A prevenção da hipomagnesemia em bezerros apresenta grande importância do ponto de vista produtivo e econômico a longo prazo. Animais que passam por deficiência de magnésio na fase inicial da vida podem apresentar prejuízos no desenvolvimento corporal, menor ganho de peso e alterações no metabolismo, já que o magnésio está diretamente relacionado à atividade enzimática, ao metabolismo energético e à função neuromuscular.
A hipomagnesemia é um distúrbio metabólico complexo, também conhecido como tetania da lactação, tetania das pastagens, ou intoxicação por pastagens de cereais, sendo mais comum em ruminantes, especialmente bovinos em lactação. Sua etiologia é multifatorial, podendo estar relacionada a falta do elemento na dieta, ou pela interferência negativa de N, Na, K na absorção do magnésio, mesmo quando ingerido em quantidade adequada, e é caracterizada pela diminuição da concentração de magnésio no sangue e no líquido intracelular.
Nos ruminantes adultos, sua absorção ocorre principalmente no rúmen, através de um mecanismo de transporte ativo dependente da bomba Na⁺/K⁺-ATPase. Para que esse processo ocorra de forma eficiente, é essencial uma proporção adequada entre sódio e potássio. Já em bezerros jovens, como o rúmen ainda não está funcional, a absorção ocorre no intestino. Cerca de 70% do magnésio é armazenado no osso. O magnésio do osso pode ser mobilizado em momentos de deficiência, contudo sua reserva é pequena e sua mobilização é lenta, forçando os ruminantes a serem dependentes do magnésio adquirido pela alimentação.
Quando damos enfoque à tetania hipomagnesêmica em bezerros temos 3 principais grupos que são mais afetados: bezerros de 2 a 4 meses, bezerros que crescem rápido e vitelos. Mesmo o colostro sendo rico em magnésio, o leite é uma fonte inadequada do elemento, e conforme os bezerros vão crescendo sua eficiência de absorção de magnésio cai (87% entre 2 e 3 semanas, para 32% entre 7 e 8 semanas). Outros fatores predisponentes para a hipomagnesemia são a diarreia em bezerros mais jovens, já que ela reduz a absorção do mineral.

Outro aspecto relevante é que a deficiência de magnésio compromete a ação do paratormônio, podendo levar a quadros de hipocalcemia secundária, o que interfere negativamente no crescimento ósseo e no desenvolvimento geral do animal. Além disso, bezerros acometidos tendem a apresentar imunidade reduzida, tornando-se mais suscetíveis a enfermidades, o que aumenta custos com tratamentos e perdas no rebanho. Mesmo quando não ocorre morte, esses animais podem apresentar pior conversão alimentar, atraso no desenvolvimento e menor desempenho produtivo na vida adulta, como redução na produção leiteira ou no rendimento de carcaça.
Os sinais clínicos dessa doença são semelhantes aos de bovinos adultos, e incluem: hiperestesia ao toque, ataxia, opistótono, espasmos musculares, convulsões, tremores faciais, fasciculações, salivação excessiva, taquicardia, geralmente com temperatura normal inicialmente, e morte.
É de grande importância diferenciar a hipomagnesemia em bezerros de outras comorbidades, como: intoxicação por chumbo, tétano, polioencefalomalacia e enterotoxemia pela toxina de Clostridium.
Uma das formas de diagnosticar essa condição é pós morte (necropsia), onde temos como achados: calcificação do baço e diafragma, placas calcificadas na aorta e endocárdio e dosagem de magnésio nos ossos como teste confirmatório (o osso normal apresenta uma relação cálcio:magnésio de 70:1; em bezerros hipomagnesêmicos, essa relação pode ser ≥90:1).
Para evitar termos bezerros afetados há a necessidade de controle e cuidado na sua alimentação, começamos o protocolo no início da vida, com suplementação via oral de óxido de magnésio, nas primeiras 5 semanas de vida oferecemos 1 g/DIA/ANIMAL, da 5° até a 10° semana oferecemos 2 g/DIA/ANIMAL, e dá 10° a 15° semana a oferta é de 3 g/DIA/ANIMAL. O fornecimento de feno de leguminosas de boa qualidade e ração inicial a partir de 2 semanas de idade ajudam também nessa prevenção.
Dessa forma, a adoção de medidas preventivas adequadas garante não apenas a redução da mortalidade e dos custos imediatos, mas também melhora o desempenho zootécnico futuro dos animais, contribuindo para maior eficiência produtiva e rentabilidade do sistema de produção.
Referências:
DIRKSEN, G.; GRÜNDER, H. D.; STÖBER, M. Enfermidades dos Bovinos. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.
FARM HEALTH ONLINE. Magnesium deficiency (hypomagnesaemia). Disponível em: https://www.farmhealthonline.com/disease-management/cattle-diseases/magnesium-deficiency/. Acesso em: 19 mar. 2026.
MERCK VETERINARY MANUAL. Hypomagnesemic tetany in cattle and sheep. Disponível em: https://www.merckvetmanual.com/metabolic-disorders/disorders-of-magnesium-metabolism/hypomagnesemic-tetany-in-cattle-and-sheep#Prevention_v3282186. Acesso em: 18 mar. 2026.
