Introdução

A bovinocultura de leite e de corte no Brasil possuem um mercado satisfatório de comercialização, porém algumas questões ainda pouco exploradas fazem com que essas práticas tenham resultados inferiores à expectativa de produção. Uma delas é a lucratividade redonda dentro de parâmetros reprodutivos ideais (Dubon et al., 2021). Falando tanto em corte como em leite, o princípio básico para a sustentabilidade de um sistema é que as vacas produzam um bezerro ao ano, para isso a idade da puberdade, a primeira concepção, o número de coberturas para concepção e a condição física nutricional do rebanho vão ser fundamentais para alcançar essa meta. Portanto, os controles reprodutivos de uma propriedade devem estar atualizados, sempre sendo melhorados com correção de manejo e é fundamental que esse controle seja previamente conhecido pela gestão de uma propriedade rural (Araújo et al, 2012). O objetivo deste trabalho é levantar os principais índices a serem observados, como inseri-los no sistema, de que forma eles contribuem na tomada de decisão produtiva, e mostrar suas importâncias dentro da produção bovina, para contribuir no desenvolvimento da pecuária brasileira.

Índices 

Idade ao primeiro parto (IPP)

O primeiro parto de uma novilha será o marco inicial do retorno dos investimentos feitos nela até mesmo na gestação da sua mãe. É o momento em que ela retorna economicamente para o sistema, seja produzindo leite ou um bezerro, e portanto, esse momento deve ocorrer o mais cedo possível. Um sistema eficiente tem seu índice de Idade ao primeiro parto girando em torno dos 24 meses de idade dos animais (Dubon et al., 2021).

Estudos mostram que quanto mais cedo a vaca entrar na sua vida reprodutiva, maior número de gestações ela terá e isso refletirá no aumento do valor acumulado de leite e aumento no número de bezerros entrando no plantel ou sendo vendidos (Baruselli et al. 2007).

Idade ao primeiro cio (IdPC) 

A idade ao primeiro cio é um índice para ser analisado junto com idade ao primeiro parto, porque ambos serão relativos à precocidade reprodutiva do animal jovem. Quanto mais cedo ocorrer a puberdade, que é a primeira ovulação fértil, mais jovem o animal irá parir. Isso reflete diretamente na viabilidade econômica da produção, uma vez que animais jovens estarão entrando como reposição no rebanho, incrementando a produção de leite ou substituindo matrizes mais velhas no corte, além de adicionar mais um bezerro para a fase de cria. A precocidade do animal varia de raça, nutrição e manejo (Bergamaschi et al., 2010).

Intervalo de partos (IP) ou intervalo entre partos (IEP)

Este índice é a baliza do sistema de produção, onde o esperado é que o intervalo entre um parto e o próximo seja idealmente de 12 meses. Como citado anteriormente, no Brasil essa média tem um valor maior, sendo o Intervalo entre partos o reflexo do desempenho reprodutivo do rebanho (Oliveira et al., 2006).

Uma forma de calcular esse índice:

Ilustrando a interferência do intervalo de partos nos valores de 12, 15, 18 e 24 meses, nos demais índices zootécnicos, e o impacto desse aumento nas perdas de leite e da produção de bezerros:

Diferentes intervalos de parto e o impacto desse índice nos demais índices zootécnicos. Fonte: Bergamaschi et al. 2010

 

As perdas que podem ocorrer em intervalos de parto maiores de 12 meses. Fonte: Bergamaschi et al. 2010

Intervalos entre 1° e 2° parto em dias (IEP1) 

Esse índice se refere à quantidade de dias decorridos entre o primeiro e o segundo parto, configurando um importante índice zootécnico na fase de cria na bovinocultura de corte, e crucial no planejamento da bovinocultura de leite.

Perotto et. al. (2006) verificou a relação do intervalo de parto entre o primeiro e o segundo parto (IEP1) com diversos parâmetros e apresentou a média de dias entre o IEP1 na raça Nelore sendo de 492 ± 22 dias, e nos cruzamentos de Guzerá x Nelore de 505 ± 23 dias, Red Angus x Nelore de 434 ± 22 dias, Marchigiana x Nelore de 453 ± 27 dias e Simental x Nelore de 450 ± 24 dias.

Em vacas de leite, o intervalo entre parto influenciará no período seco, sendo indicado que aumente esse intervalo apenas em vacas de alta produção, onde esse período será compensado com a própria produção.

Taxa de serviço (TS)

 Essa taxa calcula o número de vacas inseminadas (servidas) em relação ao número de vacas que estão aptas à reprodução em um determinado período. Para esse índice, a observação de cio dos animais e a correção dos possíveis anestros, vão ser fundamentais na busca pela eficiência produtiva. Porém, em propriedades pequenas e médias, o cálculo mês a mês desse parâmetro pode comprometer os resultados, uma vez que o número total de animais na contabilidade é pequeno. Portanto, recomenda-se utilizar um período de tempo maior na avaliação (Bergamaschi et al., 2010).

Taxa de concepção (TC)

 Essa é uma taxa muito importante para avaliar a eficiência do método de reprodução escolhido (inseminação artificial com cio natural e inseminação artificial por tempo fixo), uma vez que ela mostra qual o número de animais prenhes em relação ao número total de inseminações realizadas. Por muitas vezes, esse número pode resultar insatisfatório quando muitos animais voltam a dar cio após serem cobertos e precisam ser inseminados mais de uma vez para poder emprenhar em determinado período. Esse valor ideal deve ficar acima de 50% (Radostits et al., 1994), e alguns fatores rotineiros podem implicar no comprometimento desse resultado, como a técnica de inseminação, a qualidade do sêmen, doenças reprodutivas e até mesmo a observação tardia do cio. Outros fatores ambientais também podem influenciar nessa taxa. É comum no verão, o estresse térmico causar perdas embrionárias, e por isso no frio as taxas de concepção são um pouco melhores (Bergamaschi et al., 2010).

Número de serviços por concepção (NSC)

Esse índice é obtido pela divisão do número de acasalamentos pelo número de animais que conceberam

Como esse índice está inversamente relacionado à taxa de concepção, as condições que interferem nesse parâmetro são semelhantes

Para esse índice os valores obtidos podem ser relacionados à fertilidade, onde o número de serviços <1,76 são de boa fertilidade, de 1,76 a 2 fertilidade adequada, de 2,01 a 2,30 problemas moderados e >2,30 problemas severos.

Taxa de prenhez (TP)

A taxa de prenhez é a relação do número de fêmeas diagnosticadas positivas após a inseminação ou monta natural sobre o número de fêmeas em reprodução. A nutrição e manejo inadequados, falhas na identificação do estro, falhas no protocolo de indução da ovulação, falhas na inseminação artificial, número insuficiente de touros, sêmen com características andrológicas inadequadas, estresse, patologias reprodutivas e fêmeas inférteis ou subférteis, são os principais fatores que prejudicam a taxa de prenhez .

De acordo com Santos (2021) o método reprodutivo implantado no sistema de cria pode influenciar na taxa de prenhez do rebanho. Rubin et al. (2015) em seu estudo, avaliou a monta natural, IATF com repasse de touro, IATF com ressincronização de 30 dias, repasse com touro e IATF com ressincronização de 22 dias e repasse com touro obtendo os melhores resultados na IATF com ressincronização, a 22 e 30 dias respectivamente, 83,7% e 81,5% de taxa de prenhez.

Taxa de natalidade é a relação entre o número de bezerros nascidos sobre as fêmeas aptas à reprodução. É usual ser calculado em função do número total de fêmeas do rebanho, porém, este método pode induzir a equívocos de interpretação, uma vez que nem todas as fêmeas do rebanho estão aptas à reprodução. Deve ser calculado de forma discriminada para as categorias primíparas, secundíparas e multíparas e uso de touros ou inseminação artificial. (Barbero, 2020).

A taxa de natalidade, assim como a taxa de prenhez, é influenciada pela nutrição e manejo inadequados, falhas na identificação do estro, falhas no protocolo de indução da ovulação, falhas na inseminação artificial, número insuficiente de touros, sêmen com características andrológicas inadequadas, estresse, patologias reprodutivas, fêmeas inférteis ou subférteis e perdas gestacionais também vão influenciar esse índice.

Período de serviço (PS) e período voluntário de espera (PEV)

O período de serviço é o intervalo entre o parto de uma vaca e a sua próxima concepção. Já o período entre o parto e o momento das vacas retornarem à reprodução é chamado de período voluntário de espera. Para que esses índices sejam ideais os seus valores devem estar entre 45 e 60 dias após o parto, onde o útero já sofreu involução da gestação e podemos aproveitar o cio fértil dos animais. Aos 25 dias após o parto, os animais já podem ovular, mas não estão fisiologicamente aptos a serem inseminados. Em propriedades com alta eficiência reprodutiva e que lancem mão das biotécnicas da reprodução, como a IATF, é comum o manejo reprodutivo das vacas começarem no 35º dia após o parto, sendo inseminadas ao 45º dia pontualmente. Porém, em propriedades menores e com menos ferramentas, esse índice fica por conta da observação correta do cio, que é bastante falha, e depende de uma série de fatores como a diferença entre as raças. As raças zebuínas apresentam uma duração menor de cio, sendo este ocorrendo geralmente a noite, dificultando a observação.

Um período de serviço alto pode ser causado não só pela falha na observação do cio, mas por problemas de saúde no rebanho, problemas de casco, falha nutricional causando anestro, estresse térmico, doenças uterinas, partos distócicos e prematuros, retenção de placenta e outros, mas a busca pela melhoria deve ocorrer no sentido de buscar diminuir esses fatores, e consequentemente a taxa de serviço, para que os animais voltem o mais cedo possível a ciclar e que estejam prenhes a fim de buscar a meta de 1(um) parto ao ano (Bergamaschi et al., 2010).

Época de parição (EP)

Esse índice é importante tanto para o planejamento da fazenda, onde irá se levar em conta a oferta de alimento à matriz e ao bezerro, quanto em relação ao desenvolvimento do bezerro.

De acordo com Barbero (2020) o correto planejamento irá proporcionar o nascimento em estação climática mais favorável aos bezerros. O menor desafio sanitário pode implicar em menor taxa de mortalidade e maior desempenho do nascimento até a desmama. Segundo Valle et al. (1998), no Brasil Central, a melhor época de nascimento coincide com o período seco, quando é baixa a incidência de doenças, como a pneumonia, e de parasitas, como carrapatos, bernes, moscas e vermes.

De forma geral, a época de parição tende a ser no final da estação seca ou transição para estação chuvosa. O nascimento nesse período irá coincidir com a disponibilidade de plantas forrageiras com melhor crescimento e valor nutritivo, assim possibilitando um melhor desenvolvimento (Barbero, 2020). As matrizes que têm sua parição no final da estação de parição sofrem as consequências de uma baixa oferta de volumoso pasto, e consequentemente não conseguem ofertar uma maior quantidade de leite ao bezerro, gerando um menor peso a desmama ao bezerro um pior ECC a matriz.

Escore de condição corporal (ECC)

O escore de condição corporal (ECC) afere o estado nutricional dos animais, a partir da avaliação visual e/ou tátil, sendo uma ferramenta fundamental no manejo. A condição corporal é mais eficiente que a avaliação do peso vivo das matrizes, pelo fato de levar em consideração o acúmulo de reservas corporais das quais a fêmea dispõe para mobilizar durante a fase de aleitamento (Oliveira et al., 2006).

Em vacas leiteiras o ecc varia de 1 a 5, onde o escore 1 representa a vaca extremamente magra, e escore 5 representa uma vaca extremamente obesa. Em vacas de corte essa variação ocorre entre 1 a 9, onde escore 1 representa a vaca debilitada e escore 9 representa uma vaca extremamente obesa (Dias, 1991).

Vacas com boas condições corporais ao parto retornam ao cio mais cedo e apresentam maiores índices de concepção. Portanto, o monitoramento da condição corporal indica a necessidade de ajustes nos níveis nutricionais, de modo que, ao parto, a condição corporal adequada seja atingida.

De acordo com Wiltbank (2006) para vacas leiteiras ao parto, o ecc ideal é de 3,25, podendo durante a lactação ter perdas de entre 0,5 e 1,0 ponto. Essa queda se deve à mobilização das gorduras para a produção de leite, no entanto, é válido salientar que durante o meio e principalmente fim da lactação, esse ecc volte a 3,25 ou no máximo 3,0 para que a vaca possa parir com o escore adequado novamente. Wiltabank (1994) define que condições de 5 a 7 (moderada a boa) em vacas de corte é o escore ideal ao parto.

Escore de Condição Corporal em gado de corte. Fonte: Dias (1991), citado por Oliveira et. al. (2006)

Escores de condição corporal. (Adaptado de A.J. Edmondson, I.J. Lean, C.O. Weaver, T. Farver and G. Webster. 1989. A body condition scoring chart for Holstein dairy cows . J. Dairy Sci. 72:68-78.) citado por Educapoint.

Conclusão

Os índices zootécnicos são ferramentas que auxiliam a tomada de decisão nas propriedades visando o desenvolvimento sustentável da criação.

Através do manejo reprodutivo, seja em criação de bovinos de leite ou bovinos de corte, independentemente do nível tecnológico e tamanho da propriedade, é recomendado que se busque os valores ideais dos índices, pois assim será possível maximizar a produção e consequentemente a obtenção de lucro. No entanto, os índices são ferramentas de análise que deverão ser alinhadas a práticas que podem envolver mudanças de protocolo de cobertura, manejo de pastagem, controle nutricional, peso das matrizes na concepção, atividade ovariana, idade das matrizes entre outros fatores que influenciam diretamente, ou indiretamente, na capacidade reprodutiva e gestacional dos animais. Tendo esses resultados e avaliações constantes, é garantido um melhor resultado de sua propriedade.

Bibliografia

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Gabriel Antonio Rodrigues Lopes: Graduação em Zootecnia, UFRRJ, Membro LiBovis
Isabelle Ferreira Macedo: Graduação em Medicina Veterinária, UFRRJ, Membro LiBovis
Clayton Bernardinelli Gitti: Orientador, Liga de Bovinos, UFRRJ, Membro Libovis
Foto de capa: Pixabay