Uma zoonose presente no cotidiano
A Campilobacteriose é uma doença zoonótica de grande importância para a saúde pública mundial, sendo considerada, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (2020), uma das quatro principais causas globais de doenças diarreicas em humanos. É causada por bactérias do gênero Campylobacter (como C. jejuni, C. coli, C. lari e C. fetus), bastonetes Gram-negativos de formato espiralado, com flagelos, o que favorece sua mobilidade e capacidade de infecção.
Os animais de produção são considerados os principais reservatórios desse agente, tornando essencial o controle sanitário ao longo da cadeia produtiva para a prevenção da doença. Em humanos, a infecção geralmente provoca quadros de gastroenterite, com sintomas como diarreia, febre, dor abdominal e mal-estar. Crianças menores de quatro anos, idosos acima de 75 anos e pessoas imunossuprimidas fazem parte dos grupos mais vulneráveis à infecção, embora esta possa ocorrer em todas as faixas etárias. A campilobacteriose pode ainda provocar complicações graves, como a síndrome de Guillain-Barré, condição neurológica rara que pode causar fraqueza muscular progressiva e evoluir para paralisia.
Como ocorre a transmissão
As espécies de Campylobacter colonizam o trato intestinal de aves, bovinos, suínos, ovinos, cães e gatos. O agente é eliminado pelas fezes dos animais, contaminando o ambiente e favorecendo a infecção pela via fecal-oral. A transmissão para humanos ocorre principalmente pelo consumo de alimentos mal cozidos, de leite cru e de água contaminada. Também pode ocorrer por contato direto com animais infectados ou por meio interpessoal, especialmente na ausência de medidas adequadas de higiene, como a correta lavagem das mãos. As bactérias do gênero Campylobacter são termotolerantes, com capacidade de crescimento em temperaturas superiores a 40 °C. Sua patogenicidade está relacionada a diferentes fatores de virulência, como a capacidade de invadir tecidos, aderir às células do hospedeiro, resistir ao estresse oxidativo e produzir toxinas. Esses mecanismos tornam a infecção mais agressiva e favorecem sua disseminação no organismo.
A contaminação do leite cru (não pasteurizado) representa um risco significativo à saúde, sendo considerada uma importante via de transmissão de Campylobacter, pois esse alimento constitui um meio favorável ao crescimento bacteriano. Essa contaminação pode ocorrer devido a falhas na higiene durante a ordenha, como o uso de água contaminada, o contato dos equipamentos com dejetos e a higiene inadequada das mãos do ordenhador.
No setor de produção de carnes, a contaminação das carcaças ocorre majoritariamente nas etapas de abate e evisceração, bem como pelo contato com superfícies e água contaminadas durante o processamento. Estima-se que o consumo de carne de aves, como frango, peru, pato e ganso, esteja associado a cerca de 50% a 70% dos casos de infecção em humanos.

Situação epidemiológica no Brasil
A campilobacteriose é distribuída mundialmente, e sua incidência pode ser de três a quatro vezes maior do que a observada para bactérias como Salmonella spp. e Escherichia coli. A epidemiologia da doença varia conforme o nível de desenvolvimento de cada região. Em países desenvolvidos, a incidência costuma apresentar padrão sazonal, com pico nos meses mais quentes, sem predileção por sexo, idade ou faixa etária. Já em países em desenvolvimento, determinar a incidência exata da campilobacteriose é um desafio, uma vez que a doença não é de notificação compulsória individual, exceto quando associada a surtos de Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA), contribuindo para sua subnotificação.
No Brasil, C. jejuni destaca-se como o principal agente etiológico, associado a quadros de gastroenterite aguda e crônica, principalmente em crianças. As aves são consideradas os principais reservatórios dessa espécie, desempenhando um papel importante na sua cadeia de transmissão. Observa-se maior incidência entre o verão e o início do outono, podendo apresentar padrão de distribuição bimodal, com ocorrência de surtos também nos períodos de primavera e outono.
Sintomas e possíveis complicações
A infecção por Campylobacter causa quadros de gastroenterite, acometendo os intestinos delgado e grosso. Os principais sintomas incluem dor abdominal aguda, diarreia (aquosa ou sanguinolenta), náuseas, dor de cabeça, dores musculares e febre. A diarreia costuma iniciar até 24 horas após o aparecimento dos sintomas e apresenta intensidade variável, dependendo de fatores relacionados ao hospedeiro e ao patógeno. O quadro clínico dura, em média, uma semana e é autolimitante. A eliminação da bactéria nas fezes pode persistir por várias semanas após a resolução dos sintomas.
Apesar de geralmente autolimitante, a infecção pode evoluir a óbito em grupos de risco, como crianças, idosos e indivíduos com comorbidades. Em neonatos, pode ocorrer diarreia sanguinolenta associada à febre persistente. Em pacientes imunocomprometidos, a infecção pode evoluir para complicações como colecistite, pancreatite, cistite, artrite reativa e síndrome de Guillain-Barré, que acomete o sistema nervoso periférico, levando à fraqueza muscular simétrica e ascendente.
Prevenir ainda é o melhor caminho
A prevenção da campilobacteriose baseia-se no controle ambiental e sanitário ao longo de toda a cadeia produtiva de alimentos de origem animal. O manejo sanitário adequado, associado à implementação de boas práticas de produção, processamento, transporte e armazenamento, contribui para evitar a contaminação do solo e da água, potenciais fontes de infecção, minimizando as chances de contaminação do produto final. Além disso, o trabalho de educação e conscientização dos consumidores é fundamental, com orientações sobre a aquisição de alimentos de procedência segura, a higienização adequada, o armazenamento e o preparo dos alimentos. Recomenda-se evitar o consumo de leite cru, não manter alimentos fora de refrigeração por longos períodos, não recongelar produtos já descongelados e cozinhar completamente as carnes, especialmente as de aves.
Referências
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