A segurança zoossanitária é fundamental para o Brasil manter e aumentar sua posição de grande produtor e exportador de produtos de origem animal

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Entrevista exclusiva para a Animal Business-Brasil com o Professor Josélio Andrade Moura, MSc, PhD, Membro titular da Academia Brasileira de Medicina Veterinária, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Veterinária.

Animal Business Brasil: O Brasil tem todos os estados e Distrito Federal livres de Febre Aftosa, mas apenas Santa Catarina atingiu o estágio avançado de “Livre de Febre Aftosa Sem Vacinação”. Qual a importância para o Brasil de ter os estados livres de Febre Aftosa?

Professor Josélio Andrade Moura: O único Estado reconhecido pela OIE – Organização Mundial de Saúde Animal, com o status de “Livre de Febre Aftosa Sem Vacinação” é Santa Catarina, há mais de 10 anos. O objetivo  nal do Plano Nacional de Erradicação da Febre Aftosa é que todo o País  que livre dessa enfermidade e que não haja necessidade de praticar a vacinação, e isto está previsto para o ano de 2020. Entretanto, é necessário que não haja a circulação viral, não somente no estado postulante a esse status, mas também nos vizinhos e nos países limítrofes que possam influenciar os circuitos pecuários. Ademais, é necessário que os estados disponham de um serviço veterinário o cial muito bem estruturado, com equipes aprestadas para atuação rápida em caso do reaparecimento da enfermidade, disponha de um cadastro dinâmico e atualizado, controle de trânsito de animais e produtos e ciente e que em todos os municípios tenha um conselho de sanidade animal atuante, entre outras estruturas importantes para a efetivação do status desejado. Por outra parte, o Brasil só terá maior segurança na suspensão da vacinação quando todo o Continente alcançar esse status. A vacina oleosa, cuja tecnologia é brasileira, desenvolvida pelo Ministério da Agricultura com apoio do Centro Pan-Americano de Febre Aftosa, tem sido uma importante arma para a manutenção do status de livre de febre aftosa, cuja retirada deve ser efetivada mediante um e ciente estudo soro-epidemiológico. O Dr. Alex Thierman, presidente da Comissão do Código Zoossanitário Internacional da OIE, a rmou que só haverá segurança sanitária quando em todos os países do Continente Americano não houver circulação viral e uma estrutura veterinária adequada.

Aproveito a oportunidade, a bem da história, para homenagear dois grandes cientistas: Doutor Paulo Augé de Melo e Doutor Ivo Gomes, que desenvolveram a vacina oleosa, e que foram reconhecidos pela Sociedade Brasileira de Medicina Veterinária com a outorga da Medalha do Mérito da Medicina Veterinária Brasileira.

De que forma o produtor pode contribuir com ações de controle das doenças em geral e não apenas da Febre Aftosa?

O produtor é o primeiro beneficiário do programa de controle de enfermidades. Também é o primeiro maior prejudicado no caso do aparecimento das enfermidades de notificação obrigatória e outras, como é o caso da Febre Aftosa. No estado do Pará, como também em Rondônia, antes de obter o status de livre da Febre Aftosa, uma arroba de carne bovina era cotada por míseros R$ 28,00, porque a população bovina é em muito superior ao número de habitantes do Estado, e estes não tinham acesso ao mercado nacional e internacional. Por essa razão o produtor deve estar engajado no Programa Nacional de Sanidade Animal, que é a sua garantia ou o seguro de sua atividade pecuária. O produtor é o primeiro observador de qualquer mudança nosológica em seu rebanho, e por isso deve haver um entendimento intenso com o veterinário que dá assistência à sua propriedade, como também com o serviço veterinário o cial.

A luta contra as zoonoses em bovinos é constante. Qual o panorama do Brasil? É possível erradicar essas doenças?

O Brasil ainda luta contra enfermidades zoonóticas que poderiam estar sob controle efetivo. A Tuberculose, a Brucelose, os ectoparasitos que também atingem os humanos (zoonoses), poderiam estar sob severo controle. A OIE, a OMS (Organização Mundial de Saúde) e a FAO (Órgão das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), consideram o termo “Uma só medicina: a humana, animal e ambiental” a definição correta.

Vemos, recentemente, a mosca do estábulo disseminada pela prática ambiental indevida na lavoura da cana-de-açúcar afetar os bovinos, principalmente leiteiros, suínos e seus tratadores serem igualmente acometidos. Os danos econômicos causados à criação estão avaliados numa cifra superior a um bilhão de reais. A Dengue, a Zika, a Chikungunya, as leishmanioses e outras enfermidades zoonóticas ambientais devem ser tratadas, evitando assim o tratamento ambulatorial e hospitalar, com elevados custos para a saúde do povo e com altos reflexos econômicos e sociais ao País.

Além da Febre Aftosa, o Brasil pretende erradicar a Brucelose e a Tuberculose. Existem programas de controle eficazes?

Como falei anteriormente, os recursos orçamentários tanto no nível federal quanto dos estados estão minguando nesse quesito, carecendo reforço para a estrutura veterinária e laboratorial. Para tanto, é preciso uma ação dos produtores, representados por suas associações, cooperativas e sindicatos, federações e confederação, e a classe política ligada ao agronegócio no sentido de pressionarem o Governo a colocar na Lei Orçamentária Anual e Plurianual os recursos necessários para a execução desses programas que limitam a expansão da atividade pecuária. O controle dessas e de outras zoonoses, como a Raiva, com segurança, irá aliviar os hospitais (humanos) já tão de cientes.

Dê que maneira o pecuarista pode auxiliar e participar dos programas disponíveis de erradicação dessas doenças?

O pecuarista pode contribuir muito, para seu próprio benefício, participando ativamente do Conselho Municipal e Estadual de Sanidade Animal, das Associações de Produtores, das Cooperativas e dos Sindicatos e Federação, levando suas experiências e apresentando as dificuldades da sua lide. Cumprindo o calendário de vacinação e ajudando os seus vizinhos nos cuidados sanitários do rebanho estará contribuído bastante.

Com o  fim do embargo para os EUA da carne In natura do Brasil, a fiscalização e o controle devem ficar mais rígidos?

O fim do embargo norte-americano para a carne in natura brasileira foi uma grande conquista para o nosso país e o reconhecimento, pelos Estados Unidos da América, da similaridade do status de livre de Febre Aftosa com e sem vacinação (neste último caso limitado a Santa Catarina) uma importante vitória. Entretanto, é preciso ter controle rigoroso dos programas de sanidade animal, com vigilância permanente do trânsito interestadual e de fronteiras e o aperfeiçoamento e treinamento permanente da estrutura de Defesa Sanitária Animal e Inspeção de Produtos de Origem Animal, em todos os níveis.

Quais são as principais exigências que os pecuaristas terão que adotar para se enquadrarem nos requisitos para exportação?

A qualidade higiênico-sanitária e tecnológica dos produtos deve estar em primeiro lugar, e esse é o corolário para os demais requisitos.

O Brasil tem um eficiente controle de imunização contra as doenças reprodutivas? Quais os tipos de controle? E quais as doenças mais comuns?

Há uma forte conscientização dos pecuaristas sobre o controle das doenças reprodutivas. Faz parte do protocolo o controle rigoroso do rebanho do ponto de vista das enfermidades que afetam a vida reprodutiva e o descarte dos animais que não apresentam a higidez adequada para permanecerem no sistema. O médico-veterinário que presta assistência técnica à propriedade tem programa de computador que facilita o seu poder decisório e indica os animais que não acompanham adequadamente os índices estabelecidos.

Na sua opinião, quais são os principais desafios do médico-veterinário no mundo moderno?

O médico-veterinário necessita incorporar na sua formação profissional aspectos antropológicos, gerenciais, econômicos, noções de empreendedorismo e mercado, para melhor entender os valores e objetivos do seu mister profissional e assim prestar um serviço de maior qualidade ao cliente, cada vez mais exigente. A tecnologia tem avançado de forma célere, e a atualização profissional permanente torna-se um dos principais desafios. A educação continuada, com a participação nos congressos brasileiros de medicina veterinária, nos simpósios e cursos de atualização torna-se obrigatória para os profissionais que desejam continuar no topo da carreira profissional. Os congressos são uma forma importante para intercambiar ideias, trocar experiências, apresentar suas observações de inovações tecnológicas e conhecer os avanços pro ssionais.

2017-07-31T11:52:26+00:00