Por Luiz Octavio Pires Leal – Membro Emérito da Academia Brasileira de Medicina Veterinária
Diversos instrumentos cirúrgicos, tanto para uso humano, como veterinário, foram fabricados desde os tempos pré-históricos.
Eles foram descobertos em sítios neolíticos.
Cirurgiões da Índia usaram sofisticados instrumentos cirúrgicos desde tempos remotos.
O “pai da cirurgia”
Sushruta (500 aC) foi, provavelmente, o cirurgião mais importante da História Antiga. Ficou conhecido como “pai da cirurgia”. Ele descreveu 120 instrumentos cirúrgicos, 300 procedimentos, e classificou oito categorias de cirurgias em seres humanos.
O papel da veterinária
A medicina veterinária teve papel importante no desenvolvimento e aperfeiçoamento dos instrumentos cirúrgicos, embora essa contribuição seja menos conhecida do que a de médicos humanos. Ao longo da história, veterinários enfrentaram desafios específicos relacionados à grande variedade de espécies animais, o que estimulou a criação e a adaptação de técnicas e instrumentos posteriormente incorporados à cirurgia humana.
Entre as principais contribuições, destacam-se:
- Adaptação de instrumentos para diferentes anatomias
Veterinários precisaram operar animais de tamanhos e características anatômicas muito distintas — desde aves até cavalos e bovinos. Isso levou ao desenvolvimento de instrumentos com diferentes comprimentos, curvaturas e sistemas de apreensão, muitos dos quais inspiraram modificações utilizadas em humanos.
- Aperfeiçoamento dos instrumentos ortopédicos
A cirurgia ortopédica veterinária, especialmente em cavalos e cães, contribuiu para o aperfeiçoamento de:
- placas ósseas;
- parafusos;
- pinos intramedulares;
- fixadores externos.
Técnicas inicialmente testadas em animais ajudaram a melhorar a resistência e a funcionalidade desses dispositivos.
- Desenvolvimento da cirurgia minimamente invasiva
A videolaparoscopia veterinária exigiu a criação de instrumentos adaptados a diferentes espécies e portes. Pinças, trocartes e sistemas ópticos mais versáteis passaram a ser empregados tanto na medicina veterinária quanto na humana.
- Avanços na microcirurgia
Procedimentos oftalmológicos e vasculares em pequenos animais impulsionaram o uso de instrumentos delicados, como:
- microtesouras;
- microporta-agulhas;
- pinças de precisão.
Esses aperfeiçoamentos beneficiaram também especialidades médicas humanas.
- Ensino e validação de técnicas cirúrgicas
Escolas veterinárias tiveram papel relevante no treinamento cirúrgico e na avaliação da eficácia e segurança de novos instrumentos antes de sua ampla utilização clínica. Modelos animais permitiram testar ergonomia, durabilidade e desempenho dos equipamentos.
- Cirurgia de grandes animais
As necessidades da cirurgia em equinos e bovinos favoreceram o desenvolvimento de instrumentos mais robustos, capazes de atuar em tecidos espessos e em cavidades profundas. Alguns desses princípios foram posteriormente aplicados em cirurgias humanas complexas.
Importância do conceito de “Uma Só Saúde” (One Health)
A filosofia de One Health reconhece que os avanços obtidos na medicina veterinária frequentemente repercutem na medicina humana. O intercâmbio de conhecimentos sobre técnicas operatórias e instrumentos cirúrgicos é um dos exemplos mais claros dessa colaboração.
Conclusão
A medicina veterinária não apenas adaptou instrumentos existentes às necessidades dos animais, mas também contribuiu diretamente para a inovação cirúrgica, fornecendo experiências práticas, modelos experimentais e soluções técnicas que ajudaram a aperfeiçoar os instrumentos utilizados atualmente tanto em animais quanto em seres humanos.
