Autores:
Fernanda Lima Mendes; Rebeca Praxedes Nogueira Dantas – Discentes da Liga de Doenças Infecciosas da UFRRJ (LINFEC).
Victor Hugo Machado Luques Dias – Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias da UFRRJ (PPGCV/UFRRJ).
Clayton Bernardinelli Gitti – Professor Titular e Coordenador da LINFEC – UFRRJ.

1. Introdução

A Doença de Chagas é uma enfermidade infecciosa causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, identificada no início do século XX pelo médico e cientista brasileiro Carlos Chagas. A transmissão ocorre principalmente por via vetorial, quando as fezes de triatomíneos infectados (insetos popularmente conhecidos como barbeiros) entram em contato com feridas na pele ou nas mucosas do hospedeiro. No Brasil, entretanto, a Doença de Chagas Aguda por transmissão oral tem se destacado em novos casos, especialmente na região Norte. Essa mudança epidemiológica se deve, em grande parte, ao consumo de açaí contaminado, alimento de grande importância cultural e econômica para o país.

A contaminação ocorre durante o processamento do fruto, quando o vetor ou suas fezes são acidentalmente triturados junto à polpa do açaí. A evolução clínica da doença varia de uma fase aguda assintomática, caracterizada por síndrome febril, vômito e diarreia, a manifestações agudas graves, com miocardite aguda, insuficiência cardíaca e óbito, sendo a morbimortalidade mais elevada nos casos de transmissão oral. Dessa forma, fica evidente que, mesmo após mais de um século de sua descoberta e dos avanços nas condições higiênico-sanitárias, a adoção de medidas rigorosas de controle sanitário na cadeia produtiva de alimentos, sobretudo no de açaí, é essencial para a saúde pública.

2 . Epidemiologia no Brasil

Atualmente, a transmissão de T. cruzi por via oral é uma das principais formas de infecção aguda pela Doença de Chagas no Brasil. Esse cenário é agravado por fatores ambientais e pela vulnerabilidade socioeconômica, incluindo a invasão de habitats silvestres por humanos, atividades produtivas extensivas e a precariedade das condições de habitação e de educação. Além disso, as alterações climáticas podem impulsionar a disseminação do parasita ao modificar os padrões biológicos e a distribuição geográfica de seus vetores.

Em seres humanos, essa forma de infecção ocorre de forma acidental, associada principalmente ao consumo de alimentos contaminados com a forma infectante do parasita (tripomastigotas metacíclicas). Outras formas de infecção incluem a ingestão de caldo de cana contaminado e carne crua ou mal-passada de caça. Os casos de transmissão oral concentram-se predominantemente na região Norte do Brasil, onde o Estado do Pará concentra a maior parte dos registros e apresenta um perfil epidemiológico fortemente associado ao consumo de açaí contaminado, consolidado como o principal veículo de transmissão do parasita na Amazônia.

3 . Aspectos Clínicos da Doença de Chagas Aguda por Transmissão Oral

Comparada à transmissão vetorial da Doença de Chagas, a forma aguda por transmissão oral geralmente apresenta quadro sintomático mais grave, devido à maior carga parasitária. Na fase inicial da infecção, o protozoário T. cruzi encontra-se na corrente sanguínea na forma tripomastigota, caracterizada pela presença de flagelo e elevada mobilidade. Na maioria dos casos agudos, a sintomatologia clínica envolve sinais inespecíficos, como febre, que pode persistir por até 12 semanas, cefaleia, vômito, diarreia e linfonodomegalia. Os sintomas podem desaparecer espontaneamente, evoluindo para a fase crônica, ou podem evoluir para quadros agudos graves, que incluem miocardite aguda, pericardite, insuficiência cardíaca e óbito.

4 . Açaí como veículo de transmissão oral da Doença de Chagas

O açaí é o fruto da palmeira Euterpe oleracea, amplamente consumido no Brasil, e possui grande importância econômica e cultural para o país, especialmente na região amazônica. No entanto, com a intensificação da monocultura do açaí, a transmissão oral da Doença de Chagas ganhou destaque no estado do Pará e passou a atingir centros urbanos dentro e fora da Amazônia, impulsionada pelo consumo regional do ‘vinho’ de açaí e pela comercialização de seus derivados em outros estados. Os casos ocorrem em surtos e geralmente coincidem com o período da safra do açaí, entre agosto e novembro.

O barbeiro costuma ser encontrado próximo aos frutos do açaí, sendo a palmeira o seu habitat natural. Durante a colheita, tanto o barbeiro quanto suas fezes podem ser acidentalmente recolhidos junto aos frutos, comprometendo a etapa de processamento. Na etapa de conservação, o resfriamento ou o congelamento do produto, sem tratamento térmico prévio, não é eficaz contra T. cruzi, pois o parasita pode sobreviver por dias a temperaturas negativas. Durante a comercialização, a manipulação de recipientes, utensílios ou superfícies sem higienização adequada pode favorecer a contaminação e ampliar o risco de transmissão da doença.

5 . Medidas de Prevenção

Cabe ressaltar que o risco de infecção não é uma característica do açaí em si, mas está associado a falhas higiênico-sanitárias desde a colheita e o processamento até a conservação e comercialização. Dessa forma, a aplicação de Boas Práticas de Fabricação (BPF) em toda a cadeia produtiva é essencial, pois garante a qualidade sanitária dos alimentos.

As BPF aplicadas ao açaí começam ainda na escolha dos fornecedores, que devem garantir frutos em condições adequadas ao processamento. No local de preparo, é fundamental manter a qualidade da água e a higienização adequada de equipamentos, utensílios e instalações. O processamento inicia-se com a seleção e catação dos frutos, visando à retirada de sujidades, como pedras, folhas e insetos. Em seguida, realiza-se a lavagem e a sanitização em solução clorada (150 ppm) por 15 minutos, com posterior enxágue. Após essas etapas, os frutos são despolpados, envasados e mantidos sob refrigeração. Como medida adicional de segurança, recomenda-se a aplicação de tratamento térmico antes do armazenamento, sendo a pasteurização para as agroindústrias e o branqueamento para os batedores artesanais. Além disso, o alimento pronto para consumo deve ser protegido contra a possível presença de pragas, pois moscas e baratas podem atuar como carreadores mecânicos de T. cruzi.

Em paralelo, também é necessária a atuação da esfera governamental por meio de sistemas de fiscalização eficientes, a fim de garantir o cumprimento das medidas de controle e prevenção ao longo de toda a cadeia produtiva. A capacitação contínua dos manipuladores garante a eficácia das barreiras sanitárias no processamento, enquanto a conscientização da população promove o consumo seguro e a exigência de produtos inspecionados. Somado a isso, dada a relação cultural do açaí com a região Norte, as medidas de prevenção precisam ser culturalmente aceitas e adaptadas aos hábitos locais, de modo a favorecer sua adesão sem comprometer a tradição alimentar.

Referências

BEZERRA, V. S. Efeito de diferentes processos de sanitização de frutos de açaí sobre a sua qualidade microbiológica, físico-química e sensorial. 2016. 200 f. Tese (Doutorado em Ciências dos Alimentos) – Programa de Pós-Graduação em Ciências dos Alimentos, Instituto de Química, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

BEZERRA, V. S.; DAMASCENO, L. F.; FREITAS- -SILVA, O.; CABRAL, L. M. C. Tratamento térmico de frutos de açaí. Macapá: Embrapa Amapá, 2017a. 9 p. (Embrapa Amapá. Comunicado técnico, 151).

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Instituto Oswaldo Cruz. Método permite detectar parasito de Chagas no açaí. Disponível em: https://www.ioc.fiocruz.br/noticias/metodo-permite-detectar-parasito-de-chagas-no-acai

BRASIL. Ministério da Saúde. Doença de Chagas. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/doenca-de-chagas

BRASIL. Ministério da Saúde. Doença de Chagas. Biblioteca Virtual em Saúde. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/doenca-de-chagas-10/

GUIA PARA VIGILÂNCIA, PREVENÇÃO, CONTROLE E MANEJO CLÍNICO DA DOENÇA DE CHAGAS AGUDA TRANSMITIDA POR ALIMENTOS 2009. [s.l: s.n.]. Disponível em: <https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_vigilancia_prevencao_doenca_chagas.pdf>

VASCONCELOS, A. C.; CARTÁGENES, S. DE C.; SILVA, T. F. DA. Açaí e a transmissão da doença de Chagas: uma revisão. Research, Society and Development, v. 11, n. 16, p. e532111638638, 16 dez. 2022.