Por Luiz Octavio Pires Leal
O termo antibiótico foi usado pela primeira vez, por Waksman, em 1942, 53 anos depois de Wuillemin, que considerou as “substâncias produzidas por microrganismos (bactérias, fungos, actinomicetos) antagonistas do desenvolvimento da vida de outros microrganismos.”
A disseminação do uso do termo, entretanto, passou a incluir os agentes bacterianos sintéticos, como as sulfonamidas e as quinolonas, que não são produzidos por microrganismos.
A grande descoberta
A descoberta da penicilina é um dos acontecimentos mais importantes da história da medicina.
Em 1928, o cientista Alexander Fleming, que trabalhava no St Mary’s Hospital, observou algo incomum em uma placa de cultura contendo bactérias. Um fungo do gênero Penicillium havia contaminado a placa, e Fleming percebeu que as bactérias ao redor do fungo tinham sido destruídas. Ele concluiu que o fungo produzia uma substância capaz de matar bactérias. Essa substância foi chamada de penicilina.
Foi o início de uma nova era da Saúde Pública, com a descoberta – que ainda permanece – de uma série de novas bactérias.
A contribuição da veterinária
A contribuição da medicina veterinária para o desenvolvimento dos antibióticos foi muito maior do que geralmente se reconhece. Veterinários participaram desde os experimentos iniciais com animais até a descoberta de novas substâncias e a criação de estratégias para o uso racional desses medicamentos.
1. Experimentação animal que tornou possível o uso clínico
A descoberta da penicilina por Alexander Fleming, em 1928, demonstrou que o fungo Penicillium produzia uma substância capaz de inibir bactérias. Entretanto, a aplicação terapêutica só foi viabilizada anos depois.
A equipe liderada por Howard Florey e Ernst Boris Chain realizou testes em camundongos infectados experimentalmente. Esses estudos, baseados em conhecimentos de patologia e manejo animal desenvolvidos também na medicina veterinária, demonstraram a eficácia e a segurança da penicilina antes de sua utilização em seres humanos.
2. Descoberta de antibióticos para uso animal e humano
Veterinários e microbiologistas veterinários contribuíram para a identificação de microrganismos produtores de novas moléculas antibacterianas.
Entre os antibióticos cuja utilização foi amplamente estudada em animais destacam-se:
- Penicillin;
- Streptomycin;
- Tetracycline;
- Chloramphenicol;
- Erythromycin.
Animais domésticos e de produção serviram como modelos para avaliar farmacocinética, toxicidade, doses e eficácia terapêutica dessas substâncias.
3. Desenvolvimento da farmacologia veterinária
A medicina veterinária demonstrou que diferentes espécies metabolizam medicamentos de maneiras distintas. Estudos em bovinos, equinos, suínos, aves e cães permitiram compreender:
- absorção dos antibióticos;
- distribuição nos tecidos;
- tempo de eliminação;
- efeitos adversos específicos;
- ajustes de dose.
Esses conhecimentos influenciaram a farmacologia comparada, beneficiando também a medicina humana.
4. Controle das doenças nos rebanhos
A utilização criteriosa de antibióticos na pecuária reduziu drasticamente a mortalidade causada por doenças bacterianas como:
- mastites bovinas;
- pneumonias em bezerros;
- infecções respiratórias em suínos;
- colibaciloses em aves;
- onfalites neonatais.
A melhoria da saúde animal contribuiu para a segurança alimentar e para o aumento da produção de proteínas de origem animal.
5. Combate à resistência antimicrobiana
Atualmente, uma das maiores contribuições da veterinária é a promoção do uso responsável dos antibióticos.
Dentro do conceito de World Organization for Animal Health e da abordagem do World Health Organization conhecida como One Health, veterinários trabalham para:
- reduzir o uso indiscriminado de antimicrobianos;
- monitorar bactérias resistentes em animais;
- orientar períodos de carência em alimentos;
- desenvolver programas de vigilância epidemiológica;
- preservar a eficácia dos antibióticos para animais e seres humanos.
6. A visão histórica
Pode-se afirmar que a veterinária contribuiu para o desenvolvimento dos antibióticos em três grandes frentes:
- como ciência experimental, ao aperfeiçoar modelos animais e estudos pré-clínicos;
- como especialidade clínica, ao estabelecer esquemas terapêuticos para diversas espécies;
- como área de saúde pública, ao liderar ações de controle da resistência bacteriana.
Assim, a história dos antibióticos não é apenas uma conquista da medicina humana ou da microbiologia: ela também é resultado da participação decisiva da medicina veterinária, especialmente na pesquisa experimental, na farmacologia comparada e na proteção integrada da saúde animal e humana.
