Por Luiz Octavio Pires Leal – Membro Emérito da Academia Brasileira de Medicina Veterinária.

 

Para os habitantes do Nordeste, +25oC é frio. Para os paulistanos, o frio começa abaixo dessa temperatura; carioca já sente frio aos +20oC, e o pessoal do Sul é mais tolerante.

É claro que essas afirmações têm valor relativo, dependendo da umidade relativa do ar, e de cada pessoa, individualmente

Cavalo brasileiro que vive ao ar livre, em todas as regiões, ao menos aparentemente é indiferente à temperatura.

Na Sibéria

 

-10oC é temperatura agradável para a maioria dos habitantes. Mas, na quase totalidade do ano, essa temperatura não é comum, e a luta contra o frio é assunto dominante. E tudo relaciona-se com o frio: não existe solo, nem neblina, nem lenha para queimar nas lareiras ou fornos. Não existe água nem leite sob a forma líquida, mas só em blocos sólidos. A água obtida do derretimento do gelo, para tornar-se adequada para o consumo humano, precisa ser mineralizada. Armações de óculos, metálicas, não servem porque queimam o rosto.

Segurar qualquer coisa sem luvas, é risco de queimar as mãos.

É uma luta permanente, pela sobrevivência.

 

É adaptação ou morte

Os cavalos que vivem nas regiões mais frias da Sibéria conseguem suportar temperaturas de até -50 °C graças a uma combinação de adaptações biológicas, comportamento e evolução. Eles não são “imunes” ao frio, mas são extremamente bem adaptados a ele.

Os principais fatores são:

  • Pelagem de inverno muito espessa: No outono, desenvolvem uma pelagem densa com duas camadas. A camada externa repele neve e umidade, enquanto a camada interna prende uma espessa camada de ar, que funciona como excelente isolante térmico.
  • Pele e gordura subcutânea: Durante o verão e o outono, acumulam uma camada de gordura sob a pele que ajuda a conservar o calor e serve como reserva de energia para o inverno.
  • Metabolismo elevado: Eles aumentam a produção de calor corporal consumindo grandes quantidades de alimento fibroso, como capim seco. A digestão da fibra no intestino grosso gera bastante calor, funcionando como um “aquecedor interno”.
  • Redução da perda de calor: Quando faz muito frio, os vasos sanguíneos das extremidades (pernas, orelhas e focinho) se contraem, diminuindo a perda de calor. Além disso, o formato relativamente compacto do corpo reduz a área exposta ao ambiente.
  • Comportamento: Em tempestades ou ventos fortes, eles:
    • ficam de costas para o vento;
    • agrupam-se em bandos para reduzir a exposição;
    • procuram abrigo natural, como florestas, colinas ou vales.

E os cascos na neve?

Os cascos são feitos de queratina e têm irrigação sanguínea reduzida na parte externa. A neve seca é um bom isolante, e o casco foi moldado para caminhar sobre solo congelado sem congelar os tecidos internos.

Eles não sentem frio?

Sentem, mas o ponto de conforto térmico deles é muito mais baixo do que o dos cavalos de climas temperados. Um cavalo siberiano saudável pode permanecer confortável em temperaturas que seriam perigosas para outras raças.

Les sobreviveriam sem comida?

Não. O maior desafio do inverno não é apenas o frio, mas encontrar alimento. Para manter a temperatura corporal em -50°C, precisam ingerir muito mais energia. Muitos passam o inverno escavando a neve com os cascos para alcançar a vegetação seca.

Um exemplo impressionante é o cavalo Yakut. Essa raça vive na região da Yakútia, onde temperaturas abaixo de -60°C podem ocorrer. Eles passam praticamente todo o ano ao ar livre, desenvolvendo uma pelagem que pode atingir 10 a 15 cm de comprimento no inverno, uma das mais espessas entre os cavalos domésticos. Essa adaptação é resultado de milhares de anos de seleção natural e da criação tradicional pelos povos locais.

 

Imagem gerada por IA