Por Luiz Octavio Pires Leal – Membro Emérito da Academia Brasileira de Medicina Veterinária

 

Em 1931, Taylor Ribeiro de Mello e Moacyr Alves de Souza, diagnosticaram a doença num suíno que veio dos Estados Unidos e que havia morrido durante o transporte do navio para as pocilgas do Ministério da Agricultura, no Rio de Janeiro.

Foi feita a cultura do germe, e as inoculações experimentais reproduziram a doença.

A comprovação sorológica foi feita utilizando material trazido por Octavio Dupont, da Bélgica.

Os autores prepararam ainda um soro hiperimune, que protegia pombos contra a inoculação dos germes da doença.

Foi somente em 1957 que foram diagnosticados os primeiros casos da doença em suínos nascidos no Brasil, reconhecidos em órgãos colhidos no matadouro de Canoas, no Rio Grande do Sul.

Ruiva ou erisipela

A ruiva dos porcos — também chamada de erisipela suína, causada pela bactéria Erisipela suína e pelo agente Erysipelothrix rhusiopathiae — é um excelente exemplo da importância histórica e prática da medicina veterinária.

A contribuição veterinária se dá em três níveis:

1.Diagnóstico clínico precoce

Foi a observação veterinária que caracterizou os sinais clássicos:

  • febre alta;
  • apatia;
  • claudicação (dores articulares);
  • manchas cutâneas em losangos (“diamond skin”).

Essas lesões cutâneas são praticamente a “assinatura” da doença. O olhar clínico veterinário permite diferenciar a ruiva de outras septicemias suínas.

2.Diagnóstico laboratorial e bacteriológico

A veterinária desenvolveu e aperfeiçoou:

  • isolamento bacteriano;
  • cultura de órgãos e fezes;
  • sorologia;
  • histopatologia.

O isolamento de Erysipelothrix rhusiopathiae foi decisivo para entender a epidemiologia da doença, inclusive identificando portadores assintomáticos em matadouros e granjas. Isso teve enorme valor em biossegurança.

3.Tratamento e controle

A medicina veterinária mostrou que a doença responde bem a:

  • penicilina (tratamento clássico);
  • amoxicilina;
  • anti-inflamatórios;
  • suporte hídrico.

Mas sua maior contribuição foi na profilaxia, sobretudo:

  • vacinação sistemática;
  • higiene ambiental;
  • quarentena;
  • controle de lotes.

A vacinação reduziu drasticamente surtos em sistemas intensivos.

4.Impacto econômico e saúde pública

A veterinária demonstrou que a ruiva provoca:

  • perdas de peso;
  • artrites crônicas;
  • endocardites;
  • descarte precoce de matrizes.

Zoonose ocupacional

Além disso, é uma zoonose ocupacional, afetando açougueiros, tratadores e veterinários.

Historicamente, a ruiva foi uma das doenças que ajudaram a consolidar a veterinária moderna como ciência da patologia infecciosa comparada, especialmente na suinocultura.

Resumo

Em resumo: sem a veterinária, a ruiva dos porcos teria permanecido uma enfermidade enigmática; com ela, tornou-se uma doença diagnosticável, tratável e controlável.

 

Ref.: “História da Medicina Veterinária” – 2009 –Luiz Octavio Pires Leal, e IA