Por Edino Camoleze*

CARLOS MARIA ANTÔNIO HUBINGER TOKARNIA
– Veterinário – Patologista – Pesquisador –
1. Biografia
Carioca nascido na cidade do Rio de Janeiro, bairro do Catete, em 24 de março de 1929, filho de imigrantes austríacos, o menino Carlos Tokarnia aos nove anos (1938) voltou com sua família para Alemanha onde realizou seus estudos básicos. Após estudar na Alemanha e Áustria, num conturbado período de guerra, pode completar seus estudos secundários, e iniciou os estudos acadêmicos em Medicina Veterinária na Universidade de Viena, em 1947. Sem completar seus estudos veterinários em Viena, voltou ao Brasil, em 1949, onde, após prestar vestibular, ingressou na Escola Nacional de Veterinária- ENV, da Universidade Rural do Brasil, em Seropédica, km 47, da Rodovia Rio-São Paulo. ( UFRRJ, SAP )
Após três anos de exaustivos e rigorosos estudos na ENV, onde como aluno revelou grande liderança estudantil, com handicap de falar fluentemente os idiomas alemão e inglês, graduou-se médico veterinário, em 1952.
*Edino Camoleze – Cel Vet EB. MS em Tecnologia de Alimentos. Zoogeografia de Animais da América do Sul. Acadêmico Titular da ABRAMVET.Email:edino0644@gmail.com.
2. Atividades profissionais.
2.1 Serviço Público.
No início de sua carreira profissional, como veterinário oficial do Ministério da Agricultura, foi designado para trabalhar como patologista animal no Setor de Anatomia Patológica (SAP) do Instituto de Biologia Animal (IBA), situado no Bairro Maracanã-RJ, onde permaneceu durante o período de (1953-1954).
Foi no Setor de Anatomia Patológica-SAP que pode revelar toda a sua vocação de pesquisador – clínica patológica -, aumentando significantemente o acervo de exames histopatológicos, lâminas e peças patológicas das doenças que ocorriam em todo o Brasil.
Destaca-se, ainda, que o Setor de Anatomia Patológica do Instituto de Biologia Animal – SAP, na época em que o Dr. Tokarnia iniciou seus trabalhos (1953), Ministério da Agricultura, era o único do país que realizava estudos e pesquisas, diagnóstico sobre as zoonoses existentes nos animais de produção e selvagens do Brasil.
2.2 Especialização no Exterior.
Beneficiando-se de falar dois idiomas, inglês e alemão, e interessado em pesquisar doenças provocadas por plantas tóxicas e carências minerais, áreas pouco estudadas no Brasil, conseguiu na década de 1950 estagiar e fazer cursos em algumas universidades e institutos da Europa e da África, a saber:
– De 1955 a 1956 estagiou na área de Patologia Animal no Onderstepoort Veterinary Institute, na República da África do Sul, sob os auspícios de uma bolsa da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO);
– Aproveitando sua estada na África do Sul, visitou e estagiou em alguns países africanos como Moçambique, Zimbábue, Namíbia e Angola;
– Na Alemanha, fez estágios na área de Patologia Animal na Escola de Veterinária de Hannover, e no Royal Veterinary College;
– Na Inglaterra, na Universidade de Londres.
De volta ao Brasil (1957) com conhecimentos atualizados e inovadores em patologia animal, adquiridos na Europa e África, dedicou-se, com bolsa do CNPq, aos estudos sobre doenças de etiologias obscuras, causadas por plantas tóxicas e deficiências minerais, no Nordeste do Brasil, principalmente nos Estados da Paraíba, Piauí e Ceará.
Nas várias expedições científicas realizadas no nordeste brasileiro, de grande interesse do Ministério da Agricultura, sempre acompanhado de seu parceiro de pesquisa, Dr. Jürgen Döbereiner, produziram vários Relatórios Sanitários Epidemiológicos, descrevendo doenças, muitas delas inéditas, e ampliando o acervo nosológico do Ministério. (UFRRJ, SAP)
2.3 Magistério.
Influenciado pelo moderno modelo de ensino da medicina veterinária da Escola de Medicina Veterinária de Viena, onde começou seus estudos acadêmicos veterinários, e vocacionado para o magistério, conectando perfeitamente as atividades de ensino e a pesquisa, dedicou maior parte de sua carreira profissional ao ensino, assim registrado:
– Universidade Federal Fluminense-UFF/Faculdade de Veterinária. Professor na disciplina de Toxicologia e Anatomia Patológica, por mais de vinte anos (1959 -1979) consecutivos onde desfrutou da companhia do renomado professor e cientista Dr. Jefferson de Andrade. Muito conceituado na Escola Fluminense teve oportunidade de formar muitas gerações de veterinários e produzir extensa lista de trabalhos acadêmicos;
– Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro-UFRRJ. Onde lecionou, durante o período de 1978 -1915, sendo responsável pelas disciplinas de “Doenças causadas por plantas tóxicas” e por “Deficiências minerais” para os cursos de Graduação e Pós-Graduação em Medicina Veterinária e Zootecnia;
– Docente de vários cursos de Pós-Graduação em níveis de Especialização, Mestrado e Doutorado em diversas Universidades Federais do país (Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), RS, Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), PE, Universidade Federal Fluminense (UFF), RJ e Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ);
– Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS. Em 1965 obteve os títulos de Doutor e Docente Livre, em concurso público, com defesa de tese sobre “Alterações anatomopatológicas da intoxicação de bovinos por jasmim-do-Pará, (Cestrum laevigatum)”, a que se submeteu na Faculdade de Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em Porto Alegre, RS.
2.4 Entidades privadas.
O Prof. Tokarnia, incansável pesquisador e divulgador da medicina veterinária brasileira no Brasil e no exterior, foi colaborador e/ou consultor de várias instituições privadas ou autarquias tendo como destaque:
– Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico – CNPq. Foi bolsista do CNPq em todos os níveis, desde a Iniciação Científica até Pesquisador A1. Graças ao apoio financeiro do Conselho ( bolsa), vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, pode realizar pesquisas e desenvolver trabalhos de alcance internacional em quase todo o Brasil, principalmente no Rio Grande do Sul e na Amazônia.
No Conselho ( CNPq ) foi Diretor do Setor de Veterinária no período de 1966 e 1974, e Conselheiro entre 1960 e 1965.
– Foi membro fundador do Colégio Brasileiro de Patologia Animal (CBPA) cujo objetivo principal é fomentar o desenvolvimento da patologia veterinária, promover a união de profissionais e pesquisadores, e organizar cursos, eventos e congressos de interesse da medicina veterinária e saúde animal. (CRMV-MT+1 )
– De 1971 a 1978 fez parte da Assessoria Científica e do corpo editorial da revista Pesquisa Agropecuária Brasileira, e a partir de 1980 foi consultor da revista científica Pesquisa Veterinária Brasileira, além de vários artigos publicados na revista “ Hora Veterinária “.
3. Parceria Científica.
Considerado um dos pioneiros da estruturação da pesquisa científica patológica animal no Brasil, formou com o Dr. Jürgen Döbereiner uma das mais importantes parcerias científicas da Universidade Rural do Rio de Janeiro-UFRRJ, por mais de meio século de trabalhos contínuos de investigação no campo e nos laboratórios de pesquisa de patologia animal. (CBPA,2019)
Dedicando-se inteiramente aos estudos das doenças provocadas pelas plantas tóxicas e deficiências de minerais, principalmente em bovinos, no país a parceria constituída com a mesma finalidade científica, produziu um acervo de mais de cem trabalhos tecnocientíficos, a maioria inédito, publicados em revistas especializadas e apresentados em Congressos Brasileiros de Medicina Veterinária. ( ARQUIVOS TOKARNIA, UFMT )
Graças ao seu desempenho profissional como professor titular da Universidade Rural do Rio de Janeiro (1978) e pesquisador do Instituto de Biologia Animal, Setor de Anatomia Patrológica-SPA (1959), o Ministério da Agricultura, através das coleções de lâminas patológicas, peças anatômicas e fotografias etc., pode conhecer o mapa nosológico espacial territorial das doenças tóxicas e mineriocarenciais que acometiam os animais de produção no Brasil.
4. Obra publicada.
Com a colaboração imprescindível de alguns médicos veterinários do Instituto de Biologia Animal – IBA e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro -UFRRJ, entre eles: Drs. Jürgen Döbereiner, Marilene de Farias Brito, Paulo Vargas Peixoto e José Diomedes Barbosa, o renomado professor e pesquisador Carlos Tokarnia produziu um acervo científico e tecnológico inédito no desenvolvimento da veterinária brasileira (patologia animal), representado por mais de 300 artigos publicados em jornais e revistas especializadas, e alguns livros publicados, destacando entre eles:
– Plantas Tóxicas do Brasil para Animais de Produção. Livro que descreve a sintomatologia, a patologia e o diagnóstico de intoxicações causadas por plantas em animais de grande porte. Primeira edição publicada em 2000 pela Editora Hellanthus. Segunda edição ( revista e ampliada ) publicada em 2012.
– Deficiências Minerais em Animais de Produção. Este compêndio, lançado pela Editora Hellanthus, em 2010, aborda as principais doenças provocadas pela carência de minerais que afetam a pecuária nacional. De forma prática, mostra os diagnósticos de campo sobre nutrição e distúrbios metabólicos em rebanhos.
– Plantas Tóxicas da Amazônia em Bovinos e Outros Herbívoros. Obra de extrema relevância para a medicina veterinária tropical, foca especificamente nas espécies vegetais nocivas encontradas no bioma amazônico. Primeira edição publicada em colaboração com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA, em 1979. Segunda edição, revisada e ampliada lançada em 2007. ( OPENAI, 2026)
5. Atuação internacional.
A vida profissional internacional do prof. Carlos Tokarnia começou quando ele estudou medicina veterinária na Alemanha e Áustria durante sua juventude. Mais tarde, como profissional veterinário graduado, realizou estágios avançados na área de Clínica Patológica animal em instituições europeias de elevado prestígio como: Escola de Veterinária de Hannover/Alemanha e no Royal Veterinary College, em Londres/Inglaterra.
Como bolsista da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – FAO, teve papel destacado na pesquisa de doenças animal (bovino) e outros animais de produção em seis países africano (África do Sul, Moçambique, Zimbabue, Namíbia, Angola, Portugal), realizando trabalhos de campo e relatórios epidemiológicos das doenças produzidas por plantas tóxicas e deficiências minerais, naqueles países.
Na América do Sul, ao lado de cientistas como Döbereiner, integrou o influente grupo de patologistas conhecidos como os “Dacorso boys“, em homenagem ao inesquecível pesquisador Paulo Dacorso Filho. Esse grupo consolidou a filosofia do diagnóstico de doenças em animais de produção com base em visitas regulares no campo combinadas com o rigor laboratorial. Esse modelo inovador acabou moldando profundamente às diretrizes de diagnóstico veterinário na América do Sul, integrando conhecimentos compartilhados entre o Brasil, Uruguai e Argentina.
6. Casamento.
O renomado pesquisador Carlos Tokarnia foi casado com a Sra. Maria Luiza Tokarnia. Residiu maior parte de sua vida no Bairro Residencial da Universidade Rural.
7. Aposentadoria.
Aposentou-se dos serviços ativos veterinários no ano de 1999, como professor/pesquisador na Universidade Rural do Rio de Janeiro, mas continuou trabalhando ativamente até o final de sua vida na pesquisa, no ensino de Pós-Graduação e na Extensão Universitária.
8. Falecimento.
Faleceu no dia 06 de julho de 2015, sendo a cerimônia de despedida realizada no crematório de um cemitério do Rio de Janeiro, onde o corpo físico foi cremado.
9. Prêmios e homenagens.
9.1 Prêmios.
Os principais prêmios criados para homenagear o legado e a memória do prof. Carlos Tokarnia, incluem:
– Prêmio Tokarnia. Semana do Médico Veterinário-SEMEV, da Universidade Rural do Rio de Janeiro. Tem objetivo de estimular e premiar a pesquisa científica entre os estudantes de Medicina Veterinária.
– Prêmio Professor Carlos Tokarnia – Encontro Nacional de Diagnóstico Veterinário-ENDIVET. Universidade Federal de Mato Grosso-UFMT. Para premiar os melhores trabalhos científicos e pesquisas de destaque apresentados por profissionais e acadêmicos na categoria pôster e diagnóstico.
– Prêmio Paulo Dacorso Filho. Do Conselho Federal de Medicina Veterinária-CFMV, edição 2014. Por sua relevante contribuição acadêmica e por toda sua história de dedicação à Medicina Veterinária e a agropecuária brasileira.
– Prêmio de Pesquisa Professor Carlos Tokarnia-UFRRJ. Criado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro-UFRRJ, por professores e estudantes da Universidade, para premiar os melhores trabalhos científicos e acadêmicos da Instituição.
9.2 Homenagens.
– Museu de Anatomia Patológica Carlos Tokarnia-MAPCT. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro-UFRRJ. Espaço cultural e científico onde se encontra todo o acervo científico e tecnológico que o prof. Tokarnia produziu em toda a sua vida acadêmica. (MAPCT)
– Centro de Memória Carlos Hubinger Tokarnia. Inaugurado em 2016, na Universidade Rural, idealizado para eternizar seu exemplo acadêmico e suas contribuições às gerações futuras.
– Acervo Digital Arquivos de Tokarnia. Universidade do Mato Groso -UFMT. Acervo digital “on line” onde pode ser encontrado os mais de 200 trabalhos científicos produzidos pelo Prof. Tokarnia e Colaboradores.
Bibliografia consultada.
1. COLÉGIO BRASILEIRO DE PATOLOGIA ANIMAL – CBPA. http://www.pvb.com.br/portal/historia_do_cbpa. Acessado, outubro 2026.
2. CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA VETERINÁRIA -CFMV. Prêmio Paulo Dacorso Filho. Julho de 2015. Brasília-DF.
3. CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA VETERINÁRIA DO ESTADO DO MATOGROSSO.CRMV-MT+1.Colégio Brasileiro de Patologia Animal. Membro fundador. Cuiabá/Mato Grosso, Brasil.
4. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A ALIMENTAÇÃO E A AGRICULTURA – FAO. Atuação Internacional. Bolsista em vários países da Europa e da África. https://www.fao.org/brasil/pt/
5. MUSEU DE ANATOMIA PATOLÓGICA CARLOS TOKARNIA – MAPCT. Acervo cultural científico de mais de 80 anos produzidos por eméritos professores de anatomia patológica da UFRRJ.
6. OPENAI,2026. Espécies vegetais nocivas encontradas no bioma amazônico. Livro. 1ª ed. publicada em colaboração com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA, Manaus, Amazônia,1979.
7. UNIVERSIDADE FEDERAL DO MATO GROSSO. UFMT. – Arquivo digital Tokarnia. https://www.ufmt.br/unidade/hovet/pagina/acervo-digital-arquivos-de-tokarnia. Cuiabá-MT.
8. UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO ESTADO RIO DE JANEIRO- UFRRJ. SETOR DE ANATOMIA PATOLÓGICA-SAP. Relatórios Sanitários Epidemiológicos. Seropédica-RJ.
9. UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO UFRRJ. Professor emérito de patologia animal durante o período de (1978 -1915). Seropédica-RJ.
