1. INTRODUÇÃO.

O livro “Zoonoses” da Sociedade Americana de Microbiologia, 4ª Edição, Washington-DC: ASM Press, 2016, assinala no seu conteúdo, que existem mais de 200 doenças emergente e reemergente espalhadas pelo mundo produzidas por príons, vírus, bactérias, rickettsia, fungos e protozoários, transmitidas de animais para humanos e de animais para animais, zoonoses, muitas conhecidas e identificadas e outras desconhecidas, em estudos epidemiológicos, com tendência a aumentar e se espalharem pelo planeta.

A maioria se situa na América do Norte, Índia, Europa e Ásia cujas barreiras geográficas e sanitárias são vencidas, muitas vezes, pela falta de Vigilâncias Sanitária, Ambiental e em Saúde eficientes, e movimentação intensa de passageiros e transporte de cargas pelas vias aérea, marítima e rodoviária, sem a certificação de biossegurança, principais meios de facilitação de dispersão de agentes biológicos causadores das zoonoses no planeta.

O aparecimento de doenças emergentes  estranhas e desconhecidas no final do Séc. XX e início do Séc. XXI, em várias partes do mundo como: Encefalite Espongiforme Bovina, EEB, vaca louca, Grã-Bretanha (1986);  Febre Hemorrágica do Congo,  Ebola, república democrática do Congo (1976); Síndrome da Imunodeficiência Adquirida/AIDS,  África Central (1980);  Gripe Aviária, H5N1, Hong Kong, China (1997) Síndrome Respiratória Aguda Grave-SARS, Oriente Médio, (2002) e Covid-19, Sars-Cov-2, Wuhan, China, (2019), às mais preocupantes de riscos epidemiológicos perigosos no mundo, fizeram com que autoridades internacionais de saúde criassem em 1994 o Programa Internacional de Monitoramento de Doenças Emergentes e Toxinas, ProMED, com objetivo de comunicação oficial rápida entre os continentes e criar medidas sanitárias protetoras, barreiras sanitárias, para impedir a disseminação da doença e evitar sua progressão pelo mundo. (Fig. 01)

Fig.01

2. O QUE É O ProMED?

Inaugurada em agosto de 1994, por iniciativa da Federação de Cientistas Americanos (FAS) e vinculado a Organização Mundial de Saúde (OMS) e sede em Boston, Massachusetts, USA, a Rede eletrônica global para monitoramento de doenças infecciosas emergentes, ProMED, é um Sistema de Comunicações que permite monitorar mundialmente com rapidez as doenças infecciosas emergentes de humanos, animais e plantas e estabelece uma parceria direta entre cientistas, médicos, veterinários, fitopatólogos e instituições que trabalham e têm interesse em saúde pública, em todas as partes do mundo. (WOODALL, J. 1996). (Fig. 2)

Fig.02

3. COMO FUNCIONA O ProMED?

Com uma plataforma eletrônica e digital espalhada oficialmente em mais de 150 países e 20 000 profissionais cadastrados, operando diuturnamente, 24h, 7 dias da semana, o Sistema de Vigilância, através da ProMED-mail – www.promedmail.org, recebe as notificações de surtos epidêmicos no mundo, verifica a veracidade da fonte dos informes, analisa os dados recebidos e emite avisos, alertas e informações precoces para toda a rede. A rede é moderada por cientistas e especialistas em doenças infecciosas, que discutem e acrescentam comentários relevantes. (WOODALL,P. J.)

No ar e operando há mais de 30 anos, a ProMED se envaidece de ser a pioneira agência de notícias no mundo a divulgar informações científicas dos primeiros surtos epidêmicos de SARS, Chikungunya, Ebola, Zika, MERS, COVID-19 etc. (ISID,2024).

4. ProMED NO MUNDO.

Com sede em Boston, Massachusetts, USA, a maior Agência Internacional de Monitoramento de doenças emergentes do planeta, a ProMED, é gerenciada pela (HEALTHNET/SATELLIFE), uma ONG sem fins lucrativos que monitora o surgimento de doenças desconhecidas humana, animal, vegetal e agravos ambientais no planeta. Conectando uma rede com mais de 40 000 assinantes em todo o planeta, forma essa gigantesca rede Internacional de comunicações em saúde, centenas de Organizações, Instituições, Ministérios, Universidades, Fundações, etc., espalhadas no mundo, como: Organização Mundial de Saúde, WHO-Genebra; Organização Pan-Americana da Saúde, OPAS – Washington; Center Disease Control- CDC, Atlanta; Instituto Pasteur-França; National Institute of Health Sciences-NHI – Japão; Fundação Oswaldo Cruz, Fiocruz- Brasil; Empresa Brasileira de Pesquisa Agrária, EMBRAPA-Brasil; Ministérios da Saúde do Brasil, Canadá, China, Suécia, Moçambique, Peru e muitas Instituições de Pesquisas pública e privada distribuídas no Mundo e América Latina. (WOODALL,J.)

Tendo como objetivo principal a Vigilância em Saúde, que corresponde à atenção máxima às Vigilâncias Sanitária, Animal, Vegetal e Ambiental, o resultado mais imediato da ProMed é o compartilhamento rápido de informações recebidas e a discussão de questões envolvendo o aparecimento de novas doenças emergentes e reemergentes por um número representativo de especialistas e possíveis medidas protetivas e preventivas de emergência para evitar os agravos e prejuízos em saúde, às populações humana e animal mundiais.

5. ProMED/CIEVS NO BRASIL.

No Brasil, a principal aliada do ProMED é a Secretaria de Vigilância em Saúde e Meio Ambiente/MS. Tem também, como principais adjuvantes da política governamental de Vigilância em Saúde, a Escola Nacional de Saúde Pública – ENSP/FioCruz, a EMBRAPA/Meio Ambiente e a Fundação Amparo a Pesquisa do Estado do Rio- FAPERJ, entre outras instituições públicas e privadas brasileiras.

Para cumprir com a política governamental de monitoramento de doenças emergentes em todo o território nacional, à semelhança do ProMed/USA, o governo brasileiro criou em outubro de 2005, o Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS), com objetivo de aprimorar a resposta às situações de emergência em saúde pública no Brasil. (Fig. 3)

Fig.03

O CIEVS Nacional compartilha com uma rede mundial de alerta e resposta (Global Outbreak Alert Response Network – Goarn), constituída por Centros que têm a finalidade de detectar e apoiar a intervenção oportuna sobre emergências de saúde pública, visando esclarecer e evitar a propagação internacional de doenças. (SES,PARANÁ).

Obs.

A Rede CIEVS está em constante expansão para melhor detectar e atuar em potenciais emergências em saúde pública e conta atualmente com 190 unidades no Brasil divididas em 27 estados; 26 capitais; 46 municípios estratégicos; 14 municípios de fronteiras; 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI); 20 regionais; 22 de iniciativa própria e uma unidade nacional. (SES/RORAIMA)

– Os CIEVS dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas terão sua abrangência no território indígena, sendo as especificidades de sua organização estabelecidas pela Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde.

– Os CIEVS Regionais e os CIEVS de Fronteiras poderão ser de gestão municipal ou estadual, de acordo com pactuação entre as comissões intergestores, bipartite ou tripartite, MS, conforme sua área de abrangência

– A implantação de novas unidades de CIEVS deverá ser comunicada ao CIEVS Nacional para incorporação na Rede CIEVS.

6. SISTEMA MUNDIAL DE INFORMAÇÃO ZOOSSANITÁRIA.

Com o surgimento de novas epizootias emergentes no mundo como: Dengue, Febre Amarela, Febre do Nilo Ocidental, Mayaro, Oropouche, Chikungunya, etc., e a necessidade de monitoramento e vigilância em saúde pública animal, bem como seus agentes e vetores, para evitar suas propagações e disseminações pelo mundo, existem atualmente dois grandes sistemas de Vigilância em Saúde Animal: o portal OIE/WAHIS da Organização Mundial de Saúde e o GLEWS da Organização das Nações Unidas- WHO-OIE-FAO.

Funcionando dia e noite, durante 24 horas, organizado e manejado por especialistas de várias áreas científicas, e auxiliado ainda pelo Disease Bio-Portal/WOAH, esses dois grandes Sistemas conectado pela internet, universalmente, constitui um imenso observatório de vigilância em saúde animal (domésticos, selvagens e peixes) para detectar através de sistemas tecnológicos modernos – GIS e RS -, as novas doenças emergentes, zoonoses, de interesse em saúde pública humana e animal no mundo. (Fig. 04)

Fig.04

 

* Dr. Edino Camoleze – Cel med vet mil. Membro Titular da Academia Brasileira de Medicina Veterinária. MS Planejamento e Tecnologia de Alimentos. Zoogeografia da América do Sul. Contatos: edino0644@gmail.com

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