Por Luiz Octavio Pires Leal

 

Na natureza, há animais que utilizam o ultra-som tanto para se localizar como para caçar. Golfinhos e morcegos são dois bons exemplos. Como a sua visão não é boa, eles apelam para a audição.

A primeira observação sobre os morcegos foi feita em 1793 pelo naturalista italiano Spallanzani. Ele constatou que os morcegos, mesmo impedidos de enxergar, desviavam-se de obstáculos e caçavam suas presas no ar. Mas quando eram impedidos de ouvir, através da implantação de tampões de cera nos ouvidos, com a visão intacta, perdiam totalmente a orientação.

Como funciona

O princípio que rege a utilização dos ultrassons baseia-se na emissão de um pulso ultrassônico que, chegando a um objeto retorna sob a forma de eco cujas características permitem determinar a localização, o tamanho, a velocidade e a textura desse objeto.

Os aparelhos de ultrassom, nas áreas médica e médica veterinária, usam frequências de milhões de Hertz. (1 hertz (1 Hz) = 1 ciclo por segundo).

Uso militar

A Teoria do Som, aplicada no Sonar e no Radar, nasceu durante a Primeira Grande Guerra Mundial. Ela foi usada na prática, através de geradores de som de baixa frequência que facilitavam a navegação submarina, permitindo a localização de icebergs, distantes até cinco quilômetros.

Durante a Segunda Grande Guerra Mundial, esses recursos tiveram e continuam tendo, grande desenvolvimento.

A contribuição da veterinária

A medicina veterinária teve participação importante no desenvolvimento e na consolidação da ultrassonografia, tanto como campo de pesquisa quanto como área de aplicação clínica. Embora a tecnologia do ultrassom tenha surgido inicialmente a partir de estudos da física e de aplicações industriais e militares, os veterinários contribuíram significativamente para seu aperfeiçoamento e difusão.

  1. Desenvolvimento da ultrassonografia reprodutiva

Uma das maiores contribuições da veterinária ocorreu na reprodução animal, especialmente em bovinos e equinos. Veterinários foram pioneiros no uso do ultrassom para:

  • diagnóstico precoce de gestação;
  • determinação da viabilidade fetal;
  • avaliação do desenvolvimento embrionário;
  • monitoramento da dinâmica ovariana;
  • identificação de patologias uterinas e ovarianas.

Esses estudos permitiram aperfeiçoar equipamentos portáteis e sondas específicas, posteriormente incorporados também à medicina humana.

  1. Aperfeiçoamento de equipamentos portáteis

A necessidade de examinar animais em fazendas, haras e propriedades rurais estimulou o desenvolvimento de aparelhos:

  • mais leves;
  • resistentes ao transporte;
  • alimentados por bateria;
  • capazes de produzir imagens em condições de campo.

Essas inovações favoreceram a expansão da ultrassonografia para serviços médicos realizados fora dos grandes hospitais.

  1. Criação de técnicas específicas

Veterinários desenvolveram protocolos próprios para diferentes espécies, incluindo:

  • ultrassonografia transretal em bovinos e equinos;
  • avaliação cardíaca em cães e gatos;
  • exame abdominal de pequenos animais;
  • estudo musculoesquelético de cavalos atletas;
  • ultrassonografia em animais silvestres e zoológicos.

Essas adaptações ampliaram o conhecimento sobre anatomia ultrassonográfica comparada.

  1. Formação da ecocardiografia veterinária

A aplicação do ultrassom ao coração dos animais contribuiu para o refinamento de técnicas de ecocardiografia, permitindo:

  • avaliação funcional cardíaca;
  • estudo de cardiopatias congênitas;
  • monitoramento de tratamentos;
  • padronização de medidas cardíacas em diferentes espécies.
  1. Pesquisa translacional

A medicina veterinária também atua como ponte entre a pesquisa experimental e a medicina humana. Modelos animais foram utilizados para testar:

  • novos transdutores;
  • técnicas de ultrassom Doppler;
  • métodos de contraste ultrassonográfico;
  • aplicações terapêuticas do ultrassom.

Esses estudos ajudaram a validar tecnologias posteriormente adotadas em pacientes humanos.

  1. Expansão para a medicina de animais de companhia

A partir das décadas de 1980 e 1990, a ultrassonografia tornou-se exame rotineiro em cães e gatos, impulsionando o desenvolvimento de equipamentos com maior resolução e softwares específicos para órgãos pequenos.

Importância histórica

Embora não tenha inventado a ultrassonografia, a medicina veterinária foi essencial para sua evolução prática, especialmente ao demonstrar sua utilidade em múltiplas espécies e em ambientes diversos. A experiência acumulada pelos veterinários contribuiu para tornar o ultrassom um exame:

  • não invasivo;
  • seguro;
  • rápido;
  • portátil;
  • indispensável tanto na medicina veterinária quanto na humana.

Assim, a veterinária não foi apenas usuária da tecnologia: ela participou ativamente do seu aperfeiçoamento técnico, da criação de novas aplicações diagnósticas e da disseminação mundial da ultrassonografia clínica.

REF  “História da Medicina Veterinária” – 2009 –Luiz Octavio Pires Leal

Imagem gerada por IA