Por Edino Camoleze*

( DR. FULVIO JOSÉ ALICE )

– UM VETERINÁRIO VISIONÁRIO –

  1. BIOGRAFIA.

Paranaense e filho de país imigrantes italianos, genitor Ângelo Maria Alice e mãe Rosa Oliva Alice; Fulvio José Alice nasceu em Curitiba-PR, capital do Estado do Paraná, em 26 de abril de 1913. Era o segundo filho de uma família  de cinco irmãos. Fez o curso ginasial no Ginásio Paranaense, tradicional e histórico estabelecimento de ensino público do Estado, entre os anos de 1926 e 1932, sendo aprovado em todas as matérias e destacando-se entre seus pares por sua invulgar inteligência e capacidade intelectual. (GUILHERME, A.V. DA SILVA. 2016)

Possivelmente aconselhado por professores e amigos, após término dos estudos ginasianos, em Curitiba, mudou-se para o Rio de Janeiro onde após aprovação em exames físicos e intelectuais ingressou, em 1935, no Curso de Formação de Oficiais Veterinários – CFOV, da Escola de Veterinária do Exército.

*Edino Camoleze – Cel Vet EB. MS em Tecnologia de Alimentos. Zoogeografia de Animais da América do Sul.  Acadêmico Titular da ABRAMVET.Email:edino0644@gmail.com.

 

Na época, esse curso oferecido pela Escola de Veterinária do Exército-CFOV formatado e moldado nos ensinamentos da escola militar veterinária francesa, era um dos cursos de formação de veterinários mais ambicionados e cogitados pelos estudantes brasileiros das ciências agrárias.

Infelizmente, seu sonho de tornar-se  um oficial médico veterinário do Exército Brasileiro não teve um final feliz, pois quando cursava o último ano da Escola (1938) com a reorganização do sistema de ensino do Exército, por ato do Presidente da República, Eurico Gaspar Dutra, a Escola foi extinta e toda a sua turma transferida para a Escola Nacional de Veterinária-ENV da Praia Vermelha, onde colou grau no mesmo ano.

  1. ATIVIDADES PROFISSIONAIS.

2.1 Serviço Público.

De volta à Bahia, Salvador, em 1939, um ano após graduar-se em medicina veterinária, por ter sido aprovado em concurso público, foi trabalhar na Defesa Sanitária Animal da Secretaria Estadual de Agricultura, tornando-se o primeiro médico veterinário do estado oficialmente concursado.

Iniciando sua vida profissional como clínico e sanitarista, Fulvio, como médico oficial da Secretaria, tinha que realizar visitas técnicas nas fazendas, diagnosticar doenças, prestar assistência e atendimentos veterinários, além de ser o médico veterinário oficial das Exposições e Feiras agropecuárias em todo o Estado. Essa atividade diária na Secretaria durou um pouco mais de um ano, visto que foi comissionado pelo governo baiano para ir junto com outros técnicos agrícolas, agrônomos – expedição cientifica -, fazer capacitação e especialização em  Universidades dos Estados Unidos.

2.2 PÓS-GRADUAÇÃO NOS EEUU.

Nos Estados Unidos, Fulvio Alice estudou durante dois anos no Iowa State College, Estado de Iowa, onde recebeu o grau de “ Master of Science “, após concluir e defender brilhantemente a tese de mestrado intitulada: “ A propagação do vírus da coriomeningite linfocitária em camundongos”, publicada na conceituada revista científica americana “ American Journal of Veterinary Research. Vol. VI, nº 18, January,1945, pp 54-59, sob o título “A study of Lymphocytic Choriomeningitis Vírus”.

Durante sua permanência nos Estados Unidos especializou-se em virologia e estabeleceu rede de contatos com Universidades e Institutos, aprimorou seu conhecimento científico, travou novos conhecimentos com professores,

pesquisadores e instituições, como a Fundação Rockfeller que possibilitaram trocas de experiências e, posteriormente, obteve, por doação, financiamento de pesquisas e equipamentos para o Instituto Biológico da Bahia.(GUILHERME, A.V. DA SILVA. 2016)

O primeiro trabalho científico realizado por Fúlvio Alice foi realizado durante a realização do seu mestrado no Iowa State College, tendo como autor principal  seu orientador Prof. S.M.McNutt. O trabalho denominado: “Doença de Aujeszky (Pseudo Raiva) em suínos” foi publicado no Boletim da Sociedade Brasileira de Medicina Veterinária em 1942. Este trabalho foi considerado pioneiro no Brasil, sendo referenciado em várias publicações científicas, livros de virologia e trabalhos de pós-graduação.

Após concluir o mestrado e retornar ao Brasil, Fúlvio Alice casou-se em 11 de março de 1943 com a Professora Sonia Bahia Alice com quem teve dois filhos: Roberto Ângelo Bahia Alice e Rosina Bahia Alice (SANTOS, 2010).

  1. FUNDADOR DAS CIÊNCIAS AGRÁRIA E BIOLÓGICA NA BAHIA.

3.1 INSTITUTO BIOLÓGICO DA BAHIA-IBB.

Nasceu esse novel instituto Biológico da Bahia-IBB, por Decreto Estadual nº 637, de 13 de agosto de 1947, do governador progressista Otávio Mangabeira, inspirado no Instituto Biológico de São Paulo – IBSP (1927), o mais antigo do país, dentro de um programa de modernização do Estado, com objetivo de fornecer suporte técnico e científico às atividades agrícolas e agroindustrial estadual consideradas estagnadas. (DIAS, 2005; TAVARES, 2008).

Conforme o decreto que o institucionalizou, o IBB tinha como finalidade principal “assistência sanitária a agricultura” (linguagem da época). Tinha como objetivos:

  • Estudar e aprofundar conhecimentos sobre parasitologia, microbiologia, imunidade, anatomia patológica, micologia, botânica, virologia e química, com o intuito de aplicá-los no combate às pragas e doenças dos rebanhos e plantações;
  • Cooperar com as autoridades de saúde pública na elucidação de doenças transmissíveis dos animais aos homens ( zoonoses), realizando inquérito sobre brucelose e tuberculose bovina.

O IBB no auge da sua atuação, final da década de 50 e início da década de 60, possuía uma estrutura funcional composta de 20 agrônomos, 39 veterinários, 02 farmacêuticos, um biólogo, um bibliotecário, 29 técnicos rurais, 13 práticos rurais, 11 capatazes, 08 técnicos de laboratório e 48 serventes. Parte do quadro funcional residia no interior prestando assistência aos produtores e criadores.

Em relação aos produtos fabricados, o IBB no ano de 1963 tinha em sua linha de produção quinze produtos de grande utilidade e intensa procura por parte dos criadores da Bahia e dos estados do Nordeste e Norte do Brasil: vacina contra raiva de bovinos (vírus vivo), vacina contra raiva de caninos (vírus vivo), vacina contra o carbúnculo sintomático, vacina contra o carbúnculo hemático, vacina contra pneumoenterite dos bezerros, vacina contra a Doença de Newcastle (vírus vivo),vacina contra a Doença de Newcastle (vírus morto), vacina contra a encefalomielite das aves, vacina contra o epitelioma das aves, vacina contra a cólera aviária, vacina contra a linfadenite dos caprinos, vacina contra a febre aftosa, vacina porcina polivalente, gluconato de cálcio a 5%, Urotropina a30%.

Nas memórias da sua família, o “Instituto Biológico era a ‘casa’ de Fúlvio Alice”. Nele dedicava grande parte de seu tempo às pesquisas e às descobertas, trabalhando em regime integral. Lá podia ser encontrado, sempre em frente ao microscópio nos estudos de diagnósticos, desenvolvimento de vacinas, soros e soluções para as doenças que acometiam as produções agrícolas e pecuárias na Bahia” (SANTOS, 2010)

O instituto que Fulvio Alice idealizou e fundou teve uma vida efêmera de 44 anos, sendo criado em 1947 e encerrado suas atividades técnicas e científicas em 1991, quando foi criado o Departamento de Defesa Agropecuária da Bahia.

3.2 ESCOLA DE VETERINÁRIA DA BAHIA.

Criada pela Lei nº 423 de 20 de  outubro de 1951, da Assembleia Legislativa Estadual e sancionada pelo governador Luiz Régis Pacheco Pereira, subordinada à Secretaria de Indústria e Comércio, após várias tentativas anteriores, durante a década de 1940, esse sucesso alcançado de criar o ensino superior de veterinária na Bahia, deveu-se sobretudo ao prestígio nacional e internacional do Dr. Fulvio Alice, angariado junto às autoridades governamentais e Fundação Rockefeller, prestígio  alcançado quando construiu e dirigiu o Instituto Biológico. ( TORRES, 2004)

A Exposição de Motivos feita pelo Dr. Fulvio Alice e enviada ao governador para justificar a criação da Escola incluía, entre outras necessidades: A falta de profissionais veterinários no estado. A grande mortalidade de animais nas fazendas devido à precária assistência técnica veterinária existente, causando vários prejuízos à economia do estado. A ausência de um serviço de inspeção de produtos de origem animal além de trazer grandes prejuízos sanitários à população, a economia estadual, não fomentava a implantação de indústrias de carnes, leite e derivados (linguagem da época).

A inauguração oficial da Escola de Veterinária ocorreu no dia 29 de maio de 1952. O Curso de graduação de médicos veterinários foi autorizado a funcionar pelo Decreto Federal nº 90.914 de 28 de maio de 1952, sendo que a aula inaugural ocorreu em 20 de junho de 1952. A primeira turma composta por vinte médicos veterinários graduou-se em 19 de dezembro de 1955, tendo como paraninfo o Dr.Prof. Renato Rodemburg de Medeiros Neto. (TORRES, 2004).

Fatores condicionantes que contribuíram para a introdução do ensino superior de medicina veterinária na Bahia e a construção da Escola de Veterinária no estado pretendidos por Fulvio Alice: precárias condições sanitárias do rebanho estadual; falta de médicos veterinários suficientes para assistência à saúde animal; falta de inspetores de alimentos de origem animal na origem e indústria de alimentos e vontade do governador Otávio Mangabeira investir em ciência e tecnologia, como parte de um programa de modernização da Bahia, tendo como intuito principal tirar o estado da estagnação econômica. (DIAS, 2005; TAVARES, 2008).

3.3 SANITARISMO E SAÚDE PÚBLICA.

Considerado um dos mais brilhantes bacteriologistas ( virologista), brasileiro da metade do Séc. XX, seus trabalhos científicos realizados no Instituto Biológico da Bahia – IBB ( animais e aves ) e no Instituto de Saúde Pública da Fundação Gonçalo Moniz-FGM em doenças humanas, tiveram reconhecimentos nacional e internacional. Feitos científicos históricos alcançados por Fulvio Alice nesse Instituto foram: o isolamento dos vírus e produção de vacinas das “Gripe Coreana” (1951) e “Asiática” (1957). Numa época em que a virologia estava ainda em desenvolvimento no país, esses magistrais feitos alcançados elevaram o Instituto baiano nos patamares dos Institutos Butantã-SP e FioCruz-RJ.

A relevância do isolamento e identificação viral gripal por Fulvio Alice na Bahia estava na mudança da tecnologia usada. Nas pesquisas efetuadas, ele usava o cultivo viral em ovos de “galinha embrionados” , em vez de tecido animal, o que resultava num isolamento e identificação melhor.(AGUIAR et al.,1951).

Por essa técnica, ele pode afirmar: “ O vírus A Singapura, que produz a gripe asiática, não difere do padrão clássico das amostras do vírus A, ou seja, da chamada gripe “coreana” que por aqui andou em 1951. ” (JORNAL A TARDE, 1957).

Após a destacada atuação de Fúlvio Alice nos episódios de combate às gripes asiáticas e coreana, Fúlvio Alice recebeu a mais alta Comenda do Ministério da Saúde e foi convidado a trabalhar no Gabinete do Ministro da Saúde para integrar a Comissão Nacional de Combate à Gripe Asiática e coordenou o Plano Nacional de Combate à Poliomielite.

CONTRIBUIÇÃO À ZOOTECNIA.

Especializado em virologia veterinária integrou, em agosto de 1968, uma missão científica internacional formada por pecuaristas e pesquisadores  criada pelo governo baiano para ir à  Asia ( Índia e Paquistão ) com objetivo de conhecer às condições de produção do rebanho de zebuínos e bubalinos, bem como às condições sanitárias dos países visitados.

Na Índia e no Paquistão os locais preferencialmente visitados foram:

  • Fazendas produtoras de leite. ( Milk Colonies ). Foram visitadas duas unidades produtivas: uma na Índia (Bombaim – 15.000 búfalas na época) e outra no Paquistão;
  • 15 fazendas de reprodução de búfalos e gado zebuíno;
  • Duas estações experimentais de búfalas e gado zebuíno, Livestock Experiment Station Chintalaladevi (Índia) e Livestock Experiment Station Malir – Karachi (Paquistão);
  • Dois institutos de pesquisas veterinárias e zootécnicas: Indian Veterinary Research Institute (cidade de Izatnagar, 270 km de Nova Delhi) e oNational Dairy Research Institute (cidade de Karnal, 120 Km de Nova Delhi);
  • Três institutos de pesquisas agrícolas: Indian Council of Agriculture Research (Nova Delhi); Indian Agricultural Research Institute – Instituto de Pusa

(Arredores de Nova Delhi); Institute of Agriculture Anand Charodi (Estado de Gujarat)

  • Três visitas a universidades rurais, faculdades de agronomia e veterinária, com a finalidade de conhecer cursos de graduação, pós-graduação e intercambiar experiências, como relatadas no documento de viagem;
  • Centros de inseminação artificial: tanto na Índia quanto no Paquistão.

A visita a essas instituições de ensino, produção animal, melhoramento genético e laticínios, surpreendeu positivamente a Comitiva brasileira, conforme declaração de alguns de seus membros: “ A Índia já não é o país da cobra encantada que só existe para turistas. O país apresenta uma industrialização em progresso, infinitos campos de cultura e se não fora a sua explosão demográfica, seria uma nação com outro status de vida “.(ALICE; MENEZES; SAMPAIO;1968, p. 97).

Quanto as questões sanitárias, que interessavam especialmente a Fulvio Alice, médico veterinário integrante da comitiva, a Índia possuía um eficiente Programa de Defesa Sanitária, Centros de Diagnóstico, Controle de Doenças e Assistência Veterinária avançados e modernizados.

As tipificações dos vírus da febre aftosa e da peste bovina, a modificação das técnicas de isolamento do vírus com utilização de culturas de tecidos e células de embriões de ovos e a propagação do vírus e sua modificação para a produção de vírus vivo atenuado, eram as técnicas avançadas utilizadas na fabricação das vacinas, visando a imunidade de bovinos, as quais mereceram, direta e indiretamente, referências dos pesquisadores integrantes da Comitiva.

O principal objetivo da missão foi obter evidências científicas e técnicas que permitissem refutar questões de ordem zootécnica, econômica e sanitária, que proibiam no Brasil a importação de gado zebuíno e bubalino, procedente da Índia e do Paquistão. (ALICE; MENEZES; SAMPAIO, 1968, p.96).

  1. FALECIMENTO.

O falecimento do cientista e professor Fulvio José Alice ocorreu em fevereiro de 1980, na cidade de Salvador-BA de falência respiratória. Deixou para a Veterinária Brasileira um precioso legado por seus estudos pioneiros na área da virologia  animal, além de fundador do Instituto de Biologia da Bahia e da Escola de Medicina Veterinária.

  1. PRÊMIOS E HOMENAGENS.
  2. a) Prêmios.

– Professor Emérito“ Post Mortem”, título  concedido pela Universidade Federal  da Bahia- UFBA, pelos relevantes Serviços prestados à Medicina Veterinária baiana e brasileira.

– Prêmio Fulvio Alice. Criado pelo CRMV-BA para homenagear os veterinários e estudantes que se distinguem entre seus pares nos trabalhos que executam.

  1. b) Homenagens.

– Denominação de Logradouro. Prefeitura de Curitiba. Rua Fúlvio José Alice  localizada no bairro Alto, na cidade de Curitiba, (CEP) 82820-450  – PR;

– Centro Acadêmico Fulvio Alice – CAFA. Denominação aprovada pela Universidade da Bahia, representativa dos veterinários para homenagear o cientista Fulvio Alice;

–  Patrono da Cadeira nº 16 da Academia Brasileira de Medicina Veterinária – ABRAMVET;

–  Patrono da Cadeira nº 04 da Academia Baiana de Medicina Veterinária – ABAVET.

  1. BIBLIOGRAFIA.

AGUIAR, V.; PARAGUASSÚ, L. Revolução nos meios científicos: separado na Bahia o vírus da gripe. Jornal Diário da Bahia, Salvador (Ba.), 6 de dezembro de 1951.

ALICE, F. J. MENEZES, O. B.; SAMPAIO, J.M. C. Animais e Trópicos. Rio de Janeiro: Ed. Gráfica Barbero, 1968.

ISOLADO o vírus “Singapura”. Jornal Estado da Bahia, Salvador (Ba.),13 out. 1957.

SANTOS, R. B. A. C. Quem foi Fúlvio Alice? Resultado da entrevista com informante qualificado, 2010. Entrevista concedida ao doutorando Guilherme Augusto Vieira da Silva.

SILVA, Guilherme Augusto Vieira da. O pioneirismo de Fúlvio Alice nas pesquisas veterinárias e sua influência na institucionalização do ensino da medicina veterinária na Bahia\ Guilherme Augusto Vieira da Silva. 2016. 133f. : il.

TAVARES, L.H.D. História da Bahia. 11 ed. rev e ampl. São Paulo: Ed. UNESP; Salvador: EDUFBA,2008.

TORRES, G.C.V.; LEAL, A.J. Instituto biológico da Bahia, primeira referência da Medicina Veterinária da Bahia. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE MEDICINA VETERINÁRIA, 30., 2003, Manaus. Anais… Manaus, 2003. 1 CD ROM.

TORRES, G. C. V. A história da escola de medicina veterinária da universidade federal da Bahia. Brasília: Conselho Federal de Medicina Veterinária, 2004.