Por Claudio Sergio Pimentel Bastos, Médico Veterinário Sanitarista

 

A transformação digital e a expansão da internet redefiniram a circulação de notícias e o fluxo de informações científicas e corporativas. No entanto, o ecossistema de comunicação continua fortemente tensionado por interesses de mercado, que buscam legitimar narrativas e influenciar práticas profissionais.

Um reflexo claro dessa dinâmica é a proliferação de programas de formação continuada — fruto de parcerias entre mídia empresarial, corporações de saúde e conselhos profissionais. Embora essas iniciativas ampliem o acesso ao conhecimento, também suscitam questionamentos sobre independência científica, definição de prioridades e conflitos de interesse em áreas estratégicas da saúde.

No contexto brasileiro, essa discussão adquire relevância ainda maior. Como um dos países mais biodiversos do planeta, com forte protagonismo na produção agropecuária, extensa riqueza ambiental e elevada diversidade epidemiológica, o Brasil ocupa uma posição estratégica para a implementação do paradigma de “One Health” (Saúde Única). A integração entre saúde humana, saúde animal e saúde ambiental torna-se indispensável diante de desafios como zoonoses emergentes, resistência aos antimicrobianos, mudanças climáticas, degradação ambiental e segurança alimentar.

Entretanto, a consolidação dessa abordagem depende não apenas da produção científica e da capacitação profissional, mas também da capacidade de construir políticas públicas intersetoriais, fortalecer o SUS e os sistemas de vigilância, promover comunicação científica transparente e reduzir a influência desproporcional de interesses econômicos sobre a definição das agendas de pesquisa e formação. Nesse cenário, emerge uma questão central para a atuação integrada em saúde:

Qual é o verdadeiro lugar do Brasil na engrenagem mundial de “One Health” (Saúde Única)?

Trata-se apenas de um território estratégico para a produção de alimentos, recursos naturais e dados epidemiológicos, ou de um protagonista capaz de liderar a construção de modelos inovadores de governança, pesquisa e cooperação internacional em Saúde Única?

Essa ampliação desloca a pergunta final de uma perspectiva apenas crítica para uma reflexão estratégica: se o Brasil é apenas um ator inserido em cadeias globais de produção de conhecimento e commodities, ou se pode exercer liderança científica, institucional e diplomática na agenda de Saúde Única. Alguns aspectos que podem complementar a argumentação anterior:

  1. O Brasil ocupa uma posição singular por concentrar grande biodiversidade, extensas fronteiras agrícolas e ecossistemas como Amazônia, Cerrado e Pantanal, onde as interfaces entre saúde humana, animal e ambiental são particularmente intensas.
  2. A implementação de “One Health” depende não apenas da integração entre profissionais da saúde, medicina veterinária e ciências ambientais, mas também de políticas públicas, vigilância integrada, governança e comunicação científica independente.
  3. A influência de interesses econômicos sobre a produção e circulação de conhecimento pode afetar prioridades de pesquisa, educação continuada e tomada de decisão em temas relacionados à saúde pública, segurança alimentar e conservação ambiental.
  4. O Sistema Único de Saúde (SUS), articulado com os sistemas de vigilância em saúde, defesa agropecuária e gestão ambiental, oferece uma base institucional relevante para operacionalizar abordagens de Saúde Única, embora ainda existam desafios de integração entre setores.
  5. O Brasil é simultaneamente protagonista e vulnerável: suas decisões em relação ao uso da terra, mudanças climáticas, desmatamento, produção de alimentos e controle de zoonoses têm repercussões nacionais e globais.

a) O Brasil como Epicentro Biológico e a Vetorização de Riscos

  • Megabiodiversidade: O país abriga os biomas mais complexos do planeta (Amazônia, Pantanal, Cerrado, Mata Atlântica), tornando-se um laboratório natural de interface entre animais silvestres, animais de produção, populações humanas e ecossistemas degradados.
  • Vulnerabilidade Epidemiológica: A expansão de fronteiras agrícolas, o desmatamento e as mudanças climáticas colocam o Brasil na linha de frente para o surgimento de doenças emergentes e reemergentes, a exemplo de arboviroses (Dengue, Zika, Febre Amarela) e o risco constante de zoonoses de alto impacto (como a Influenza Aviária).
  • Agroindústria Global: Como um dos maiores exportadores mundiais de proteína animal, o Brasil está no centro das discussões globais sobre resistência aos antimicrobianos (AMR) e biosseguridade na cadeia produtiva.

b) A Tensão entre a Teoria Global e a Realidade Local: Embora o conceito de “One Health” seja amplamente difundido por organismos internacionais (OMS, OMSA, FAO), sua aplicação prática no Brasil esbarra em barreiras estruturais significativas:

  • Fragmentação Institucional: Historicamente, a medicina humana (SUS), a medicina veterinária e a vigilância ambiental operam em silos institucionais distintos, com orçamentos desconectados e raras políticas públicas de integração efetiva na ponta.

“Silos institucionais” é um conceito amplamente utilizado na administração pública, nas ciências organizacionais e na saúde coletiva. Ele descreve organizações ou setores que trabalham de forma fragmentada, com pouca comunicação, compartilha-mento de dados ou coordenação entre si. No contexto de “One Health”, o conceito é especialmente pertinente, pois um dos principais desafios é justamente superar a atuação isolada de diferentes setores. Por exemplo, no Brasil, é comum que atuem em paralelo: o SUS (saúde humana); os serviços de defesa agropecuária (saúde animal); os órgãos ambientais; as universidades; os centros de pesquisa; e os conselhos profissionais.

A consolidação de “One Health” pressupõe romper com a lógica dos silos institucionais, substituindo estruturas setoriais por mecanismos permanentes de cooperação, interoperabilidade de dados, planejamento interinstitucional e governança compartilhada.

  • Dependência de Diretrizes Externas: Muitas das agendas de “One Health” consumidas no Brasil — veiculadas por grandes corporações e chancelas midiáticas — são desenhadas a partir de realidades do Norte Global, ignorando as especificidades socioeconômicas do Sul Global (como desigualdade social, saneamento básico precário e economia informal).

c) O Papel da Mídia, Corporações e Conselhos na Construção da Agenda: A formação continuada oferecida por conselhos profissionais em parceria com a grande mídia e corporações de saúde frequentemente atuam como um mecanismo de direcionamento de prioridades:

  • Tecnocracia versus Determinação Social: Há um foco recorrente em soluções de mercado (tecnologias farmacêuticas, vacinas comerciais, agricultura de precisão) em detrimento de discussões estruturais sobre reforma agrária, preservação ambiental e saúde coletiva pública.
  • Comercialização do Conceito: O termo “One Health” corre o risco de ser esvaziado de seu potencial crítico, transformando-se em um rótulo marqueteiro (“greenwashing” sanitário) para legitimar produtos e serviços corporativos.

Um referencial integrador 

Para dar unidade, poderíamos adotar como fundamento central a Ecologia Política da Saúde. Essa perspectiva conecta processos ecológicos, sociais, econômicos e políticos para explicar como as condições de saúde são produzidas e distribuídas. Ela dialoga naturalmente com:

  1. Saúde Coletiva, ao enfatizar os determinantes sociais e a organização dos sistemas de saúde;
  2. One Health, ao integrar saúde humana, animal e ambiental;
  3. Saúde Planetária, ao incorporar os limites ecológicos e as mudanças globais;
  4. Economia Política da Comunicação, ao analisar quem produz, financia e legitima o conhecimento científico.

Esse arcabouço permite interpretar a Saúde Única não apenas como uma abordagem técnica para vigilância e controle de zoonoses, mas como um campo de governança, produção de conhecimento e formulação de políticas públicas. Pois essa integração tende a conferir uma maior densidade teórica e uma contribuição mais original do que uma revisão descritiva sobre “One Health” isoladamente.

Como sugestão conceitual, poderíamos ter um quinto conceito estruturante ao lado de One Health, Ecologia Política da Saúde e Economia Política do Conhecimento, que seria a Governança integrada (entendida como a capacidade de superar silos institucionais e construir mecanismos permanentes de coordenação entre saúde humana, saúde animal, meio ambiente, agricultura, ciência e tecnologia, educação e comunicação).

Esse conceito funcionaria como uma ponte entre a crítica à fragmentação institucional e a proposta de uma atuação intersetorial, tornando mais clara a transição entre o diagnóstico dos problemas e as possibilidades de implementação efetiva de “One Health” no Brasil. Ele também aproximaria o capítulo dos debates contemporâneos sobre políticas públicas, inovação institucional e governança em saúde.

Implicações práticas para a atuação profissional 

Para que médicos, médicos veterinários e sanitaristas não atuem apenas como receptores passivos das dinâmicas que moldam a agenda global de saúde, é fundamental desenvolver uma postura crítica, colaborativa e comprometida com as necessidades da sociedade brasileira. Nesse contexto, destacam-se alguns desafios estratégicos:

  • Superar os silos institucionais e disciplinares: A abordagem de Saúde Única exige a integração efetiva entre medicina humana, medicina veterinária, saúde coletiva, ciências ambientais e demais áreas afins. A complexidade dos problemas contemporâneos — como zoonoses, resistência aos antimicrobianos, mudanças climáticas e insegurança alimentar — demanda equipes multiprofissionais, compartilhamento de informações e processos decisórios intersetoriais.
  • Reafirmar o protagonismo da Medicina Veterinária em One Health: A atuação do médico-veterinário vai muito além da clínica animal. Envolve vigilância e controle de zoonoses, defesa sanitária animal, inspeção e segurança dos alimentos de origem animal, epidemiologia, saúde de animais silvestres, conservação da biodiversidade, bem-estar animal e monitoramento de riscos ambientais. Essas competências tornam a Medicina Veterinária um dos pilares estruturantes da Saúde Única e da prevenção de emergências sanitárias.
  • Desenvolver pensamento crítico sobre a produção e circulação do conhecimento: A formação continuada deve ser pautada por evidências científicas, transparência e independência acadêmica. É importante analisar criticamente a origem, o financiamento e os potenciais conflitos de interesse presentes em cursos, diretrizes, campanhas de atualização profissional e materiais de divulgação, especialmente quando promovidos por grandes corporações ou organizações com interesses econômicos específicos.
  • Fortalecer a governança intersetorial: A consolidação de One Health depende da articulação entre os sistemas de saúde humana, saúde animal, meio ambiente, agricultura, ciência e tecnologia, educação e comunicação. A superação da fragmentação institucional é condição essencial para respostas mais eficientes aos desafios sanitários contemporâneos.
  • Valorizar a soberania sanitária e científica do Brasil: A construção de estratégias nacionais de Saúde Única deve considerar a diversidade dos biomas brasileiros, as desigualdades sociais, a riqueza da biodiversidade e a capacidade técnico-científica instalada em instituições como o SUS, universidades, centros de pesquisa e serviços de defesa agropecuária. Mais do que reproduzir modelos internacionais, o desafio é desenvolver soluções adaptadas às realidades brasileiras, conciliando proteção da saúde, conservação ambiental, produção sustentável de alimentos e desenvolvimento social.

A atuação do profissional da Medicina Veterinária na era da Saúde Única (“One Health”) não pode se restringir à aplicação mecânica de protocolos globais ou ao isolamento da clínica individual, pois a interface entre saúde animal, humana e ambiental exige uma postura técnica ativa, orientada pela epidemiologia aplicada e pelo compromisso com a realidade sanitária local.

Para transformar a pauta global em prática profissional consciente, a reflexão técnica deve se desdobrar em três eixos centrais:

  1. Quebra de Isolamento e Integração Epidemiológica Real: O atendimento clínico na rotina veterinária — seja em animais de companhia, produção ou da fauna silvestre — é a primeira linha de vigilância epidemiológica de um país.
  • Na Prática: Micoses sistêmicas, zoonoses emergentes, vetores e padrões de resistência antimicrobiana não respeitam os limites da clínica veterinária.
  • Atitude Técnica: Superar o corporativismo significa interagir ativamente com a vigilância em saúde humana e ambiental do município, notificando agravos, compartilhando dados genômicos/epidemiológicos e entendendo o paciente animal como bioindicador de risco para a comunidade local.
  1. Rigor Científico e Autonomia Clínica frente ao Mercado: Muitas das diretrizes, campanhas de imunização e treinamentos técnicos vêm embalados sob o rótulo da “Saúde Única”, mas representam interesses estritamente comerciais da indústria farmacêutica internacional ou do agronegócio focado apenas na exportação.
  • Na Prática: Nem toda recomendação “global” se ajusta às dinâmicas ecológicas e socioeconômicas do Brasil.
  • Atitude Técnica: Cabe ao profissional exercer análise crítica sobre fontes de financiamento, conflitos de interesse e evidências científicas subjacentes a novas diretrizes. A prescrição, o manejo profilático e as condutas sanitárias devem ser balizados por dados epidemiológicos locais e pela medicina baseada em evidências, não por pressão de mercado.
  1. Construção de um Modelo de Saúde Única Territorializada: O Brasil abriga biomas únicos (Amazônia, Cerrado, Caatinga, Pantanal, Mata Atlântica e Pampa), além de disparidades socioeconômicas profundas que afetam a relação entre humanos, animais e meio ambiente.
  • Na Prática: Um modelo de Saúde Única desenhado no Norte Global focado em biossegurança industrial não atende integralmente às necessidades de comunidades ribeirinhas, da agricultura familiar ou das periferias urbanas brasileiras.
  • Atitude Técnica: O (A) médico (a) veterinário (a) precisa atuar focado na soberania sanitária nacional. Isso implica priorizar o impacto das zoonoses nas populações vulnerabilizadas e a conservação da biodiversidade nativa como barreira ecológica contra transbordamentos zoonóticos (“spillover” ).

 Conclusão

A Saúde Única não deve ser compreendida como um slogan institucional nem como um modelo internacional a ser reproduzido de forma acrítica. Trata-se de uma abordagem técnico-científica e de um paradigma de governança que pressupõem a integração entre saúde humana, saúde animal e saúde ambiental, considerando as especificidades ecológicas, sociais e epidemiológicas de cada território.

Nesse contexto, o (a) Médico (a) Veterinário (a) deixa de ser apenas um executor de protocolos para assumir um papel estratégico na vigilância em saúde, na prevenção e controle de zoonoses, na segurança dos alimentos, na conservação da biodiversidade e na promoção da sustentabilidade. Sua atuação, articulada com os demais profissionais da saúde e do meio ambiente, contribui para fortalecer a capacidade do Brasil de responder aos desafios sanitários contemporâneos e de consolidar uma agenda nacional de Saúde Única comprometida com a proteção da vida em todas as suas dimensões.

Referencias Bibliográficas

  1. Who coined the term “One Health”? Cooperation amid the siloization Author links open overlay panel Christina Pettan-Brewer, Gillian Penn, Alexander W. Biondo, Thomas Jaenisch, Kim Grützmacher, Laura H. Kahn

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2352771424000041

  1. Saúde Única – Biodiversidade e surgimento de novas doenças Maria Tereza Vargas Leal Mascarenhas https://revista.cfmv.gov.br/saude-unica-biodiversidade-e-surgimento-de-novas-doencas/
  2. Uma Só Saúde

https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/u/uma-so-saude

  1. One Health History

https://www.cdc.gov/one-health/about/one-health-history.html

  1. About One Health

https://www.cdc.gov/one-health/about/index.html

  1. About Zoonotic Diseases

https://www.cdc.gov/one-health/about/about-zoonotic-diseases.html

  1. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). “One Health Basics.”

https://www.cdc.gov/onehealth/basics/index.html

  1. Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). Una sola salud.

https://www.paho.org/es/una-sola-salud

  1. Uma sola Salud Food and Agriculture Organization

https://www.fao.org/one-health/es

 

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