Por Priscila Angelica Vicente de Oliveira*

 

Quando pensamos na suinocultura, a primeira imagem que vem à mente é a de uma das cadeias produtivas mais eficientes do agronegócio global. No entanto, para além do seu impacto econômico no setor agropecuário, o suíno (Sus scrofa domesticus) consolidou-se como um dos biomodelos mais valiosos e sofisticados para a medicina moderna e para a pesquisa translacional.

Embora a utilização experimental da espécie apresente marcos históricos antigos, sua padronização metodológica ganhou impulso decisivo a partir da década de 1940, com o desenvolvimento dos primeiros minipigs. Essa inovação superou as limitações de manejo impostas pelas raças comerciais de grande porte, viabilizando o uso padronizado e controlado em biotérios. Nas décadas subsequentes, o avanço da biotecnologia, desde a obtenção dos primeiros suínos transgênicos em 1985 até o advento de ferramentas de edição gênica como o sistema CRISPR/Cas9 (aplicado, por exemplo, ao nocaute do gene GGTA1), impulsionou a espécie a uma posição de destaque na pesquisa biomédica, com especial relevância para a cirurgia experimental e os xenotransplantes.

A afinidade anátomo-fisiológica

A proximidade fisiológica entre suínos e humanos é amplamente documentada pela anatomia comparada. O tamanho dos órgãos, a dinâmica do sistema cardiovascular, a anatomia renal, a estrutura do trato gastrointestinal e até mesmo a regeneração cutânea apresentam semelhanças que superam as de outros modelos animais tradicionais. Essas características tornaram a espécie indispensável para o teste de novas abordagens terapêuticas e procedimentos cirúrgicos complexos.

Principais contribuições dos suínos para a medicina do futuro

A utilização de suínos na pesquisa biomédica e no treinamento cirúrgico impulsionou avanços cruciais, destacando-se:

Treinamento em Cirurgia Robótica e Minimamente Invasiva: A anatomia abdominal e mecânica tecidual do suíno tornaram a espécie o padrão-ouro para o treinamento de médicos e cirurgiões veterinários em laparoscopia, endoscopia e na operação de plataformas robóticas de alta precisão.

Fronteira dos Xenotransplantes: Com o advento da edição gênica (como a tecnologia CRISPR), suínos geneticamente modificados vêm sendo desenvolvidos para desativar genes que provocam a rejeição hiperaguda em humanos. Transplantes experimentais de rins e corações suínos para pacientes humanos representam um dos maiores marcos da medicina contemporânea.

Desenvolvimento de Dispositivos Médicos e Hemodinâmica: Válvulas cardíacas suínas já são utilizadas há anos no tratamento de valvopatias humanas. Além disso, a espécie é fundamental para o teste pré-clínico de stents, enxertos vasculares e próteses ortopédicas.

Dessa forma, a importância da suinocultura extrapola as fronteiras da produção de alimentos. A convergência entre o setor agropecuário e a medicina translacional posiciona o suíno como um modelo biológico estratégico, cuja contribuição é decisiva para o desenvolvimento de novas tecnologias em saúde.

 

(*) Priscila Angelica Vicente de Oliveira é Médica Veterinária | Membro da Coordenação de Atividade de Modelos Biológicos Experimentais (UFRJ) | Doutoranda em Ciências Morfológicas (ICB/UFRJ)

Foto: Wirestock no Magnific.com