Estrutura é uma concha interna reduzida que ganhou nova função ao longo da evolução

Quem já limpou uma lula provavelmente se deparou com uma estrutura fina, translúcida e rígida escondida no dorso do animal. Popularmente conhecido como “pena” e também chamada, de forma informal, de “coluna”, ela não é um osso nem uma coluna vertebral. Na verdade, trata-se de uma estrutura que tem origem na concha dos ancestrais dos moluscos e que, ao longo da evolução, passou a ficar dentro do corpo da lula.

O pesquisador do Instituto de Pesca (IP-APTA), Fábio Sussel, explica que a lula é um molusco “univalve”, ou seja, possui uma única estrutura equivalente a uma concha. A diferença é que, ao contrário das ostras, mexilhões e vieiras, também moluscos e parentes próximos das lulas, que possuem duas valvas (conchas) externas, a estrutura da lula foi modificada e internalizada.

“De certo modo, podemos falar que é como se fosse a coluna da lula, uma estrutura que dá sustentação ao manto, aquele ‘canudo’ do corpo do animal. Sem ela, o manto seria muito molengo e não proporcionaria a sustentação necessária para o corpo do animal”, explica Sussel.

Foto: whitelily-Pixabay

Curiosidades

O nome técnico da estrutura é gládio, enquanto “pena” é a denominação popular. E o apelido tem uma história curiosa: a estrutura é fina e pontiaguda e, antigamente, a tinta produzida pela própria lula era utilizada para escrever, em uma referência às antigas canetas de pena. “Como a ponta do gládio é bem fininha, então usavam a própria tinta da lula para escrever cartas. Por isso ela ficou conhecida como pena, e não por parecer necessariamente uma pena de galinha”, conta o pesquisador.

A estrutura interna da lula é resultado de milhões de anos de transformações evolutivas dos moluscos. Em diferentes grupos de cefalópodes, a concha ancestral foi sendo reduzida, modificada, internalizada ou completamente perdida. Nas lulas, o gládio permaneceu como uma estrutura interna que ajuda a sustentar o manto, a parte do corpo que envolve os principais órgãos do animal. A solução evolutiva permite que a lula tenha sustentação sem depender de uma concha externa pesada e rígida. Essa característica ajuda a explicar uma das particularidades dos cefalópodes: animais de corpo predominantemente mole, mas capazes de realizar movimentos rápidos e precisos na água.

A “pena” é apenas uma das muitas curiosidades da anatomia da lula. O mais surpreendente provavelmente seja em relação a quantidade de corações: as lulas possuem 3 corações, sendo dois branquiais, que bombeiam o sangue em direção às brânquias, e um coração sistêmico, responsável por distribuir o sangue pelo restante do organismo.

O sangue também chama atenção. Em vez da hemoglobina, presente nos seres humanos e responsável pela coloração vermelha do sangue, as lulas utilizam hemocianina, uma proteína que contém cobre e confere uma coloração azulada ao sangue quando está oxigenada. Pois é, lulas possuem sangue azul.

Embora não exista atualmente um cultivo comercial de lula, o animal tem importância para a atividade pesqueira. Segundo Sussel, o Instituto de Pesca realiza a estatística pesqueira do Estado de São Paulo, e a lula aparece como um importante recurso dentro desse monitoramento. “Monitorar os estoques pesqueiros é fundamental para manutenção dos mesmos. Defendemos, acima de tudo, o consumo de proteína aquática, com o intuito de levar informação que traga mais segurança e conforto para o consumidor ter mais interesse em consumir lula que, nutricionalmente, é fantástica”, afirma o pesquisador.

Por André Casagrande, com informações da Ascom IP/APTA
Foto: Divulgação IP