Por Edino Camoleze

Paulo Dacorso Filho
– Um veterinário eclético & poliglota –
1. BIOGRAFIA.
Nasceu o notável médico veterinário gaúcho no dia 14 de abril de 1914, na pequena cidade agrícola de Tupanciretã – Terra da Mãe de Deus -, serra dos pampas gaúcho, distante cerca de 350 km da capital Porto Alegre, embora muitos documentos registrem a cidade de Santa Maria, no estado Sul-rio-grandense.
Fez seus estudos iniciais, alfabetização e primário, no tradicional Colégio Marista Nossa Senhora do Rosário de Porto Alegre (1921) e o ginásio no Colégio São Bento,(1924-1929) no Rio de Janeiro. Graduou-se em medicina veterinária, período (1931 -1934) na Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária da Praia Vermelha, sempre se destacando em primeiro lugar nos cursos que fez.
Em 1945, passou em primeiro lugar entre 500 candidatos para cursar Medicina na Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, e graduou-se (1952) também em primeiro lugar, nessa instituição.
( SAP, 2022 )
*Edino Camoleze – Cel Vet EB. MS em Tecnologia de Alimentos. Zoogeografia de Animais da América do Sul. Acadêmico Titular da ABRAMVET.Email:edino0644@gmail.com.
2. ATIVIDADES PROFISSIONAIS.
Sua longa, brilhante e exitosa carreira profissional, desde os bancos escolares de Porto Alegre (1921) até sua aposentadoria na Universidade Rural do Rio de Janeiro (1968), mostra um “ Curriculum Vitae “ invejável recheado de grandes conquistas e realizações profissionais, em favor do progresso e desenvolvimento do ensino veterinário no Brasil. Perfeccionista, em todas às fases de sua vida, seu legado técnico e científico precioso constitui uma obra inovadora de significativa relevância para a modernização científica da medicina veterinária brasileira.
3. SERVIÇO PÚBLICO.
Em 1934, no Rio de Janeiro, Praia Vermelha, após graduar-se em medicina veterinária pela ESAMV, habilitou-se através de concurso público para trabalhar no Ministério da Agricultura, Industria e Comércio-MAIC, como Inspetor de Alimentos de Produtos de Origem Animal, o que fez durante alguns anos com extrema dedicação, proficiência e brilhantismo. Durante o tempo em que trabalhou no Ministério realizou o Curso de Aperfeiçoamento e Especialização do Ministério da Agricultura e assim obteve o título de biologista e patologista. Seu trabalho no MAIC foi tão precioso e inovador que, por recomendação de seus superiores, foi transferido do Ministro da Agricultura, Portaria nº 806, de 03 de outubro de 1942, para o Instituto de Biologia Animal – IBA, Departamento Nacional de Produção Animal – DNPA, onde como patologista organizou a primeira coleção de peças anatômicas de patologia animal da Seção de Anatomia Patológica – SAP, do Instituto. No IBA, pelos excelentes e inéditos trabalhos realizados, chegou à Direção da Instituição, onde exerceu a função durante algum tempo.
4. PÓS-GRADUAÇÃO NOS EEUU.
Pelos excelentes trabalhos técnicos realizados no Ministério da Agricultura – Inspetor de Alimentos e no Instituto de Biologia Animal, patologista, como bolsista, fez mestrado na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, recebendo daquela consagrada instituição científica o título de Mestre em Patologia ( Master of Science ), em 1947.
5. UM PROFESSOR ECLÉTICO E POLIGLOTA.
Sempre e cada vez mais procurando o aperfeiçoamento profissional e científico, em 1945 passou em primeiro lugar, entre 500 candidatos, para cursar medicina humana na Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, onde graduou-se em 1952, em primeiro lugar. Especializado em patologia humana e animal chefiou o Serviço de Anatomia Patológica do Hospital General Manoel Vargas, no Rio de Janeiro. Usando de seus profundos conhecimentos em patológica humana e animal, pode avaliar melhor as cadeias epidemiológicas das principais doenças transmissíveis entre humanos e animais, zoonoses.
6. MAGISTÉRIO.
De todas às funções desempenhadas em sua vida profissional, sejam em atividades humanas ou veterinárias, o magistério foi que despertou maior atenção seja na cátedra ou na gestão acadêmica. Seu rico e extenso “Curriculum Vitae” registra as seguintes atividades na docência:
De 1938 a 1939 – Livre docência da disciplina de Doenças Infecciosas e Parasitárias e professor catedrático da disciplina de Anatomia Patológica e Técnica de Necropsias da Escola Fluminense de Medicina Veterinária (UFF). Na Escola Nacional de Veterinária (ENV) foi catedrático nas cadeiras de Patologia Geral e Semiologia, também catedrático de Anatomia Patológica e Técnica de Necropsias. Criou, e anexou a esta cadeira, a disciplina de Ornitopatologia. Todos os cargos e títulos foram obtidos por concurso de títulos e provas. Com a competência que lhe era peculiar, ministrou também as disciplinas de Microbiologia e Imunologia e Doenças Infecciosas e Parasitárias. Catedrático Interino de Patologia na Universidade de São Paulo.
Como gestor acadêmico, reitor nomeado para o período de (1965 -1968) na Escola Nacional de Veterinária-ENV, hoje UFRRJ, logo implantou o RETIDE – Regime de trabalho em tempo integral e dedicação exclusiva – para garantir a estabilidade salarial e qualidade do ensino. Criou a Escola de Pós-Graduação, o que permitiu o aprimoramento do corpo docente da Universidade. Incentivou a pesquisa, reorganizou a biblioteca da Universidade, com a assinatura de diversos periódicos e importou equipamentos para as áreas básicas dos cursos, como microscópios, lupas e microscópios mais sofisticados para pesquisa que ainda hoje são usados no ensino. Projetou o nome da Universidade ao nível internacional pois trouxe inúmeros especialistas estrangeiros, especialmente da Alemanha e dos Estados Unidos, para conferências e palestras. Firmou um Convênio com uma universidade da Alemanha para trocas de informações científicas e intercambio de interesse universitário. ( mfariasbrito@uol.com.br )
7. PERFIL DO PROFESSOR PAULO DACORSO FILHO.
Era um homem de forte personalidade, de caráter e de decisões firmes, exemplo de integridade e honradez. O Prof. Dacorso foi, indiscutivelmente, o professor que mais impressionou os alunos da sua época e que muito influenciou vidas acadêmicas na Medicina Veterinária, em virtude de seu carisma, conhecimento e entusiasmo pelo ensino. Amava a Universidade e era frequente, a esse tempo, vê-lo a cavalo pelo campus, a visitar as diferentes Unidades. Visitava o Hospital Veterinário, especialmente aos sábados e domingos e com sua característica, rapidez no andar, no falar e no raciocinar, informava-se sobre os animais internados e, quando necessário, ajudava na conclusão do diagnóstico. Não aceitava que animais mortos não fossem necropsiados, para confirmar ou mesmo concluir o diagnóstico; tinha grande senso de observação e descrevia criteriosamente as lesões. Dacorso era um homem determinado, com visão e prestígio nacional e internacional. Homem culto, poliglota, com amplos conhecimentos da Medicina Veterinária e da Medicina Humana, dominava a matéria profundamente, aliando o assunto principal que abordava com as matérias correlatas. Suas aulas eram magistrais, os assuntos tão abrangentes e tão didaticamente expostos que era impossível não se deixar levar pelo entusiasmo e pelo desejo de conhecer mais sua matéria. Durante as aulas de necropsia, sempre inquieto, circulava entre os alunos fazendo questão que fizessem as necropsias, enquanto explicava as lesões e a sua causa, fazendo o aluno raciocinar. “Gostava de comunicar-se por meio de cartas ou bilhetes”. ( mfariasbrito@uol.com.br )
8. LEGADO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO.
Aposentou-se em 1968, com produção acadêmica de 61 artigos científicos no Brasil e no exterior, todos de excelente nível, e colaborou em 15 outros do mesmo gabarito. Ocupou diversos cargos em respeitadas instituições, e de 1952 a 1962, foi chefe do Laboratório de Anatomia Patológica do Hospital-Escola São Francisco de Assis, da Universidade do Brasil. Foi membro da “American Academy for Advancement” e da Sociedade Brasileira de Patologistas (1970-1972), dentre outras. Participou de inúmeras Bancas Examinadoras em concursos e defesas de teses em diferentes Universidades. Foi orientador de teses e de bolsas de pesquisa, em diferentes níveis no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Foi Patologista do Hospital da Venerável Ordem Terceira da Penitência, Conselheiro do CNPq (1960 e 1974), que por sua proposição, criou o Comitê de Medicina Veterinária e Zootecnia, do qual foi Diretor em 1972. Deixou discípulos como: Prof. Carlos Tokarnia (UFRRJ), Dr. Jürgen Döbereiner (EMBRAPA), Prof. Jerome Langenegger (UFRRJ e EMBRAPA), Prof. Severo Salles de Barros (Universidade de Santa Maria, RS.), Prof. José Freire Faria (UFRRJ), Osvaldo Losano (Venezuela), Ana Margarida Langenegger de Rezende (UFRRJ e UFF) e muitos outros que se inspiraram em seus conhecimentos, em sua maneira de ensinar e em sua personalidade forte e determinada. ( mfariasbrito@uol.com.br )
9. PRÊMIOS E HOMENAGENS.
9.a) Prêmios.
– Prêmio Nisseikein . Prêmio Biologia do Japão. Criado em 1985, pelo imperador Hiroito, é um galardão que reconhece cientistas do mundo por suas contribuições científicas na área da Biologia;
– Prêmio Professor Paulo Dacorso Filho, Diploma e Medalha, criado no dia 6 de agosto de 1976, pelo CFMV em reunião plenária, com o objetivo de homenagear postumamente o Médico Veterinário Prof. Paulo Dacorso Filho;
– Medalha de Ouro do governo da Venezuela.
9.b) Homenagens.
– Logradouro Público. Praça Paulo Dacorso Filho – Bairro Marechal Hermes, – Rio de Janeiro, CEP 21331-760 Brasil;
– Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) Paulo Dacorso Filho, do Rio de Janeiro, criado em 1988, em sua homenagem;
– Centro de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente, Paulo Dacorso Filho criado em 1993, do Campus da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro;
– Patrimônio Arquivístico da Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, Rio Grande do Sul;
10. FALECIMENTO.
O professor Paulo Dacorso Filho faleceu em 04 de julho de 1975, no Rio de Janeiro.
BIBLIOGRAFIA.
BRITO, M. de Farias. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, SAP, Setor de Anatomia Patológica. Seropédica, Rio de Janeiro-RJ.
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA VETERINÁRIA-CFMV. Prêmio Paulo Dacorso Filho. Resolução nº 67, 14 de dez 2000. Brasília-DF.
SEÇÃO DE ANATOMIA PATOLÓGICA-SAP. “ Nossa História”. Instituto de Biologia Animal -IBA, Ministério da Agricultura ( 1940 – 1952). Bairro Maracanã, Rio de Janeiro-RJ.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PATOLOGIA. Prof. Dr. Paulo Dacorso Filho ( Período de 1970 – 1972 ). Admsbp. Rua Topázio, nº 980, Vila Mariana, São Paulo.
UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO. Museu de Anatomia Patológica Carlos Tokarnia. Setor de Anatomia Patológica-SAP, Professor Paulo Dacorso Filho, Curadoria, Bairro Ecologia, 2022.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA-UFSM. Patrimônio Arquivístico da UFSM. Departamento de Arquivo Geral – DAG. Registro Paulo Dacorso Filho. Santa Maria, RS.
