Autores: Ana Luísa Millan e Giovanna Ferreira de Souza Braune Aor — Discentes da Liga de Bovinos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

Supervisionado por Prof. Clayton B. Gitti — Docente do Curso de Medicina Veterinária da UFRRJ

1. Introdução

A bovinocultura brasileira ocupa posição de destaque mundial e depende diretamente da eficiência nutricional dos rebanhos para manter elevados índices produtivos. Durante os períodos de seca, especialmente nos sistemas extensivos de produção, as pastagens apresentam redução no teor de proteína e menor digestibilidade, comprometendo o desempenho dos animais.

Nesse cenário, a ureia pecuária tornou-se um suplemento amplamente utilizado na criação de gado para reduzir os custos com alimentação, servindo como uma fonte econômica de nitrogênio não proteico (NNP). Ela consegue favorecer a atividade da microbiota ruminal e aumentar o aproveitamento de forragens de baixa qualidade. Entretanto, quando utilizada de maneira incorreta, pode provocar um quadro de intoxicação aguda de elevada letalidade, ocasionando perdas econômicas significativas. Por isso, conhecer como a intoxicação ocorre, seus principais sinais clínicos e as medidas preventivas é fundamental para reduzir os riscos na propriedade.

2. O que é e por que ela é utilizada?

Ao contrário do que muitos produtores imaginam, a ureia não é uma proteína. Trata-se de uma fonte de nitrogênio não proteico utilizada na alimentação de ruminantes para fornecer nitrogênio às bactérias presentes no rúmen.

Esses microrganismos utilizam esse nitrogênio juntamente com carboidratos provenientes da dieta para produzir proteína microbiana, que posteriormente será digerida pelo animal e servirá como importante fonte de aminoácidos. Dessa forma, a suplementação com ureia melhora o aproveitamento das forragens de baixa qualidade, aumenta a digestibilidade dos alimentos fibrosos e contribui para reduzir os custos de alimentação quando comparada às fontes tradicionais de proteína, como o farelo de soja.

Sua utilização é comum em misturas minerais, proteinados de baixo consumo, suplementos concentrados, cana-de-açúcar tratada e silagens. No entanto, para que seus benefícios sejam alcançados com segurança, é indispensável respeitar as recomendações de uso e realizar a adaptação gradual dos animais.

3. Como ocorre a intoxicação?

Após a ingestão, a ureia é rapidamente degradada no rúmen pela enzima urease, produzindo amônia (NH₃) e amônio (NH₄⁺). Quando ocorre consumo excessivo de ureia ou quando o animal não está adaptado, a quantidade de amônia produzida ultrapassa a capacidade de utilização pela microbiota ruminal e de eliminação da amônia pelo fígado. Consequentemente, há aumento da concentração de amônia na circulação sanguínea. A amônia atravessa facilmente a barreira hematoencefálica e interfere no metabolismo energético das células nervosas, comprometendo a condução dos impulsos nervosos e provocando alterações neurológicas características da intoxicação. Além disso, o aumento do pH ruminal favorece a absorção da amônia, agravando rapidamente o quadro do animal.

4. Principais causas da intoxicação

Na maioria das propriedades, a intoxicação por ureia está diretamente relacionada a falhas de manejo e poderia ser evitada. As principais situações de risco incluem o fornecimento de ureia para animais que nunca receberam esse suplemento, ausência do período de adaptação, excesso de ureia na formulação da dieta e mistura inadequada dos ingredientes. Isso permite que alguns animais consumam grandes quantidades do produto, além do fornecimento para animais submetidos a jejum prolongado.

Também são frequentes os casos decorrentes do acesso acidental à ureia utilizada como fertilizante, armazenamento inadequado do produto ou troca equivocada entre dietas formuladas para diferentes categorias de animais. Bezerros muito jovens também apresentam maior susceptibilidade, pois o rúmen ainda não possui desenvolvimento suficiente para aproveitar corretamente esse tipo de suplemento.

5. Sinais clínicos

Os sinais clínicos aparecem geralmente entre 20 e 60 minutos após a ingestão excessiva da ureia, tornando essa intoxicação uma das emergências mais importantes na clínica de ruminantes.

Inicialmente, os animais apresentam inquietação, desconforto, hipersensibilidade, salivação intensa e respiração acelerada. Com a evolução do quadro, podem surgir tremores musculares, timpanismo, vocalização, micção e defecação frequentes, perda da coordenação motora e dificuldade para permanecer em estação.

Nos casos mais graves, observa-se tetania (rigidez dos membros), espasmos musculares, convulsões, decúbito lateral (animal deitado), colapso respiratório e morte súbita. A rápida evolução dos sinais clínicos reforça a necessidade de identificação precoce do problema e atendimento imediato.

Figura 1. A: Paciente em decúbito lateral, com ataxia e mioclonia. B: Animal apresentando sintomatologia nervosa, vocalização e opistótono. Imagem gerada por IA

6. Diagnóstico 

O diagnóstico se baseia principalmente no histórico alimentar associado aos sinais clínicos apresentados pelo animal. Informações como mudanças recentes na dieta, fornecimento inadequado de suplementos ou acesso acidental à ureia costumam direcionar rapidamente a suspeita clínica.

A confirmação pode ser obtida por meio da avaliação do conteúdo ruminal, que normalmente apresenta pH elevado, frequentemente acima de 8. Além da determinação da concentração de amônia no rúmen ou no sangue, quando esses exames estão disponíveis.

Como a evolução costuma ser bastante rápida, o reconhecimento precoce dos sinais clínicos é um dos fatores que mais influenciam o sucesso do tratamento.

7. Tratamento 

A intoxicação por ureia é considerada uma emergência clínica e exige atendimento imediato. Ao identificar um animal com suspeita de intoxicação, o produtor deve acionar o médico-veterinário o mais rápido possível, pois a evolução do quadro costuma ser rápida e o atraso no tratamento reduz as chances de sobrevivência.

O tratamento tem como principal objetivo reduzir o pH do rúmen, diminuindo a absorção de amônia. Entre as medidas utilizadas pelo médico-veterinário está a administração de vinagre (ácido acético a 5%) por via oral, além da oferta de água fria no rúmen em alguns casos, visando reduzir a atividade da urease e retardar a produção de amônia.

Também são fundamentais as medidas de suporte, como fluidoterapia e correção dos distúrbios metabólicos, que variam conforme a gravidade do quadro e as condições clínicas do animal. Mesmo quando o tratamento é instituído rapidamente, o prognóstico pode ser reservado nos casos em que já há sinais neurológicos intensos.

8. Prevenção

Como ocorre na maioria das enfermidades, a prevenção é a melhor estratégia para evitar perdas econômicas e preservar a saúde do rebanho.

A adaptação gradual dos animais à ureia é indispensável sempre que esse suplemento for introduzido na dieta ou após períodos de interrupção do seu fornecimento. Também é importante respeitar os níveis recomendados de inclusão, realizar a mistura homogênea do produto aos alimentos e garantir a oferta suficiente de fontes energéticas para favorecer a utilização da amônia pelas bactérias ruminais.

O armazenamento da ureia deve ser realizado em locais protegidos, secos e inacessíveis aos animais, evitando o consumo acidental. Além disso, recomenda-se não fornecer suplementos contendo ureia para animais submetidos a longos períodos de jejum e manter atenção durante o preparo e a distribuição das dietas para evitar erros de formulação ou troca entre lotes.

Além dos cuidados com a alimentação, é fundamental que todas as pessoas responsáveis pelo manejo do rebanho recebam treinamento sobre o uso correto da ureia. Mudanças de tratadores, falhas na comunicação entre funcionários, preparo inadequado das dietas e ausência de protocolos padronizados podem favorecer erros que colocam os animais em risco. Por isso, recomenda-se que o fornecimento de suplementos contendo ureia siga rotinas bem definidas, com supervisão periódica da equipe.

A orientação e acompanhamento de um médico-veterinário ou zootecnista são indispensáveis para definir a quantidade adequada de ureia na dieta e garantir um programa de suplementação seguro para cada categoria animal.

9. Considerações finais

A ureia é uma importante ferramenta nutricional na bovinocultura, contribuindo para o melhor aproveitamento das forragens e para a redução dos custos de alimentação. No entanto, seu uso exige manejo adequado, pois a maioria dos casos de intoxicação está relacionada a falhas que poderiam ser evitadas.

A adoção de boas práticas de manejo, o treinamento da equipe responsável pela alimentação, a adaptação gradual dos animais e o acompanhamento de um médico-veterinário são fundamentais para prevenir perdas, preservar a saúde do rebanho e garantir maior eficiência produtiva.

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Fotos: IA