Animais e sociedade no Brasil dos séculos XVI a XIX

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Na saúde e na doença

Para garantir sua própria sobrevivência, colonos e missionários observavam como determinados animais faziam uso de determinadas plantas, como a copaíba, esfregando suas feridas nos troncos dessa árvore com poder cicatrizante. Ou como o macaco guariba, utilizava determinadas plantas em sua automedicação: “Estes guaribas costumam a fazer-se a barba uns aos outros, quando as têm crescidas, ajuntando-se para isso de certas pedras agudas, unhas e dentes; e quando se lhes tiram com algumas frechas e delas são ligeiramente feridos, tornam com muita brevidade a tira-la logo do corpo; e com acendida cólera a arremessam contra o que lha atirou, intentando fazer o mesmo que lhes fizeram, e a ferida curam depois com facilidade, aplicando-lhe certas ervas só dêles conhecidas.” (Brandão, 2010:172).

Missionários anotavam esse receituário natural, assim como os locais onde os componentes eram coletados. As fórmulas criadas pelo ameríndio pareciam infinitas, e os misteriosos poderes de cura atribuídos a determinados animais foram assimilados pelo colonizador. De fato, eram pouco claras as fronteiras entre os princípios que regulavam a medicina clássica, guiada por ideias universalistas e generalistas de Hipócrates, e os princípios que orientavam o uso dos recursos oferecidos pela natureza brasileira.

Segundo Sergio Buarque de Holanda (1975), as receitas que os bandeirantes aprenderam com os indígenas em matéria de saúde eram denominadas ‘remédios de paulistas’. Nas cidades, açougues vendiam sebo de rim de carneiro castrado, e anunciavam ‘produtos’ para curar determinadas enfermidades como, por exemplo, ‘cachorro pelado’ para remédio.

O chifre do veado torrado misturado à banha do jacaré era considerado um antídoto eficiente contra veneno de cobras, muito usado por viajantes europeus. A carne do sapo cururu, torrada e pulverizada, aliviava os trabalhos de parto, e dentes de cascavel moídos eram recomendados nas úlceras malignas. Para a febre amarela, receitava-se sanguessugas e “pombos abertos vivos pelo espinhaço postos nas plantas dos pés”. (Ribeiro,1971:151).

Para tratar a varíola, era indicado um linimento para ser aplicado nas feridas, feito com cabeças de coelho assadas. Os miolos eram retirados e amassados com o sumo de algumas ervas. O tratamento incluía a pedra de benzoar do bucho do porco espinho. Ribeiro (op.cit.) se referiu às pedras de bezoar encontradas no aparelho digestivo de animais ruminantes, como cabras e antílopes, por suas propriedades curativas conhecidas desde a Antiguidade. Dissolvidas em água pela manhã, conservavam a juventude, preveniam e abrandavam feridas e sarampos. O local de origem do animal determinava suas qualidades, e as melhores pedras eram retiradas das cabras selvagens da Pérsia.

As pedras vindas do Oriente foram logo substituídas por material retirado de diversas espécies abundantes no território brasileiro, mais barato e acessível. O Governador Rodrigo Cesar de Meneses registrou suas recomendações a respeito do medicamento: “…da célebre pedra de porco-espinho, que era geralmente considerada o mais eficaz dos benzoares do Oriente e indicada nos casos de vômitos, fraqueza de estômago, aflições do coração, afetos uterinos das mulheres, ‘paixões dos rins’, retenção de urina e febres malignas. No Brasil, essa preciosidade era fornecida pelos porcos-do-mato.” (Holanda, 1975:91).

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Imagem: Rugendas, 1835 – Pescadores, Costa de Ilhéus (detalhe) edição digital de A.L. Camphora

2017-11-22T12:44:16+00:00