Por Priscila Angelica Vicente de Oliveira*

Durante muito tempo, produzir um animal geneticamente modificado foi um processo demorado. As técnicas tradicionais frequentemente envolviam a inserção de material genético em locais nem sempre previsíveis do genoma, seguida de várias etapas de seleção e reprodução. A chegada do sistema CRISPR/Cas9 mudou esse cenário ao permitir alterações direcionadas em genes de interesse.

Isso não significa, porém, que a edição gênica seja infalível. A alteração precisa ser confirmada, os possíveis efeitos não intencionais devem ser investigados e o animal precisa ser acompanhado ao longo de seu desenvolvimento. Ainda assim, a possibilidade de inativar, corrigir ou modificar genes específicos ampliou consideravelmente as aplicações da biotecnologia animal.

Na pesquisa biomédica, essa ferramenta permite desenvolver modelos que reproduzem alterações encontradas em doenças humanas. Em vez de observar apenas um quadro semelhante, o pesquisador pode investigar a participação de um gene específico na origem ou na evolução da doença. Isso favorece o estudo dos mecanismos envolvidos e a avaliação de novas terapias.

No agronegócio, a edição gênica vem sendo estudada para melhorar a resistência a doenças, a adaptação ambiental e algumas características relacionadas ao bem-estar. Em 2025, por exemplo, a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, aprovou uma alteração no gene CD163 de suínos. Quando presente em homozigose, essa alteração confere resistência ao vírus da Síndrome Reprodutiva e Respiratória Suína, a PRRS, uma das doenças de maior impacto econômico na suinocultura.

Na bovinocultura, uma das aplicações envolve o gene PRLR, relacionado ao fenótipo conhecido como slick, caracterizado por pelagem curta e associado a maior tolerância ao calor. A possibilidade de introduzir essa característica em diferentes raças pode ser especialmente relevante diante do aumento das temperaturas e da necessidade de adaptar os sistemas de produção. Também existem pesquisas voltadas à produção de bovinos geneticamente mochos, com o objetivo de reduzir a necessidade de descorna. São exemplos promissores, mas sua adoção depende de avaliação sanitária, regulatória, econômica e produtiva.

No Brasil, outro cuidado importante é não tratar edição gênica e transgenia como sinônimos. A Resolução Normativa nº 16 da CTNBio prevê a análise de produtos obtidos por Técnicas Inovadoras de Melhoramento de Precisão. Dependendo das características da alteração e da presença ou ausência de DNA recombinante no produto final, o organismo pode ou não ser enquadrado como OGM. A decisão, portanto, deve ser fundamentada tecnicamente e realizada caso a caso.

Nesse processo, a participação do médico-veterinário não pode ser secundária. Não basta confirmar que a edição ocorreu no local esperado. É necessário avaliar se o animal se desenvolve normalmente, se a alteração interfere em sua saúde, reprodução ou comportamento e quais consequências podem surgir ao longo das gerações. Em animais destinados à produção, somam-se ainda questões de biossegurança, sanidade, segurança dos alimentos e impacto ambiental.

A edição gênica aproxima áreas que, à primeira vista, parecem distantes. A mesma tecnologia empregada para compreender doenças humanas pode ajudar a enfrentar problemas sanitários da pecuária ou favorecer a adaptação dos animais ao ambiente. Seu verdadeiro avanço, contudo, não será medido apenas pela capacidade de modificar o genoma, mas pela forma responsável como essas modificações serão estudadas, avaliadas e aplicadas.

(*) Médica Veterinária | Membro da Coordenação de Atividade de Modelos Biológicos Experimentais (UFRJ) | Doutoranda em Ciências Morfológicas (ICB/UFRJ)

Imagem gerada por IA