Por Luiz Octavio Pires Leal – Membro Emérito da Academia Brasileira de Medicina Veterinária.
É a história de um grande homem, de um grande caráter, de uma grande generosidade. Um grande professor de Anatomia Patológica veterinária e humana. Seu nome: Paulo Dacorso Filho. Resumo seu alentado currículo numa frase: Professor Convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, como comprovei no convite oficial que me foi mostrado, entre outros documentos, pela D.Linda, sua viúva, ao me encarregar de escrever um resumo da sua biografia para uma revista internacional.
Um mestre com espírito superior
Onze da noite, Lula e eu estudando para a prova prática do Dacorso, no dia seguinte. Com sono, cansados e com aquele frio úmido da Universidade Rural, “decidimos” que cadáver de caprino não iria cair. Apagamos a luz do alojamento e fomos dormir.
Ai chegou o dia e a divisão dos alunos pelas diversas mesas com os cadáveres dos animais. “Dr. Luiz Horta Barbosa, Dr. Fulano e Dr. Sicrano, na mesa da cabra”. “Professor, peço que o senhor me examine com qualquer outro grupo, menos no da cabra”. “Lula, não posso abrir exceção, para não tumultuar o exame”.
Ele fincou uma faca no flanco da cabra, olhou no olho do Dacorso e murmurou (provavelmente um palavrão), pegou a Lambretta e foi embora.
Muito mal estar e um silêncio total na sala. O Dacorso não se alterou e continuou examinando. No final, me chamou a sua sala. “Você está com a sua Lambretta aqui?” Estou. “Então vá à procura do seu amigo e diga a ele que não tenho medo dele como homem, e que prevejo, pela sua inteligência, que ele terá um futuro profissional brilhante, e não permitirei que ele arrisque isso por um impulso que não soube controlar”
Convencer o orgulhoso Lula para voltar, foi uma luta, que valeu a pena. É claro que o deixei no gabinete do Dacorso e voltei para o alojamento.
A previsão de um verdadeiro Mestre estava certa
Passaram-se os anos, e o Lula “Comunista”, sem conseguir tratar de uma filha recém nascida, de uma doença ainda desconhecida aqui, levou-a, para o Hospital Infantil de Chicago, onde, depois de quinze dias, o casal recebeu o diagnóstico tranqüilizante: “Quando chegar a puberdade ela ficará curada, sem a necessidade de nenhum medicamento e de nenhuma dieta especial.”
Livre desse problema, o Lula conseguiu um estágio no Departamento de Virologia da Pfizer, no estado de Indiana, e tempos depois, por concurso, foi aceito como virologista, no NIH-National Institutes of Health, o maior centro de pesquisas médicas do mundo, com 18 mil cientistas.
No NIH, o meu colega e grande amigo, pela primeira vez no Planeta, isolou o vírus da panencefalite subaguda esclerosante, no feto de aborto preventivo.
Sucesso total! Prestígio crescente! Reconhecimento mundial!
Mas, para alcançar o ponto culminante da carreira era preciso ser cidadão americano. Num telefonema, rindo muito, ele falou: Lula, você pode imaginar eu cantando o hino e jurando a bandeira dos Estados Unidos?” Não, eu nunca poderia ter imaginado.
Meu companheiro do Leblon. de Lambretta, de turma, na Rural (1958) e de quarto, faleceu aos 92 anos de idade (janeiro de 2026), com um ano a mais do que eu.
Tive a oportunidade de visitá-lo no NIH e ter uma idéia de como aquilo funcionava, com total apoio aos cientistas.
Mas, o que o nosso professor Paulo Dacorso Filho tem a ver com o destino do Lula? Na minha opinião, tudo.
Um exemplo
Se você é um estudante de veterinária e tem um professor do nível do Dacorso, parabéns pelo privilégio.
Se você, já formado, foi aluno do Dacorso, parabéns.
Se você é professor num nível do Dacorso, está cumprindo no mais alto nível a sua nobre missão e deve orgulhar-se muito disso.
