Por Luiz Octavio Pires Leal – Membro Emérito da Academia Brasileira de Medicina Veterinária
A história da endoscopia pode ser dividida em quatro períodos: (1) o das válvulas e espéculos – até o século XVIII; (2) o dos endoscópios rígidos – de 1895 a 1932; (3) o dos endoscópios semiflexíveis – de 1932 a 1957, e (4) o dos endoscópios flexíveis.
A partir de 1958, os endoscópios semiflexíveis foram suplantados pelos flexíveis construídos com fibra ótica, e estes, 20 anos depois, pela videoendoscopia.
A colaboração da veterinária
A medicina veterinária teve participação importante no aperfeiçoamento e na expansão do uso do endoscópio, contribuindo tanto para o desenvolvimento técnico dos aparelhos quanto para a consolidação de novas aplicações clínicas.
Entre as principais contribuições destacam-se:
- Aperfeiçoamento dos instrumentos
O atendimento a animais de diferentes espécies e tamanhos exigiu a criação de endoscópios com características variadas. Veterinários ajudaram a estimular o desenvolvimento de aparelhos:
- mais finos e flexíveis para pequenos animais;
- mais longos para equinos e bovinos;
- mais resistentes para suportar o uso em espécies de grande porte;
- equipados com pinças e acessórios específicos para retirada de corpos estranhos e coleta de amostras.
Muitos desses avanços acabaram sendo incorporados também à medicina humana.
- Desenvolvimento de técnicas minimamente invasivas
A medicina veterinária foi uma das áreas que ampliou o uso da endoscopia não apenas para diagnóstico, mas também para tratamento. Passaram a ser realizados procedimentos como:
- remoção de objetos ingeridos;
- biópsias do trato digestório e respiratório;
- avaliação das cavidades nasais;
- artroscopias (exame das articulações);
- laparoscopias e toracoscopias cirúrgicas.
A experiência acumulada nesses procedimentos ajudou a demonstrar as vantagens das técnicas minimamente invasivas: menor dor, recuperação mais rápida e redução do tempo de internação.
- Pesquisa translacional
Animais atendidos em hospitais veterinários e modelos animais utilizados em pesquisa permitiram testar novos materiais, sistemas ópticos e instrumentos antes de sua ampla adoção na medicina humana. Essa troca de conhecimentos entre médicos e veterinários contribuiu para o aperfeiçoamento contínuo da endoscopia.
- Formação do conceito de “Uma Só Saúde”
A cooperação entre medicina humana e veterinária, conhecida como One Health (Uma Só Saúde), favoreceu o intercâmbio de experiências em diagnóstico por imagem e técnicas endoscópicas. Muitos especialistas passaram a compartilhar métodos, equipamentos e protocolos.
- Expansão do conhecimento anatômico comparado
A necessidade de adaptar o endoscópio às particularidades anatômicas de cães, gatos, cavalos, bovinos, aves e animais silvestres ampliou o entendimento sobre a navegação endoscópica em diferentes estruturas corporais, estimulando inovações em óptica, iluminação e ergonomia dos equipamentos.
Em síntese
A medicina veterinária não inventou o endoscópio, cuja origem remonta ao século XIX com os trabalhos do médico alemão Philipp Bozzini, mas teve papel relevante em seu aperfeiçoamento, diversificação e disseminação, contribuindo para tornar a endoscopia uma ferramenta diagnóstica e terapêutica mais segura, precisa e menos invasiva tanto para animais quanto para seres humanos.
