. Nos seus escritos, referiu-se a práticas farmacêuticas. E foi então que ficou clara a diferença entre os profissionais de saúde, os sacerdotes e as outras pessoas que achavam que podiam curar as doenças.
Farmacognósia
Dioscórides, fundador da farmacognosia (ramo da farmacologia que usa produtos naturais, tanto de origem vegetal como de origem animal), acompanhava os exércitos romanos colhendo informações sobre plantas e produtos animais que pudessem ser utilizados como medicamentos. Sua obra tornou-se a principal fonte de informações sobre drogas medicinais, desde o século I até o século XVIII.
Contribuição dos árabes
A farmacologia árabe prestou uma grande contribuição à medicina, na medida em que conservou o conhecimento acumulado pelos gregos, enriquecendo-os com as suas próprias descobertas em química, farmácia, botânica e administração hospitalar.
Os árabes desenvolveram diversos métodos como os de: evaporação, filtragem, sublimação, destilação e cristalização.
Devemos aos árabes a introdução de vários medicamentos, como o âmbar, o almíscar, o cravo da índia, as pimentas, o gengibre chinês, a noz de areca, o sândalo, o ruibarbo, a noz moscada, a cânfora, o cassis e a noz vômica.
Colaboração da veterinária
A colaboração da medicina veterinária para o desenvolvimento da farmacologia é profunda e, muitas vezes, pouco reconhecida. Médicos-veterinários contribuíram para a descoberta, avaliação e aperfeiçoamento de inúmeros medicamentos utilizados tanto em animais quanto em seres humanos.
Principais contribuições
Desenvolvimento de medicamentos por meio de estudos comparativos
A medicina veterinária trabalha com diversas espécies animais, cada uma com características fisiológicas próprias. O estudo das semelhanças e diferenças entre essas espécies permitiu compreender como os fármacos são:
- absorvidos;
- distribuídos pelo organismo;
- metabolizados;
- eliminados.
Esse campo é conhecido como farmacologia comparada, fundamental para prever efeitos terapêuticos e tóxicos dos medicamentos.
Segurança e toxicologia dos fármacos
Toxicologia
Veterinários desempenham papel importante nos estudos de toxicidade, avaliando:
- doses seguras;
- efeitos adversos;
- toxicidade aguda e crônica;
- impactos reprodutivos;
- possíveis efeitos carcinogênicos.
Essas avaliações são etapas indispensáveis antes da aprovação de muitos medicamentos destinados ao uso humano.
Descoberta e desenvolvimento de antiparasitários
Parasitologia
Grande parte do conhecimento sobre antiparasitários surgiu da necessidade de controlar doenças em animais de produção e de companhia. Diversos princípios ativos posteriormente beneficiaram a saúde humana.
Um exemplo notável é a Ivermectina, inicialmente desenvolvida para uso veterinário e que revolucionou o tratamento de doenças parasitárias humanas, como a Oncocercose.
Contribuição para a farmacologia dos antibióticos
Microbiologia
A necessidade de tratar infecções em animais levou ao aperfeiçoamento do uso racional dos antimicrobianos, incluindo estudos sobre:
- espectro de ação;
- posologia;
- resistência bacteriana;
- interações medicamentosas.
Atualmente, veterinários participam ativamente das estratégias globais de combate à resistência antimicrobiana, dentro do conceito de Saúde Única (One Health).
Medicina translacional
Cães, gatos e outros animais desenvolvem espontaneamente doenças semelhantes às humanas, como:
- câncer;
- diabetes;
- osteoartrite;
- epilepsia.
Estudos farmacológicos nessas espécies ajudam a acelerar o desenvolvimento de novas terapias para ambas as áreas da medicina.
Farmacologia de animais de produção
Veterinários estabeleceram protocolos para o uso seguro de medicamentos em bovinos, suínos, aves e peixes, determinando:
- doses adequadas;
- períodos de carência;
- limites máximos de resíduos em alimentos;
- prevenção da contaminação da cadeia alimentar.
Esses conhecimentos protegem tanto a saúde animal quanto a saúde pública.
Pesquisa em vacinas e imunofármacos
Imunologia
A medicina veterinária teve papel decisivo no desenvolvimento de vacinas modernas. Técnicas inicialmente empregadas para enfermidades animais contribuíram para avanços posteriores na imunização humana e no desenvolvimento de imunomoduladores.
Alguns exemplos históricos
- O desenvolvimento da ivermectina, inicialmente voltada ao uso veterinário, transformou o tratamento de doenças parasitárias humanas.
- Estudos veterinários sobre anestésicos e sedativos contribuíram para o aperfeiçoamento da farmacologia anestésica.
- Pesquisas em oncologia veterinária têm auxiliado na avaliação de novos agentes antineoplásicos.
Importância atual: o conceito de Saúde Única
Hoje, a farmacologia moderna reconhece que a saúde humana, animal e ambiental estão interligadas. Médicos-veterinários atuam ao lado de médicos, farmacêuticos, biólogos e pesquisadores na descoberta de novos medicamentos, na vigilância da resistência aos antimicrobianos e na garantia do uso seguro de fármacos.
Síntese
Em síntese, a medicina veterinária não apenas adapta medicamentos para os animais; ela participa ativamente da geração do conhecimento farmacológico que beneficia toda a sociedade, contribuindo para a eficácia, a segurança e a inovação terapêutica em humanos e animais.
