Por Luiz Octavio Pires Leal – Membro Emérito da Academia Brasileira de Medicina Veterinária

 

No início de maio de 1978, foi observada uma grande epizootia num rebanho suíno existente no município de Paracambi, no estado do Rio de Janeiro. Nessa época, dois mil porcos existentes na granja, morreram, 150 deles durante a primeira semana.

O proprietário inicialmente pensou tratar-se de algum problema relacionado com a ração comercial que vinha utilizando. Preocupado com o problema, o veterinário da fábrica de rações, levou um suíno morto recentemente, para Carlos Tokarnia, que necropsiou o animal nas dependências do antigo IBA-Instituto de Biologia Animal, no Km47.

 

Diante do quadro da necropsia e do histórico da doença, na propriedade, Tokarnia suspeitou tratar-se de um caso de peste suína africana, Nesse mesmo dia, a suspeita foi reforçada por ter se verificado “in loco”, que a granja recebia restos de comida de aeronaves internacionais, retirados da Ilha do Governador. Foi encontrada uma grande quantidade de restos de embalagens de alimentos com as inscrições da TAP e da Ibéria.

 

Exames realizados por Charlotte Langenegger, demonstraram resultado negativo para doenças bacterianas.

 

Em maio de 1978, o Plum Island Animal Disease Center, em Nova Iorque, recebeu material de necropsia de oito porcos. Ficou confirmada a concorrência da peste suína africana, no Brasil e que o agente é um vírus.

 

Constatou-se que as vacinas contra a peste suína clássica, de três laboratórios, continham o vírus da peste suína africana, evidenciando a alta probabilidade de que essas vacinas foram a difusora da doença.

 

Papel da veterinária

A Medicina Veterinária tem papel central na pesquisa e no controle da Peste Suína Africana (PSA), uma doença altamente contagiosa que afeta porcos domésticos e javalis, com enorme impacto econômico e sanitário.

Principais contribuições da veterinária:

  1. Diagnóstico e vigilância epidemiológica

O médico-veterinário identifica sinais clínicos (febre alta, hemorragias, mortalidade elevada) e coleta amostras para exames laboratoriais. Também monitora surtos e mapeia a disseminação da doença.

  1. Pesquisa do vírus

A PSA é causada pelo vírus da família Asfarviridae. Veterinários pesquisadores estudam:

  • mecanismos de infecção;
  • resistência ambiental do vírus;
  • formas de transmissão (contato direto, carrapatos, alimentos contaminados).
  1. Desenvolvimento de vacinas

Ainda não existe uma vacina comercial amplamente eficaz e segura em escala global. Veterinários participam de testes experimentais, imunologia e avaliação de proteção.

  1. Biossegurança em granjas

A veterinária desenvolve protocolos para impedir a entrada do vírus:

  • controle de trânsito de animais;
  • desinfecção;
  • quarentena;
  • manejo adequado de resíduos.
  1. Saúde única (One Health)

Embora a PSA não afete humanos, veterinários trabalham integrados com agrônomos, biólogos e autoridades sanitárias para proteger a cadeia alimentar e a economia.

  1. Controle de fauna silvestre

O javali é importante reservatório da doença. Veterinários estudam populações silvestres e estratégias de contenção.

  1. Formulação de políticas sanitárias

Órgãos como a Organização Mundial de Saúde Animal e o Ministério da Agricultura e Pecuária dependem de estudos veterinários para estabelecer normas de prevenção e erradicação.

Importância prática

No Brasil, a PSA está erradicada desde 1984, mas a vigilância veterinária continua essencial para evitar reintrodução, especialmente devido ao comércio internacional e ao trânsito de produtos de origem suína.

Resumo

Sem a veterinária, não existe prevenção, diagnóstico precoce nem estratégia científica eficaz contra a peste suína africana.

Ref.: “História da Medicina Veterinária” – 2009-Luiz Octavio Pires Leal

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