1. O problema

O timpanismo, popularmente conhecido como empanzinamento, é uma afecção frequentemente observada em bovinos. Devido à sua rápida evolução clínica e ao potencial de causar perdas econômicas significativas, é considerado um dos distúrbios digestivos mais temidos pelos produtores. Ocorre com maior frequência em bovinos submetidos ao confinamento, nos quais são oferecidas dietas ricas em carboidratos altamente fermentáveis.

Os ruminantes possuem um estômago dividido em quatro compartimentos: rúmen, retículo, omaso e abomaso. Durante o processo de digestão, ocorre fermentação da matéria orgânica consumida pelos animais no rúmen e no retículo, o que resulta na produção de gases. Normalmente, esses gases são eliminados pela eructação. Porém, quando a produção de gases no rúmen supera sua capacidade de eliminação, ocorre acúmulo excessivo, principalmente nesse compartimento. Esse acúmulo provoca distensão abdominal, desconforto e dificuldade respiratória, podendo evoluir rapidamente para um quadro grave e levar o animal à morte. Por esse motivo, o timpanismo é considerado uma das principais causas de morte súbita na bovinocultura.

2. Formas de timpanismo

 O timpanismo se apresenta de duas formas nos bovinos: timpanismo primário, em que há mudança do conteúdo ruminal, aprisionando o gás em bolhas no interior do rúmen; e timpanismo secundário, em que ocorre obstrução do esôfago, impedindo a eructação.

2.1 TIMPANISMO PRIMÁRIO

O timpanismo primário ou espumoso geralmente ocorre quando os animais são submetidos a uma dieta em que a quantidade de grãos ingerida é superior a 50% do total consumido, o que provoca distúrbios no conteúdo ruminal. Com isso, ocorre a incorporação dos gases produzidos no processo de fermentação no líquido, formando uma espécie de espuma que os acumula e resultando em um quadro clínico de timpanismo. Esse quadro clínico de timpanismo espumoso, quando comparado ao timpanismo secundário, requer intervenção mais invasiva; em alguns casos, pode necessitar de rumenotomia, uma abertura no flanco esquerdo do animal para a retirada de todo o conteúdo espumoso.

2.2 TIMPANISMO SECUNDÁRIO

O timpanismo secundário ou gasoso ocorre quando há obstrução do esôfago ou da faringe por corpos estranhos ou compressão do esôfago por linfonodos aumentados, abscessos ou tumores. Essas alterações impedem a eructação dos gases produzidos no rúmen, resultando em seu acúmulo nesse rúmen e no retículo. Como consequência, o animal apresenta distensão abdominal, dor e dificuldade respiratória, podendo evoluir rapidamente para a morte se não houver intervenção adequada.

3. Sinais clínicos e diagnóstico

O diagnóstico é realizado com base nos dados da inspeção física e do exame clínico, do histórico e da anamnese, bem como em informações sobre a dieta e o manejo. Os sinais clínicos são frequentemente observados quando o animal acometido por timpanismo já se encontra em quadro clínico mais avançado, sendo necessárias medidas emergenciais para salvar a vida do animal. Os sintomas visíveis desse distúrbio, inicialmente, são: estufamento do lado esquerdo do animal, desconforto, perda de apetite e de ingestão de líquidos e aumento da salivação. Após algum tempo, o quadro evolui e os animais se posicionam em decúbito lateral, com respiração ofegante e língua para fora. Se não houver a intervenção de um médico veterinário, o animal pode ir a óbito rapidamente. A taxa de mortalidade de bovinos acometidos por timpanismo é alta, o que acarreta perdas econômicas significativas. Por isso, é essencial adotar medidas para evitar esse problema, realizando um manejo nutricional adequado e mantendo atenção constante ao comportamento do gado.

Fonte: Adaptado de Núcleo de Pesquisa Ensino e Extensão em pecuária-NUPEEC

4. Tratamento

O tratamento é estabelecido de acordo com o tipo de timpanismo e a gravidade do quadro clínico do animal, considerando especialmente a presença de risco iminente de óbito. Nos casos de emergência, tanto no timpanismo primário quanto no secundário, recomenda-se o uso de trocarte e cânula na fossa paralombar esquerda para a descompressão do rúmen, por meio da liberação dos gases acumulados. Quando esse procedimento não promove a melhora esperada, pode ser necessária a realização de uma rumenotomia. Após o alívio da pressão ruminal ou em quadros não emergenciais, as seguintes abordagens terapêuticas podem ser adotadas. No timpanismo espumoso, além da eliminação dos gases, é necessário controlar a espuma. Para isso, recomenda-se a administração de óleos, antifermentativos e laxativos (por via sonda ou no local da trocaterização), com o objetivo de reduzir a estabilidade da espuma e facilitar a eliminação do conteúdo ruminal. Já no timpanismo gasoso, decorrente de obstrução ou redução do lúmen esofágico, utiliza-se a sondagem esofágica como medida terapêutica para alívio da obstrução

5. Prevenção e controle 

Para reduzir o risco de timpanismo, é fundamental adotar um manejo nutricional adequado, evitando dietas excessivas de grãos e com deficiência de fibras. A inclusão de volumosos, como feno ou silagem, nas dietas de confinamento é uma importante medida preventiva, pois aumenta o tamanho das partículas do alimento, reduz a velocidade de fermentação ruminal e estimula a ruminação. Como consequência, há maior produção de saliva, que auxilia na neutralização dos ácidos ruminais e reduz a estabilidade da espuma. Outra estratégia preventiva é o uso de aditivos tamponantes na dieta, que ajudam a manter o pH ruminal dentro de valores adequados e a melhorar a eficiência da fermentação, reduzindo a incidência de distúrbios metabólicos. Além disso, recomenda-se evitar que os animais tenham acesso a áreas próximas a árvores frutíferas, pois a ingestão de frutas inteiras, como mangas e laranjas, pode causar obstrução esofágica e timpanismo.

6. Considerações finais 

O timpanismo continua sendo um dos principais desafios da bovinocultura, especialmente em sistemas intensivos de produção. Apesar da rápida evolução e do risco de morte dos animais, a maioria dos casos pode ser evitada por meio de manejo nutricional adequado, monitoramento constante do rebanho e identificação precoce dos sinais clínicos. Dessa forma, investir em medidas preventivas e no acompanhamento veterinário não apenas reduz prejuízos econômicos, mas também contribui para o bem-estar animal e para uma produção mais eficiente e sustentável.

 

Referências Bibliográficas:

BABA AHMADY, Ebrahim. Un caso clínico de timpanismo ruminal agudo en bovino. REDVET – Revista Electrónica de Veterinaria, Málaga, v. 18, n. 9, p. 1-10, set. 2017.

COUTINHO, Luiz Teles et al. Avaliação da conduta terapêutica em casos de timpanismo espumoso em bovinos. Medicina Veterinária, Recife, v. 2, n. 2, p. 33-37, 2008.

COUTINHO, Luiz Teles et al. Fatores de risco relacionados à ocorrência do timpanismo espumoso em bovinos criados na região do agreste meridional do estado de Pernambuco, Brasil. Ciência Animal Brasileira, Goiânia, v. 13, n. 3, p. 368-376, jul./set. 2012.

DALTO, André Gustavo Cabrera et al. Timpanismo espumoso em bovinos leiteiros em pastagens de Trifolium spp.       Pesquisa Veterinária Brasileira, Rio de Janeiro, v. 29, n. 5, p. 401-403, maio 2009.

OLIVEIRA, Raiane Lima de et al. Timpanismo em bovinos. In: Seminário de Iniciação Científica do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro , 5., 2019.

PAGANI, João Alberto Barbosa; THAIS. Timpanismo em ruminantes. Revista Científica Eletrônica de Medicina Veterinária, Garça, ano 6, n. 10, jan. 2008.

PANZIERA, Welden et al. Timpanismo em bovinos, secundário à obstrução esofágica por Citrus limon (limão siciliano). Pesquisa Veterinária Brasileira, Rio de Janeiro, v. 36, n. 5, p. 397-400, maio. 2016.

 

Autores: Carolina Emiliano B. Polido e Willyan Freitas Martins – Discentes da Liga de Bovinos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

Supervisionado por Prof. Clayton B. Gitti – Docente do Curso de Medicina Veterinária da UFRRJ

Fotos: Adaptado de Núcleo de Pesquisa Ensino e Extensão em pecuária-NUPEEC