Autores: Ana Luísa Millan e Carolina Polido – Discentes da Liga de Bovinos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

Supervisionado por Profª Ana Paula L. Marques e Prof. Clayton B. Gitti – Docentes do Curso de Medicina Veterinária da UFRRJ

 

1. INTRODUÇÃO

De acordo com os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes ao ano de 2023, o Brasil possui um rebanho de 21,8 milhões de ovinos e 12,9 milhões de caprinos, representando uma importante fonte econômica para o país.

Um dos grandes obstáculos enfrentados pelos produtores são as endoparasitoses, ou verminoses, que resultam em consideráveis prejuízos financeiros, devido à redução na produção, aumento da mortalidade e custos com tratamentos. Portanto, é fundamental entender as estratégias de controle, identificar a origem da infecção e analisar os fatores que contribuem para sua propagação.

2. ETIOLOGIA

 A verminose é uma doença parasitária causada por diversas espécies de vermes que acometem pequenos ruminantes de todas as idades, sendo mais grave em animais jovens, fêmeas prenhes, lactantes, animais mal-nutridos e imunossuprimidos.

Levantamentos apontam que os vermes Trichostrongylus colubriformis, Strongyloides papillosus, Oesophagostomum columbianum e Haemonchus contortus são os de maior prevalência e importância econômica. Entre esses parasitas, pode-se destacar o Haemonchus contortus como o mais patogênico, devido ao seu hábito hematófago (consumo de sangue do hospedeiro), provocando um quadro clínico caracterizado por anemia.

3. FONTES DE INFECÇÃO

O principal meio de infecção ocorre quando caprinos e ovinos têm contato com pastagens contaminadas por ovos ou larvas de helmintos. Ao consumirem a vegetação contaminada, os animais ingerem os ovos ou larvas, que se desenvolvem em seu trato digestivo.

As fezes de animais infectados contêm ovos ou larvas que se depositam no solo, nas pastagens e na água, contaminando o ambiente e potencializando a disseminação da infecção.

4. SINAIS CLÍNICOS

Os animais podem apresentar mucosas pálidas, edema submandibular, escore corporal baixo, diarreias, ascite, apatia, retardo no crescimento, queda na produção, pelagem sem brilho e eriçada.

É importante destacar que nem todos os animais apresentarão todos esses sinais clínicos de forma simultânea ou com a mesma intensidade. A manifestação dos sinais varia de acordo com diversos fatores, como o nível de infestação parasitária, a espécie e idade do animal, seu estado nutricional, a presença de outras enfermidades e a resistência individual.

Portanto, a observação cuidadosa e contínua dos animais é essencial para detectar precocemente alterações no comportamento ou no estado físico que possam indicar a presença de parasitoses.

5. DIAGNÓSTICO

O diagnóstico eficaz das verminoses deve envolver a combinação de sinais clínicos com exames laboratoriais, especialmente a Técnica McMaster ou OPG. O uso de ferramentas como o FAMACHA e a cultura de larvas também ajuda na escolha de estratégias de controle mais eficazes, incluindo o uso racional de vermífugos e o manejo preventivo.

a) EXAME CLÍNICO DO ANIMAL

  • Avaliar coloração de mucosas: usada para detectar anemia (comum em Haemoncose)
  • Avaliar condição corporal: animais com verminose tendem a ter emagrecimento progressivo
  • Inspeção da pelagem: pelos opacos, eriçados e com falhas
  • Palpação abdominal: pode revelar abdômen distendido por gases ou líquidos, associado à verminose intestinal
  • Avaliação de linfonodos superficiais: linfonodos aumentados podem indicar resposta imune às infecções parasitárias
  • Observação de sinais clínicos gerais: letargia, fraqueza, edema submandibular, diarreia, entre outros
  • Verificação de sinais de desidratação: devido à diarreia e à perda de proteínas comuns em verminoses
  • Avaliação da frequência respiratória e cardíaca: aumento pode estar relacionado à anemia severa e dificuldade em oxigenação adequada

b) MÉTODO FAMACHA

A avaliação dos animais por esse método deve ser feita durante todo o ano, a cada duas semanas, na época das chuvas, ou mensal no período seco. Deve ser realizado dessa forma, pois em épocas mais úmidas, o ambiente apresenta maior contaminação por larvas de vermes.

Passo a passo:

  • Examinar o animal sob a luz natural;
  • Expor a conjuntiva pressionando a pálpebra superior e a inferior para baixo com outro dedo, expondo apenas a conjuntiva (evite expor parcialmente a terceira pálpebra – membrana branca localizada no canto interno dos olhos);
  • Observe a coloração na parte mais interna da conjuntiva inferior;
  • Compare a coloração da conjuntiva com o grau do cartão.

Fonte: Zootecnia Brasil

Cuidados especiais no uso do Método Famacha:

  • A anemia nem sempre é causada por verminose, deve-se investigar outras possíveis causas;
  • Filhotes têm a mucosa ocular mais corada do que os adultos;
  • Não usar fotocópia do cartão Famacha, pois há perda na qualidade da coloração, alterando a avaliação;
  • Só usar o cartão se tiver sido treinado por um profissional experiente, com prática no uso do método.

c) EXAMES LABORATORIAIS

 Hemograma: não identifica diretamente os vermes, mas ajuda a reconhecer os efeitos que eles causam no organismo, especialmente anemia e alterações nos leucócitos, fornecendo um quadro complementar ao exame clínico e outros exames laboratoriais.

Ovos por Grama de Fezes (OPG): é um exame coprológico que quantifica os ovos de helmintos eliminados nas fezes dos animais.

Coleta de fezes da ampola retal. Foto: Samuel Souza

Vantagens desses métodos:

  • Avaliar o grau de infecção do animal ou do rebanho;
  • Auxiliar na decisão sobre o uso de vermífugos, evitando tratamentos desnecessários;
  • Monitorar a eficácia dos tratamentos antiparasitários;
  • Ajudar na seleção de animais mais resistentes à verminose;
  • Contribuir para o manejo integrado de parasitas, reduzindo o risco de resistência.

 6. PREVENÇÃO E CONTROLE

A principal dificuldade para o controle do parasitismo é o uso inadequado de vermífugos, com consequente perda da eficácia do tratamento. Para evitar essa questão, podem ser utilizados métodos seletivos, tratando apenas animais mais parasitados, o plano de controle deve ser adaptado à realidade de cada propriedade. Dessa maneira, o produtor deverá avaliar a situação, juntamente com um médico veterinário, e escolher quais medidas poderão ser aplicadas na sua produção.

Medidas preventivas:

  • Evitar a superlotação de animais na pastagem;
  • Quarentena para animais recém-chegados;
  • Cumprimento do cronograma regional para a imunização do rebanho;
  • Isolamento de animais doentes;
  • Higiene rigorosa dos cochos, bebedouros e instalações;
  • Fermentação do esterco por, no mínimo, 60 dias antes do uso;
  • Fornecimento de alimento e água de qualidade, pois a nutrição é fundamental para uma boa imunidade;
  • Pastagens com altura superior a 15cm do solo, visto que a maioria das larvas dos vermes se encontra até 5cm;
  • Reserve para feno ou silagem o capim oriundo de piquetes mais contaminados;
  • Separação de animais jovens e adultos;
  • Rotação de pasto entre espécies animais diferentes (exemplo: ovinos e bovinos);
  • Descarte de animais mais sensíveis às verminoses;
  • Seleção de animais mais resistentes.

7. TRATAMENTO

Os cuidados devem ser iniciados após a realização dos exames clínicos, Método Famacha e, se possível, exames laboratoriais. As principais medidas são: vermifugar ovinos (grau 3 a 5 no Famacha) e caprinos (grau 4 a 5 no Famacha); retardar o aparecimento de nematoides resistentes aos anti-helmínticos; escolher o anti-helmíntico mais adequado.

Como escolher o melhor anti-helmíntico?

  • Procure um médico veterinário qualificado para obter informações sobre o controle de verminose na sua região;
  • Realize exame de fezes periódicos nos animais, para conhecer quais parasitos acometem seu rebanho;
  • Conheça a resistência dos parasitos aos medicamentos;
  • Administre a dose correta do vermífugo pela via de administração recomendada na bula do medicamento, de acordo com o peso do animal.

É importante que o produtor se conscientize dos riscos da utilização excessiva e sem avaliações técnicas sobre medidas apropriadas para cada caso, acarretando diversos prejuízos para a produção como: o custo elevado dos medicamentos, resíduos na carne e no leite e a resistência parasitária.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

As verminoses representam um dos maiores desafios para a criação de pequenos ruminantes, especialmente devido ao avanço da resistência parasitária, que agrava ainda mais o problema. Os prejuízos econômicos causados por essas infecções são significativos, e, por isso, é fundamental corrigir falhas no manejo sanitário, adotar medidas eficazes de prevenção e controle, além de utilizar os anti-helmínticos de forma criteriosa. O uso inadequado desses medicamentos pode gerar gastos excessivos, resíduos indesejáveis na carne e no leite, além de comprometer a produtividade dos animais. Nesse contexto, fica claro que a adoção de boas práticas sanitárias é indispensável para garantir a sustentabilidade e o sucesso da produção de pequenos ruminantes.

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